‘Bets são uma doença permitida pelos governos Temer e Bolsonaro’, avalia cientista político

Foto: Joédson Alves | Agência Brasil

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28 Setembro 2026

Cientistas políticos avaliam impacto de decisão de proibição de bets anunciado por Lula na disputa eleitoral.

A informação é de José Bernardes, Larissa Bohrer e Maria Teresa Cruz, publicada por Brasil de Fato, 25-09-2026. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, nesta sexta-feira (25), a proibição das bets, incluindo medidas de punição para quem continuar operando as apostas online ou fizer publicidade. A decisão foi tomada a menos de 10 dias do primeiro turno das eleições, diante de um cenário de endividamento das famílias e adoecimento mental de pessoas que acabam se viciando nos jogos.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Francisco Fonseca, professor de Ciência Política na PUC-SP e na FGV-SP, define o tema como “sensível” e reconhece a urgência do debate. Ele destaca que as pessoas estão endividadas e, mesmo com os indicadores econômicos positivos, diminuíram seu poder de consumo, e isso tem a ver com as bets. “É uma doença permitida pelos governos Temer e Bolsonaro”, afirma.

Contudo, considera que o impacto da proibição imediata pode ser drástico. “Ela precisa ser calibrada eleitoralmente e também politicamente”, pontua. Ele avalia que há uma dependência dos clubes de futebol com as casas de aposta e também pondera a arrecadação do governo. “Na minha avaliação, o ideal seria uma proibição parcial, em um primeiro momento, a começar pela propaganda, e estabelecer um prazo para ir tomando medidas mais duras até o fechamento total desse tipo de jogo, que é um jogo de azar, de dependência, de destruição psicológica e econômica”, afirma.

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Já o advogado e cientista político Jorge Folena considera que a decisão de Lula foi um grande acerto porque ataca uma situação que tem causado muitos prejuízos para as famílias e para a economia. “É uma medida para ser saudada. É um dia para que famílias saúdem o que Lula fez ao Brasil. E cabe destacar: as mulheres são as que mais sofrem com isso”, avalia, lembrando que muitas das famílias são chefiadas por mulheres, que são também o grupo majoritário do eleitorado: 53%.

Nesse sentido, Francisco Fonseca concorda ao destacar que, apesar de o Brasil ainda ser um país machista, “90% da titularidade do Bolsa Família é das mulheres”. “As mulheres, em particular, eu diria, desejam muito que essa praga [bets] fosse terminada, e elas têm um papel importante na decisão das eleições”, avalia.

Folena também observa que, apesar do momento crítico da tomada de decisão de Lula e das eventuais repercussões que isso possa ter, o presidente assume para si um debate premente na sociedade. “Lula tem um poder de agenda ao mexer nas bets. Porque ele antecipa o debate, assume a agenda, não deixa para a oposição. Não adianta fazer programas como o Desenrola e manter os jogos. Foi uma medida responsável do presidente Lula”, elogia.

Grupo de eleitores do ‘nem-nem’

O cientista político e professor Francisco Fonseca avalia que, nessa reta final de campanha, além da importância do eleitorado feminino, o foco precisa ser no grupo que não se alinha nem a Lula nem a Bolsonaro. Nesse aspecto, Fonseca defende que é preciso que a campanha foque em explicar a essa parcela do eleitorado o que está em jogo. “É preciso trabalhar a ideia de uma sociedade que está doente por causa das bets para sensibilizar essa parcela do eleitorado”, afirma. Além disso, ele defende que Lula trabalhe a mensagem direta de que “caso o candidato de direita vença, estamos abertos a um caminho de ditadura”.

“Vai ser uma série de impeachment, a começar pelo Supremo Tribunal Federal”, aponta. O analista também destaca a proximidade de Flávio Bolsonaro com o presidente estadunidense Donald Trump, que tem feito movimento de interferência no processo eleitoral brasileiro. “O governo Trump é um governo inconstitucional e eles [bolsonaristas] querem reproduzir isso aqui. Existem dois projetos em disputa hoje no país: o de democracia política, social e soberania e um projeto de destruição da soberania, democracia e dos projetos sociais. A equipe econômica de Flavio já falou sobre os cortes. É um misto de Milei com El Salvador”, argumenta.

Fonseca também avalia que o ideal seria aumentar para aproximadamente 220 o número de deputados federais para tornar os dias de Lula menos complicados na presidência. “A outra coisa é evitar que o Senado não caia nas mãos da extrema direita”, alerta.

Sobre a afirmação de que o segundo turno é uma nova eleição, Fonseca concorda em partes. “O eleitor vai novamente votar; é uma nova mobilização de campanha, novos apoios, você tem novos fatos políticos que podem acontecer, mas é tudo muito relativo. O que me parece mais preocupante é a questão externa, ou seja, o governo Trump”, conclui.

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