Patriarcado é um plano de Deus ou pecado social? O caso do Frei Gilson. Artigo de Jung Mo Sung

Frei Gilson | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Mais Lidos

  • Escala 6X1 ou 5X2 e os neoescravocratas. Artigo de Heitor Scalambrini Costa

    LER MAIS
  • Uma arcebispa em Roma. Artigo de Fabrizio Mastrofini

    LER MAIS
  • O que aconteceu no Mali: ataques da Al-Qaeda e um grupo separatista abalam a junta militar

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

29 Abril 2026

"No caso específico do patriarcado (a supremacia do homem sobre a mulher) no sermão do frei Gilson, temos uma interpretação de uma frase da carta aos Efésios que pressupõe pelo menos duas coisas: a ordem criada por Deus é fixa, eterna, e que a interpretação dessa frase não pode ser questionada ou reinterpretada em um contexto social diferente. Não é possível discutir aqui o problema do 'círculo hermenêutico' da leitura da frase. Por isso, quero focar somente no problema da 'ordem eterna' do plano de Deus", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.

Segundo ele, consciente ou inconscientemente, “usar o Nome de Deus em vão” é um dos pecados mais cometidos no nosso mundo. Na luta contra isso, é fundamental voltarmos ao tema da interpretação dos textos bíblicos e os desafios sociais e estruturais do nosso tempo".

Eis o artigo.

Por que um sermão de Frei Gilson, onde ele comenta a frase “Vós mulheres sujeitais-vos a vossos maridos” (Ef 5,22), se tornou um objeto de tanto debate na rede social e até mesmo nos grandes meios de comunicação? Afinal, é uma ideia muito antiga no mundo católico onde os padres costumavam pregar nas missas. Talvez, por dois motivos principais: um, porque foi dito por um frei que tem milhões de seguidores na rede social, incluindo muitos jovens; dois, o mais importante, porque disse algo que é muito tradicional, isto é, algo conservador, que se opõe ao mundo moderno. Quando trato aqui do se opor ao mundo moderno, não estou falando da tecnologia moderna (Gilson e outros usam tecnologias), mas sim dos valores culturais humanistas, especialmente a ideia da igualdade fundamental de todos seres humanos.

O mundo pré-moderno feudal europeu, em que a instituição Igreja tinha um grande poder político-social, justificou as suas relações de desigualdade social (nobres X servos, homens X mulheres, cristãos X infiéis ...) em nome de Deus e da sua Igreja ou religião que demandava obediência às leis, ditas, de Deus. O mundo moderno surge com novas relações econômico-sociais (relações de mercado), emergência da classe burguesa e uma nova visão da história e dos seres humanos. É com o liberalismo, com a centralidade do conceito de liberdade e o de humano, que o mundo moderno foi construído.

Não se pode entender o fenômeno da força social e política dos grupos religiosos que se autodenomina de conservadores sem situá-lo no nosso contexto da grande crise do mundo moderno. Crise significa, entre outras coisas, a perda de ou a luta pela nova identidade social e o seu lugar social. Por exemplo, com o aprofundamento ou ampliação da realização de valores modernos, as mulheres (que há muito tempo estavam em uma relação de subordinação aos homens/maridos) passaram a lutar e depois obter o reconhecimento social e jurídico da igualdade fundamental entre homens e mulheres. Uma conquista fundamental para as mulheres e também para homens que valorizam a tese da igualdade fundamental de todos seres humanos.

A legitimação social desses direitos das mulheres (assim como dos negros, indígenas, gays e depois de toda a comunidade LGTBQ+...) foi feita em nome dos Direitos Humanos. Toda reorganização social e do lugar dos diversos grupos sociais na cosmovisão implica também uma perda significativa dos grupos que antes tinham privilégios e dos que, mesmo estando em situação de subordinação, estavam contentes e, com isso, a reação dos querem recuperá-las. E como se justifica a “volta ao passado” em uma sociedade baseada no conceito de progresso ou do “novo/futuro”?

Qual é uma das instituições ou cosmovisões que mais perdeu nesse processo da construção da cultura de direitos humanos? No Ocidente, a Igreja cristã baseada na centralidade de Deus e da Igreja/religião na sociedade. Assim, podemos entender a aliança entre os que negam os direitos humanos (civis, políticos e sociais) e setores mais conservadores da Igreja Católica. Por exemplo, a questão da subordinação das mulheres aos maridos e a acusação de “comunismo” aos cristãos que defendem os direitos sociais dos trabalhadores tem um mesmo base: a desigualdade e injustiça sociais são do plano e vontade de Deus.

No caso específico do patriarcado (a supremacia do homem sobre a mulher) no sermão do frei Gilson, temos uma interpretação de uma frase da carta aos Efésios que pressupõe pelo menos duas coisas: a ordem criada por Deus é fixa, eterna, e que a interpretação dessa frase não pode ser questionada ou reinterpretada em um contexto social diferente. Não é possível discutir aqui o problema do “círculo hermenêutico” da leitura da frase. Por isso, quero focar somente no problema da “ordem eterna” do plano de Deus.

Se a ordem social-político-cultural-religiosa foi estabelecida por Deus, desobedecer esse plano de Deus seria pecado. Assim, muitas mulheres confessaram a padres o pecado de ter desobedecido aos seus maridos. Desejar mudar a relação homem/mulher (que é a luta feminista) seria por si um pecado. Se essa teologia fosse compatível aos ensinamentos do evangelho ou do Novo Testamento, não faria sentido o conceito de “pecado social”, como disse o papa João Paulo II, isto é, um sistema social-cultural em que vivemos em “estruturas de pecado” (Sollicitudo Rei Socialis, 36).

A boa-nova de Jesus nos revela que vivemos em estruturas de pecado. Estruturas de pecado significa que são sistemas sociais consolidados de tal forma que já criou uma falsa imagem de Deus e da sua vontade. Isto é, estrutura de pecado é uma que engana e inverte a própria noção de pecado; e não nos deixa ver que essa primazia do homem sobre a mulher é pecado, opressão, e que a vontade de Deus na relação mulher/homem é de amor recíproco.

Consciente ou inconscientemente, “usar o Nome de Deus em vão” é um dos pecados mais cometidos no nosso mundo. Na luta contra isso, é fundamental voltarmos ao tema da interpretação dos textos bíblicos e os desafios sociais e estruturais do nosso tempo.

Leia mais