25 Setembro 2026
Menos de 1% da população moçambicana é branca, sendo a maioria remanescente de seu passado colonial, quando Portugal ditava as normas do país africano. Boa parte dos colonos e seus descendentes retornaram à Europa após a Revolução dos Cravos e a independência de Moçambique. Outros, muito poucos, decidiram ficar. O escritor Mia Couto (Beira, 1955), uma grande referência da literatura em língua portuguesa e presença frequente nas apostas para o Nobel, pertence a essa microscópica minoria.
A entrevista é de Ángel Mora, publicada por El Cultural, 21-09-2026.
O caso de Mia Couto é extraordinário por esse e outros motivos. Orgulhoso de ser moçambicano, ele provém de uma família portuguesa que, nos anos 1950, se estabeleceu nesse país subsaariano às margens do Índico, fugindo do regime de Salazar. Sem ter alcançado a maioridade, juntou-se à Frente de Libertação de Moçambique - FRELIMO, um movimento guerrilheiro que lutava pela independência de Moçambique e que governa o país desde 1975, atravessando uma guerra civil nesse período.
Aos 18 anos, mudou-se de sua Beira natal para a capital, então chamada Lourenço Marques e, posteriormente, rebatizada como Maputo, para estudar medicina. No entanto, conhecedores do domínio que Couto tinha da escrita (ele já havia conquistado alguns prêmios de poesia), membros da FRELIMO pediram que interrompesse os estudos e trabalhasse no jornal A Tribuna. Dali, passou a dirigir a recém-criada Agência de Informação de Moçambique e, em 1981, fundou a revista Tempo. Mais tarde, retomou sua relação com as ciências e tornou-se biólogo, profissão que exerce até hoje em seu país.
Paralelamente ao trabalho como jornalista, nasceu um romancista. E não qualquer romancista. Sua prosa formidável recorre a um realismo alternativo no qual a dureza da vida na África subsaariana convive com um mundo aparentemente mágico que, na verdade, não o é. Com um domínio esplêndido do ritmo, constrói um universo mitológico impressionante em que são questionadas e demolidas as construções importadas da Europa. Tais qualidades lhe renderam uma longa lista de prêmios, entre eles o Camões, o Prêmio da União Latina e o FIL de Literatura em Línguas Românicas.
No centro de tudo, sempre Moçambique, que o viu nascer. Ele é o protagonista indiscutível de seus grandes romances. Basta lembrar Terra Sonâmbula, obra de estreia que lhe trouxe reconhecimento internacional, e sua mais recente e monumental As areias do Imperador. O autor retorna ao mesmo cenário em A Cegueira do Rio, seu novo romance, em que parte de um episódio real ocorrido na fronteira com a Tanzânia, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, para inserir posteriormente um fenômeno extraordinário: de repente, emerge uma epidemia que impede a população branca do mundo inteiro de escrever.
O autor conversou com o El Cultural por videochamada para falar dessa nova publicação, da forma moçambicana de compreender o mundo e de sua opinião sobre a imigração.
Eis a entrevista.
Os brancos sofrendo de agrafia e a população negra ensinando-os a ler e escrever novamente. De onde surge essa ideia?
Com a escrita, estabeleceu-se uma hierarquia associada a uma técnica, porque ela é percebida como um saber superior em comparação com a oralidade. Esta última é vista como algo mais infantil, pertencente a um mundo primitivo. Este livro é minha forma de protestar diante de tal concepção.
Para mim, não existem povos da oralidade e povos da escrita. Essa fronteira existe apenas dentro de nós. Você, assim como eu, nasceu em uma pátria em que as histórias eram contadas, primeiro, de forma oral. Sou escritor graças à oralidade. Escrevo para chegar à oralidade, e gosto de um livro quando ele se transforma em voz. Somos uma espécie que cria e produz sentido principalmente devido à voz, e muito menos, e muito mais recentemente, por meio da escrita.
Em certas culturas, algo só é verdadeiro quando está escrito. Em Moçambique, é verdadeiro se consegue transformar-se em história. A oralidade permite uma certa liberdade, uma certa dinâmica de pensamento impossível na linguagem escrita. Se no meu país você disser que hoje acordou transformado em um anjo, quem o escutar dirá: “Sim, é perfeitamente possível, não é algo extraordinário”. Para nós, chamar a literatura produzida deste lado do mundo de ‘realismo mágico’ é um tanto estranho, porque pode ser realidade.
