De Gaza à Cisjordânia, Vaticano e ONG israelense denunciam agravamento da situação palestina

Foto: Ahmed Abu Hameeda/Unsplash

Mais Lidos

  • Relação entre ministros e elites econômicas “não é tolerável do ponto de vista republicano”, diz doutora em Ciência Política

    Crise do STF e disputa eleitoral: “antipetismo funciona como aglutinador de diferentes grupos em torno da família Bolsonaro”. Entrevista especial com Mayra Goulart

    LER MAIS
  • São Francisco: ainda mais revolucionário do que pensamos e uma figura muito estranha

    LER MAIS
  • “Estamos criando um mundo desumano em que nos unimos por meio de máquinas”. Entrevista com Hartmut Rosa

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

22 Setembro 2026

Enquanto o L’Osservatore Romano, jornal oficial da Santa Sé, denuncia o número de crianças mortas na guerra em Gaza – que já ultrapassou as 20 mil -, uma organização israelense de direitos humanos acusa Israel de estar a desmantelar as condições de vida palestina na Cisjordânia, com dezenas de comunidades deslocadas e mais de 200 novos postos de controle e barreiras instaladas desde outubro de 2023. Os dados dão conta de duas dimensões da deterioração das condições de vida da população palestina.

 A informação é de Clara Raimundo, publicada por 7Margens, 16-09-2026. 

A reportagem sobre o impacto da guerra nas crianças de Gaza, relatando, entre outros episódios, a recuperação de 106 cadáveres dos escombros de um edifício destruído, dos quais 73 pertenciam a menores, fez manchete na edição desta terça-feira, 15 de setembro, do L’Osservatore Romano. O artigo descreve ainda situações em que crianças palestinas participam nos funerais de outras crianças.

“Estas vidas interrompidas são o testemunho do custo brutal que esta guerra está a impor aos mais pequenos”, afirma Ahmad Alhendawi, diretor regional da Save the Children para o Médio Oriente, Norte de África e Europa Oriental, citado pelo diário do Vaticano. O responsável acrescenta que “a humanidade não pode aceitar que os funerais em massa de crianças palestinas se tornem uma realidade quotidiana”.

Segundo a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas, pelo menos 20.179 crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 31 de março de 2026, tendo outras 44.143 ficado feridas. O relatório da Comissão, publicado em junho, documenta também o impacto dos ataques sobre hospitais, escolas e outras infraestruturas essenciais às crianças.

A mesma Comissão estima que cerca de 17 mil crianças estarão separadas dos pais ou cuidadores, ou órfãs, e que cerca de 21 mil sobreviventes vivam com deficiências permanentes. A situação alimentar continua igualmente crítica: o L’Osservatore Romano cita dados segundo os quais a desnutrição crônica afeta 12,2% das crianças com menos de cinco anos nas áreas acessíveis de Gaza.

A crise humanitária é agravada pela falta de combustível e pela dificuldade de entrada de bens essenciais. E o Ministério da Saúde de Gaza afirmou que a Organização Mundial da Saúde irá suspender, a partir de 19 de setembro, o fornecimento de diesel a mais de 20 hospitais e centros de saúde, devido à falta de financiamento.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Cisjordânia: violência, barreiras e deslocações

Na Cisjordânia, a organização israelense de direitos humanos B’Tselem publicou esta semana um relatório de 188 páginas intitulado The Elimination Project, no qual acusa as autoridades israelenses e os colonos de desenvolverem um conjunto articulado de práticas que, segundo a organização, estão a desmantelar as condições necessárias à existência coletiva palestina.

O relatório, baseado em mais de 2.000 testemunhos e em três décadas de documentação, identifica cinco mecanismos que considera interligados: violência e intimidação, restrições à circulação, estrangulamento econômico, destruição social e política e deslocação de comunidades e apropriação territorial. A B’Tselem sustenta que estes mecanismos se intensificaram desde a chegada do atual Governo israelense ao poder e, sobretudo, desde outubro de 2023.

Entre os dados apresentados está a instalação de mais de 200 novos postos de controlo e barreiras na Cisjordânia desde outubro de 2023. Segundo a B’Tselem, estas restrições dificultam o acesso de dezenas de comunidades palestinas às principais estradas e tornam imprevisíveis deslocações para o trabalho, a escola ou os serviços de saúde.

A organização contabiliza ainda 66 comunidades palestinas totalmente deslocadas desde outubro de 2023, além de outras 18 parcialmente deslocadas. No início de setembro, por exemplo, as autoridades israelenses demoliram todas as 12 casas da comunidade de Khirbet a-Taban, em Masafer Yatta, deixando 70 pessoas, incluindo 28 crianças, sem habitação.

A B’Tselem considera que a alteração do território não resulta apenas da violência física, apontando também para demolições, confisco de terrenos, restrições ao planeamento e construção e outras medidas administrativas. O relatório sustenta que a conjugação destes mecanismos está a produzir uma transformação progressiva da realidade palestina na Cisjordânia.

Os dados apresentados pelo L’Osservatore Romano, pela Comissão de Inquérito da ONU e pela B’Tselem descrevem, assim, realidades distintas mas relacionadas: em Gaza, uma guerra que já provocou dezenas de milhares de mortos e feridos, com um impacto particularmente grave sobre as crianças; na Cisjordânia, um agravamento da violência, das restrições e das deslocações que afeta comunidades palestinas inteiras.

Leia mais