O genocídio em Gaza, segundo o relato de 24 soldados e oficiais de inteligência israelenses: “Os cães comem os cadáveres”

Foto: UNICEF

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11 Setembro 2026

Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos diretores de "No Other Land", concorrem ao Leão de Ouro com "Naza", um documentário no qual conseguem depoimentos do massacre por parte de quem o perpetra.

A reportagem é de Javier Zurro, publicada por elDiario.es, 10-09-2026.

Em 1963, a filósofa Hannah Arendt criou o conceito de "banalidade do mal". Ela o fez depois de acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann por crimes contra a humanidade. Arendt tentava entender como tantas pessoas haviam participado do Holocausto. Por que ninguém disse não? Havia milhares de pessoas trabalhando naquela maquinaria que massacrava os judeus sem dizer nada. Guardas dos campos de concentração, faxineiros, funcionários... Ninguém se recusou? O que ela pretendia explicar é que as barbaridades não eram cometidas apenas por monstros, mas se assentavam na conivência de muitas pessoas comuns que simplesmente, como explicaram nos julgamentos, obedeciam a ordens.

É impossível não pensar na banalidade do mal ao assistir a Naza, o estarrecedor documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor, cineastas israelenses e parte do quarteto vencedor do Oscar por outro trabalho fundamental, No Other Land. O filme foi apresentado em competição pelo Leão de Ouro no Festival de Veneza, onde deixou a sala em silêncio com uma proposta que, a partir da austeridade e do jornalismo, reúne até 24 depoimentos de soldados e membros da inteligência israelense que narram com frieza e completa normalidade seus trabalhos. Alguns elaboraram inteligência, outros espionaram, outros deram o aval para ataques e outros atiraram. Todos sabiam o que faziam. Todos eram parte de um genocídio planejado, algo que chegam até a reconhecer. "Sim, absolutamente, é isso", diz uma das pessoas entrevistadas.

Seus rostos estão na penumbra e suas vozes, alteradas para que não sejam reconhecidos, mas seus depoimentos arrepiam. Eles próprios reconhecem que trabalham como se fosse "uma fábrica" na qual o que pretendem é "apagar Gaza em escala massiva". Alguns responsabilizam toda a Palestina pelo atentado de 7 de outubro, o ponto de inflexão de algo que, no entanto, se arrasta há décadas. Os diretores acertam ao oferecer contexto e remontar aos anos 1970, quando foram os israelenses que instalaram as primeiras antenas telefônicas em Gaza. Os palestinos não podiam construí-las sozinhos, era proibido. O resultado? Um sistema de espionagem e vigilância aprimorado, agora com softwares modernos e inteligência artificial.

É assim que mapeiam cada bairro e indicam seus alvos. Uma inteligência artificial localizou mais de 70 mil alvos. Uma das pessoas que trabalhou nela reconhece que há um risco superior a 15% de que esse software erre ao localizar possíveis terroristas. São muitas possíveis vítimas equivocadas. Não se importam. Aliás, reconhecem que buscam um "assassinato em massa" e que o ataque ocorre quando essas pessoas estão em suas casas. Não importa se há um bebê, uma criança ou toda a família reunida numa celebração. É quando a pessoa está em sua residência que agem. Aliás, há uma máxima: "quanto mais, melhor".

O título, Naza, faz referência ao número de civis assassinados em cada ataque. O que costuma ser chamado de "danos colaterais". Uma operação é um "12 Naza" se morrem 12 pessoas que não eram o alvo nela. Os depoimentos falam das operações nas quais trabalharam e mostram até que ponto desumanizaram os palestinos. Para eles, são apenas um número. Yuval Abraham, que conduz as entrevistas, pergunta a vários deles qual foi o Naza mais alto que já viveram. Um deles menciona um número aterrador: 500.