Mas o que me preocupa não é se é verdade ou não, e sim a beleza e a capacidade de ensinar as diferentes formas que existem para transitar e existir neste mundo.
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O senhor mencionou o realismo mágico. De fato, há quem empregue esse termo para descrever sua literatura. Concorda?
Parece-me que os escritores latino-americanos são os que menos têm a ver com a criação desse rótulo. Isso é coisa dos acadêmicos. Os próprios europeus, desde sempre, também tiveram realismo mágico. É algo que nos acompanha a todos, não é próprio de nenhuma cultura em particular.
Quando Kafka escreve A Metamorfose, isso não é realista. Em todos os antigos contos europeus, cruza-se essa fronteira difusa entre o que é magia e o que é realidade. Ninguém sabe onde começa uma coisa e termina a outra.
A história se passa em 1914, em um confronto entre as forças coloniais alemãs e portuguesas, às margens do Rio Rovuma (fronteira da Tanzânia com Moçambique). Por que situar essa pandemia fictícia, temporalmente, em um episódio histórico aparentemente tão insignificante?
Porque é um momento muito misterioso. Em primeiro lugar, esse episódio de um alemão atravessando o rio e atacando um posto militar português acontece em um momento em que Portugal mantinha uma posição neutra na Primeira Guerra Mundial. Ninguém entende por que aquele médico atacou o posto.
Existem diferentes hipóteses: alguns dizem que, sendo médico, quis conquistar uma glória militar em uma espécie de delírio pessoal; outros dizem que fazia parte de um projeto da Alemanha para obrigar Portugal a tomar partido no conflito. É uma narrativa que está entre o campo da ficção e o da História. O lado literário disso me pareceu extremamente rico.
Reconheço que a primeira coisa em que pensei ao ler a sinopse de seu livro, na qual se fala de uma cegueira repentina que afetava apenas os colonos, foi em Ensaio sobre a Cegueira. Há alguma influência do livro de Saramago sobre A Cegueira do Rio?
De todos os livros de Saramago, o que mais me tocou foi Ensaio sobre a Cegueira, especialmente porque me parece que essa cegueira está presente naquilo que escolhemos ver, na ideia do que é visível para nós. Isso marca uma condição antropocêntrica, não é? Costumamos pensar que aquilo que é invisível para nós também o é para os demais seres vivos.
Essa impossibilidade de se colocar no lugar do outro é a verdadeira cegueira de que todos sofremos. Por exemplo, existe a ideia de que agora se lê muito menos do que há cinquenta anos. Mas tudo depende da perspectiva a partir da qual se olha. Em Moçambique, lê-se muito mais agora do que há cinquenta anos. Existe uma tendência a enxergar o fim dos tempos que muitos países não compartilham. Se você disser a um africano: “Estamos vivendo o Apocalipse”, ele responderá: “Outra vez?”. Tudo depende da perspectiva a partir da qual se faz a afirmação.
O Apocalipse é uma invenção branca?
Não sei se é uma invenção branca, mas está vinculado a uma forma de pensamento linear muito europeia. Para muitas das culturas presentes em Moçambique, não existe um princípio nem um fim. O Universo sempre existiu e sempre existirá.
Evidentemente, do ponto de vista individual, há um nascimento e uma morte. Mas a verdade é que todos nascemos várias vezes. Quando nos dão um nome, nascemos. Quando nos tornamos pais, voltamos a nascer. Quando mudamos de trabalho, também. Todos recomeçamos inúmeras vezes. Em Moçambique, existe outra forma de compreender o tempo e o mundo.
O senhor mencionava, antes, o aumento da população leitora em Moçambique nos últimos 50 anos. Isso não mata a oralidade? As duas tradições podem coexistir em harmonia?
Como eu disse antes, quando se fala de oralidade e escrita parece que uma coisa é superior à outra. Nesse aspecto, os africanos hoje são muito eurocêntricos, olham para si mesmos através do olhar europeu. Muitos líderes africanos definem a si próprios e seus países pela capacidade de dominar idiomas (europeus), a escrita e outras técnicas modernas.
