“Esta é uma crise da infância”: igrejas cristãs africanas pedem ajuda para crianças vítimas da guerra

Foto: Umar Farouk | Pexels

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03 Setembro 2026

Conflitos no Sudão, República Democrática do Congo, Somália e norte da Nigéria estão retirando milhões de crianças das escolas, expondo-as à fome, ao sequestro e ao recrutamento por grupos armados. Os líderes de diferentes Igrejas cristãs em África pedem que sejam vistas sobretudo como vítimas e defendem mais proteção, apoio psicológico e reintegração.

A reportagem é publicada por 7 Margens, 01-09-2026.

"Não é simplesmente uma crise de segurança", mas antes uma crise de proteção das crianças, de educação, de direitos humanos, humanitária e de construção da paz. É assim que a reverenda Angele Wilson Dogbe, diretora do escritório regional da Conferência das Igrejas de Toda a África (AACC) em Lomé, no Togo, descreve a situação de milhares de crianças afetadas pelos conflitos no continente.

A declaração é divulgada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), num momento em que várias Igrejas cristãs africanas reforçam sua intervenção junto de crianças atingidas por guerras e deslocamentos.

Em campos de refugiados e de deslocados internos, muitas tornam-se alvos de grupos armados, que as recrutam para funções como soldados, mensageiros, espiões, cozinheiros, carregadores, guardas ou informantes. Mas, para Dogbe, é fundamental não olhar para elas apenas como membros de grupos armados. "São, antes de tudo, crianças cujos direitos foram violados e que precisam de proteção, reabilitação e reintegração", insiste.

A pobreza, o deslocamento forçado e a insegurança, mas também o desejo de proteger a própria família e comunidade, estão entre os fatores que podem empurrar crianças e adolescentes para grupos armados, acrescenta a responsável.

Entre os conflitos mais mortíferos encontram-se atualmente os do Sudão, da República Democrática do Congo, da Somália e do norte da Nigéria. Algumas crianças morrem diretamente nos combates; outras são sequestradas. Milhões vivem deslocadas e sem acesso regular à escola.

"O futuro está sendo corroído diante dos nossos olhos"

No Sudão, a guerra tornou particularmente difícil a ação das próprias Igrejas. Abdalla Ali Kori, secretário-geral do Conselho das Igrejas do Sudão, relata que, apesar das enormes dificuldades, continuam chegando informações sobre crianças recrutadas para combater.

"Ouço de Cartum que recrutaram muitas crianças, crianças pequenas, e as enviaram para a guerra", afirma. "Tudo está desorganizado. As pessoas estão em fuga. As pessoas foram dispersas, mas é visível que as crianças são seriamente afetadas."

Na Somália, onde o conflito se prolonga há décadas, a violência e a pobreza também estão empurrando as crianças para fora da escola e aumentando sua vulnerabilidade ao recrutamento e à exploração.

"À medida que as famílias entram em colapso sob o peso desta crise, as crianças são retiradas da escola, empurradas para o trabalho forçado e ficam vulneráveis ao recrutamento por grupos armados", afirma Suganya Kimbrough, diretora de desenvolvimento de programas e garantia de qualidade da World Vision na Somália.

"Não é apenas uma crise alimentar; é uma crise da infância", reitera. "As crianças são o futuro da Somália, e esse futuro está sendo corroído diante dos nossos olhos."

Também na Nigéria, mais de 15 anos de insurgência, banditismo e confrontos comunitários deixaram um número elevado de crianças vivendo em campos, com acesso limitado a alimentação, cuidados de saúde e educação.

A reverenda Uzoaku Williams, secretária-geral adjunta da Associação Cristã da Nigéria, refere que continuam sendo registrados casos de sequestros em escolas e de recrutamento por grupos armados, sobretudo no nordeste, noroeste e em algumas zonas do centro-norte do país.

"Há crianças crescendo nos campos sem conhecerem outra coisa que não seja o conflito", lamenta.

Igrejas pedem mais apoio, e contínuo

As Igrejas nigerianas têm procurado responder por meio da assistência a deslocados internos, com centros de apoio que disponibilizam alimentos, abrigo e cuidados médicos, além de programas de reintegração para crianças que deixam grupos armados.

A ação inclui também iniciativas de diálogo inter-religioso para tornar as comunidades mais seguras. Segundo Williams, Igrejas e outras comunidades religiosas desenvolveram conjuntamente, com o apoio da UNICEF, um código de conduta destinado a pôr fim à violência contra as crianças.

Mas os recursos disponíveis continuam muito aquém das necessidades. A atenção internacional ao problema não tem sido acompanhada por financiamento suficiente e contínuo, alerta a responsável.

Entre as principais lacunas estão o apoio psicossocial de longo prazo, a proteção das escolas, a responsabilização dos autores de crimes contra crianças e a participação das próprias crianças nos processos de paz.

Para Dogbe, as Igrejas, que muitas vezes estão entre as primeiras instituições a chegar junto às populações afetadas, procuram responder em duas frentes. Por um lado, prestam assistência direta, disponibilizando abrigo, alimentos, educação, cuidados de saúde e apoio psicossocial e procurando prevenir situações de tráfico e exploração. Por outro, procuram denunciar e transformar as condições que permitem a violência.

"Acreditamos que a resposta da Igreja deve ser simultaneamente diaconal e profética: servir diretamente as crianças e, ao mesmo tempo, enfrentar as condições que permitem a violência contra elas", defende.

Os responsáveis pelas Igrejas africanas sublinham, neste contexto, uma convicção que orienta sua intervenção: cada criança é criada à imagem de Deus e, por isso, deve ser protegida.

A dimensão da crise, contudo, ultrapassa largamente os recursos existentes. O problema é especialmente grave nos conflitos esquecidos ou prolongados, onde as crianças podem permanecer deslocadas ou afastadas da escola durante anos, alerta Dogbe.

Mais do que uma questão de segurança, insistem os líderes religiosos, a situação exige uma resposta centrada na infância: proteger as crianças da violência, garantir-lhes educação e cuidados, ajudá-las a recuperar dos traumas e assegurar que possam participar na construção da paz que irá determinar o seu futuro.

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