O que surpreende, e o que faz alguém pensar nessa banalidade do mal, é que só um ou dois deles se arrependem. "Se os nazistas eram o mal, então o que sou eu?", diz um deles, o que articula os remorsos de forma mais clara. Os demais dizem que são apenas parte da engrenagem. Que eles não apertam o gatilho, apenas cumprem seu trabalho. Um trabalho que, dizem explicitamente, consiste em "expulsar todos eles", em "sufocá-los". "Se não têm condições para viver, todos irão para o sul", explicam. Por isso queimam suas casas.

Um dos depoimentos mais duros é o que descreve como franco-atiradores tratam como um jogo o assassinato daqueles que se atrevem a buscar comida ou voltar às suas casas para recuperar pertences. Mais de dez pessoas podem ser mortas numa hora. "Gaza está cheia de corpos. Há valas comuns, e os cães comem os cadáveres", dizem diante do olhar de Abraham. Fazem isso como se "fosse um videogame", apenas avançando para a fase seguinte.

Tudo é dito a partir das coberturas de Tel Aviv, enquanto a menos de 60 quilômetros dali continuam matando pessoas. No entanto, nos prédios da cidade israelense, as pessoas seguem com suas vidas. Fazem ginástica, assistem à televisão, saem para correr e tomam uma cerveja na rua. Essa cotidianidade, somada ao tom austero do documentário e ao enquadramento na penumbra das entrevistas, faz com que tudo doa ainda mais. Também aquela última parte, em que se diz que não apenas se persegue a população em Gaza, mas que os serviços de inteligência chantageiam e ameaçam aqueles que querem recorrer ao tribunal internacional para denunciar os crimes. A perseguição não termina ali, e continua atualmente.

Um genocídio de dentro

Naza é produzido pela seção de documentários do The Guardian, junto com Jim Wilson, produtor de A Voz de Hind. Conta, ainda, com a coprodução de Jonathan Glazer, que foi a Veneza em apoio à equipe, atendeu a imprensa e lembrou que muitas das coisas contadas no documentário já haviam sido publicadas em reportagens, mas que "há coisas que, mesmo já sabidas, é diferente ouvi-las da boca de quem executava esses sistemas". "Um filme mostra coisas que se perdem no jornalismo. Conseguimos mostrar a sociedade em que isso acontece, aquela Tel Aviv onde também ficam os escritórios da inteligência", disse Rachel Szor.

Yuval Abraham acredita que, com Naza, mostram que "os crimes de Israel são sistêmicos", e o fazem com depoimentos das pessoas que cometem esse "assassinato em massa baseado na vigilância". "Não sei se o cinema é a melhor forma de contar a verdade, mas a verdade já estava ali, já era evidente graças ao trabalho dos jornalistas, mas, como diretores israelenses, sentimos a responsabilidade de usar nossa posição para trazer esses depoimentos que contam, de dentro, como funciona esse sistema de assassinato em massa", explicou.

Abraham citou Primo Levi, que falou, na época, em "desumanização", a mesma que os israelenses têm exercido sobre os palestinos. "Sou judeu-israelense, tenho familiares sobreviventes do Holocausto, e vivemos num mundo em que o antissemitismo é usado para justificar ações que são injustificáveis, como assassinar civis em Gaza", opinou. Por isso, acredita que ouvir esses depoimentos tornará "mais difícil negar esses crimes".

Nesta mesma semana, uma escola foi bombardeada e uma menina foi morta junto com seu pai. Por isso, acreditam que Naza é importante, porque não se trata apenas de "declarações", mas de "passar à ação" com medidas concretas dos países para "pressionar Israel a parar". Enquanto isso, vão acusá-los de serem "antissemitas". Jim Wilson deixou claro que não é, e que sabe que seus colegas (tanto ele quanto eles são judeus) também não são, mas que "essa é uma estratégia para reprimir que a verdade seja contada". Uma verdade que, como no ano passado com A Voz de Hind, chegou a Veneza para sacudir um festival prestes a se encerrar.

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