O que o Papa disse (e não disse) na África. Artigo de Luigi Sandri

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29 Abril 2026

"Leão XIV tem reiterado frequentemente o seu distanciamento daqueles que invocam o nome de Deus para encobrir a suas violências e injustiças. O futuro dirá se a sua mensagem na África foi ouvida", escreve Luigi Sandri, em artigo publicado por L'Adige, 27-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Consolação e adiamento. Essas parecem ser as principais mensagens transmitidas pelo Papa durante sua peregrinação — de 13 a 23 de abril — à África, dando esperança, com sua presença, aos católicos dos quatro países que visitou (Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial).

Todos países, por diferentes razões, à espera de consolação. O Papa, porém, "passou por cima" de problemáticas pastorais mais agudas, que ele não quis abordar, pelo menos publicamente.

Na Argélia, uma nação predominantemente muçulmana, os fiéis de Roma somam menos de dez mil: uma gota, portanto, num oceano de quarenta e cinco milhões de pessoas de outras religiões. Para elas — e Leão XIV as encorajou nisso — o diálogo com o Islã não é opcional, mas uma realidade fundamental da vida cotidiana.

Em Camarões, o Papa se viu envolvido em duas questões complexas e dolorosas que pesam sobre toda a população, 40% católica. Primeiro, um conflito armado entre a maioria francófona e a minoria anglófona, que busca maior autonomia. O conflito provocou o êxodo de meio milhão de habitantes. A essa tragédia soma-se outra, ainda mais grave: Paul Biya governa Camarões como presidente desde 1982, tendo sido reeleito repetidamente em eleições consideradas fraudulentas por seus adversários. Mas ele, com seu clã, ainda reina, apesar de ter 93 anos.

Em Angola — devastada durante uma década, em 1990, por uma guerra civil entre uma coligação pró-marxista e uma pró-ocidental — o pontífice exortou a todos a olhar para o futuro e a promover uma sociedade justa naquele grande país. Mas, tal como acontecera nos Camarões, quando Leão XIV denunciou a corrupção generalizada num discurso, um clamor intenso se elevou da multidão.

A situação é semelhante na Guiné Equatorial, onde Teodoro Obiang Nguema Mbasogo é presidente desde 1979, acusado pelos seus opositores políticos de fraude eleitoral constante para se manter no poder.

Leão XIV tem reiterado frequentemente o seu distanciamento daqueles que invocam o nome de Deus para encobrir a suas violências e injustiças. O futuro dirá se a sua mensagem na África foi ouvida.

Quanto aos problemas católicos "internos", contudo, pode-se constatar a consolação que a sua visita levou a eles, sobretudo pessoas sobrecarregadas por inúmeros problemas.

Mas, em relação a algumas questões críticas dentro da Igreja Romana, não houve novidades: o Papa não abordou a questão do celibato sacerdotal, uma norma não raramente violada na África por ser estranha a culturas que consideram anômalo um "chefe" sem família.

E, embora sempre agradecendo às mulheres por seu empenho nas estruturas pastorais, Leão não mencionou os ministérios femininos ordenados, a começar pelo diaconato. Tudo adiado, portanto.

Seriam essas expectativas exclusivas do Norte do mundo? Segundo representantes do mundo teológico africano, homens e mulheres, essa suposição poderia em breve ser desmentida.

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