A guerra cultural em torno de “pobres como pecadores” e políticas sociais. Artigo de Jung Mo Sung

Foto: Elyse Chia/Unplash

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27 Fevereiro 2026

"Na luta pela redução da desigualdade social no Brasil e no mundo, um papel que uma teologia-igreja na linha de libertação deve assumir é o de lutar contra a teologia idolátrica neoliberal que condena os pobres por serem incapazes de agir de acordo com as leis do mercado/Deus, isto é, consumir e consumir. Na luta contra à idolatria do Mercado e do Dinheiro, um dos pilares da Teologia da Libertação é (ou foi) o conceito de 'pecado social' ou o 'pecado estrutural', o pecado que se comete por obediência às leis do mercado", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião. 

Eis o artigo.

No final do século XX, Zigmunt Bauman, um dos principais pensadores sociais dos últimos 50 anos, disse algo que é importante termos sempre presente para entendermos o que está acontecendo: “Cada vez mais, ser pobre é encarado como um crime; empobrecer, como produto de predisposições ou intenções criminosas – abusos de álcool, jogos de azar, drogas, vadiagem e vagabundagem. Os pobres, longe de fazer jus a cuidado e assistência, merecem ódio e condenação – como a própria encarnação do pecado”. (O mal-estar da pós-modernidade, 1998, p. 59) E, ele retomou (no livro Work, Consumerism and the New Poor) essa referência ao conceito de pecado e disse: “Os pobres são retratados como negligentes, pecadores e desprovidos de padrões morais”.

Sabemos que ele não era teólogo e nem cristão (nasceu em uma família judia) e não escreveu livros sobre temas teológicos (pelo menos eu não tenho conhecimento disso), mas me chama atenção essa referência, pouca, sobre o conceito de pecado na crítica à sociedade marcada pela cultura neoliberal. Pode ser que, como disse Assmann ao falar do uso de metáforas teológicas nas obras de Marx, ele sentiu que as teorias e conceitos sociais modernas não eram mais suficientes para entender e compreender a lógica opressiva e sacrificial do nosso tempo.

Em todo caso, esse retrato dos pobres como “pecadores” que, por seus pecados, merecem ódio e condenação é o que estamos vendo no mundo inteiro, ou quase. Se no final do século XX esse ódio aos pecadores ainda não era tão visível à sociedade – é por isso que pensadores como ele são importantes para vermos o que ainda não vemos direito –, nos dias de hoje isso é mais do que visível.

Essa inversão cultural explica, por exemplo, porque tantos católicos, incluindo cardeais e bispos, criticaram intensamente o Papa Francisco como comunista herege por defender os pobres e agora o Papa Leão XIV. Defender pobres, vistos como pecadores porque são pobres, seria ir contra a “lei” ou ao projeto de Deus. E, não esquecemos, a grande maioria dos brasileiros/as ainda se identificam como cristãos e creem que Deus está ou deveria estar no controle da história.

O tema do pecado é, normalmente, associado às correntes teológicas chamadas de conservadoras, enquanto que os que se consideram progressistas, críticos ou da libertação não tratam muito esse tema. Sem entrar em discussão porque os da libertação não tratam muito do tema do pecado, nem na versão do pecado social, eu penso que é fundamental discutirmos o pecado, na igreja e na sociedade. Pois o que está em jogo na nossa “guerra cultural” é definição de o que é o pecado, quem são os pecadores e as punições devidas.

Felipe Nunes, no livro Brasil no espelho (Globo, 2025) que resume uma grande pesquisa (com dez mil pessoas) sobre valores, atitudes e percepções no Brasil, diz: “nós, os brasileiros, não defendemos políticas de redistribuição de renda bem as cotas como forma de ajudar os mais pobres e promover a igualdade social. [...] pois [essas políticas públicas] violam o princípio de que apenas quem merece deve ser beneficiado. [...] a maioria dos brasileiros acredita que pobres não devem ser ajudados. Nem mesmo os mais pobres acreditam na necessidade de redução da desigualdade”.

Por que os pobres não devem ser ajudados? Porque são pecadores e merecem a punição. Encontramos essa ideologia da “meritocracia” em várias versões, seja em uma linguagem “secular” neoliberal, ou em linguagem religiosa. Por exemplo, em várias teologias de reencarnação (ou em teologias cristãs de retribuição) que encontramos na história e nos dias de hoje, ajudar um pecador (o que está sofrendo) é ir contra a lei do carma (ou de Deus) e atrapalharia o seu processo de “purificação”.

Na luta pela redução da desigualdade social no Brasil e no mundo, um papel que uma teologia-igreja na linha de libertação deve assumir é o de lutar contra a teologia idolátrica neoliberal que condena os pobres por serem incapazes de agir de acordo com as leis do mercado/Deus, isto é, consumir e consumir. Na luta contra à idolatria do Mercado e do Dinheiro, um dos pilares da Teologia da Libertação é (ou foi) o conceito de “pecado social” ou o “pecado estrutural”, o pecado que se comete por obediência às leis do mercado (tema do próximo artigo).

É papel do cristianismo lutar pela libertação do pecado, isto é a libertação das relações e estruturas de injustiça e opressão que encontramos nas relações humanas mais cotidianas e nas econômico-sociais.

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