Para mim, a oralidade contém uma certa divindade que não passa pela definição teológica das instituições religiosas. Uma pessoa pode ser farmacêutica ou engenheira e chamar um curandeiro para tratar com os espíritos. É uma forma de coexistência lógica para nós, que nada tem a ver com folclore.
O rio é um personagem central em seu romance. Em sua literatura, qual é o significado da água e, por extensão, da natureza?
Nesse sentido, foi muito importante um encontro que tive com uma mulher às margens do Rovuma. Perguntei como sua gente chamava o rio, e ela me respondeu com palavras que, em seu idioma, significam “a água que engravida”. Para mim, isso era poesia; para ela, era literal: o rio tem inundações cíclicas, como uma gravidez.
Para esses povos, as florestas, as montanhas e os rios têm alma, não são simplesmente coisas. Por isso, em meus romances esses lugares não podem ser simples cenários; são personagens porque estão vivos.
O senhor se tornou depositário de uma tradição como a moçambicana, de acesso e assimilação muito difíceis para um branco. Alguma vez se sentiu estrangeiro em seu próprio país? É fácil se sentir moçambicano sendo de ascendência europeia?
Só me lembro de que sou branco quando estou fora de Moçambique. Quando chego a alguma aldeia, chamam-me de mulungo, muzungo ou mucunha, palavras originalmente associadas a um forasteiro, não à cor da pele. Se sou o único branco em um grupo de seis pessoas, todos recebem a mesma designação.
Contudo, se sou o único que fala o idioma local, imediatamente mudo de identidade. Passo a ser daquele lugar, e os demais continuam sendo estranhos. A raça define, mas não determina. Se você fala a língua, isso ajuda as pessoas a vê-lo de outra maneira.
E foi assim durante toda a sua vida? Também nos anos da independência?
Os casos de Moçambique e Angola foram muito particulares porque os brancos angolanos e moçambicanos se uniram à luta de libertação. A FRELIMO era composta por pessoas de diferentes raças. Os brancos podiam participar do movimento, embora em Moçambique não tinham permissão para portar armas.
Mudando de assunto, o que é a literatura para um moçambicano?
Complicamos demais o assunto e, por isso, a literatura não chega a tanta gente, porque a separamos da própria vida. A literatura nasce da necessidade e do prazer tão humano de contar e ouvir histórias. Comecei a ser escritor quando minha mãe me contava histórias. Éramos emigrantes e, como não conheceríamos nossos avós nem nossos tios, ela inventou todas essas pessoas em nossa casa na África com tanta força poética que elas realmente existiam.
A literatura é criar esse vínculo com as histórias para que o mundo e a vida tenham sentido. Como biólogo, trabalhei com caçadores: o caçador precisa transformar-se em leão para pensar como ele e antecipar seus movimentos. Isso é a literatura: a necessidade de pensar com a cabeça do outro e de fazer com que o mundo tenha sentido. É preciso aproximar a literatura de uma visão muito mais mundana.
O senhor costuma afirmar que Moçambique é um país em contínua criação. O que falta para concluir essa gênese?
Cinquenta anos é muito pouco para construir uma nação, ainda mais com tamanha diversidade de povos e culturas. Em um primeiro momento, houve uma imposição de cima para baixo, na qual ninguém podia falar suas línguas e todos tinham de falar português. Hoje, lidamos com isso com mais tranquilidade.
O projeto de nação se fará um pouco como na Espanha, onde existe uma nação e, dentro dela, há outras situações particulares. Não é necessário negar as nações que existem em Moçambique para pensar em uma entidade supranacional, e a língua portuguesa ajuda a incorporar essa ideia de família única.
Falando da Espanha, como um moçambicano percebe a crise em Ceuta?
O caso de Ceuta demonstra que existe uma tentação mundial de culpar o migrante por todos os males do país. Trata-se da culminação dramática e fantasmagórica de uma Europa que se sente ameaçada e invadida por estrangeiros, sob a ideia violenta de que perderá sua identidade.
Essa ideia esquece que grande parte da Europa foi feita a partir de outros. Portugal e a África têm uma ligação profunda com o norte da África, algo que hoje é deliberadamente ignorado. Mas não se trata de um assunto só da Europa. Nenhuma extrema direita na Europa teria feito o que se fez na África do Sul: foi muito mais grave, muito mais violento.
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