Genocídio: só se podem matar crianças inocentes sem culpa quando se mata em nome de Deus. Artigo de Jung Mo Sung

Foto: Mohammed Ibrahim | Unsplash

Mais Lidos

  • Entre rios e distâncias: o desafio de ser uma Igreja das margens na Amazônia. Artigo de Gabriel Vilardi

    LER MAIS
  • Proposta faz parte da receita eleitoral brasileira, diz sociólogo

    "A redução da maioridade penal será um novo elemento a reforçar o crime e a violência no Brasil". Entrevista especial com Marcos Rolim

    LER MAIS
  • O tarifaço e a hora do Brasil. Artigo de José Luís Fiori

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

29 Julho 2026

"Para Israel e os seus aliados, eles estariam atuando corretamente porque baseados na sua tradição religiosa e na sua fé. Mais do que um argumento ético, eles estariam cumprindo ordens divinas. Por outro lado, muitos dos defensores dos direitos dos palestinos correm seus riscos em nome da sua fé religiosa, seja cristã ou outra", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.

Segundo ele, "o discernimento teológico entre o Deus que mata e o Deus e espiritualidades que defendem a vida dos pequenos é uma tarefa fundamental para toda a sociedade".

Eis o artigo.

O atual genocídio sistemático dos palestinos na Faixa de Gaza promovido pelo governo de Israel, com apoio da grande maioria de israelenses e do governo dos Estados Unidos e com uma posição hipócrita de vários países ocidentais – que oficialmente são contra, mas usam leis antiterroristas para proibir protestos em favor dos palestinos – só pode ser melhor entendido, na minha opinião, com ajuda de uma reflexão teológico-crítica.

Esses atores internacionais que estão promovendo ou apoiando, explícita ou implicitamente, esse genocídio são os mesmos que têm orgulho de pertencerem à tradição bíblica religiosa que marcou o Ocidente. E o atual Israel está matando palestinos para realizar ou para garantir a realização da grande promessa, que teria sido dada pelo mesmo Deus da Bíblia, de Grande Israel.

O problema imediato é que no genocídio não se diferencia o matar crianças de matar adultos, sejam civis ou militares. E o matar crianças inocentes é cruzar os limites do que é inaceitável, o que é um tabu. Na nossa sociedade, um exemplo tabu é o estupro de crianças. Quando preso, um estuprador de crianças é castigado terrivelmente pelos outros presos para restabelecer a diferença entre um ser humano criminoso e um “infra-humano”. Como se eles quisessem afirmar: estamos presos, mas ainda somos humanos.

A pergunta pós-moderna de que se há ou não um critério ético fundamental para justificar ou construir um sistema moral que esteja acima das diferenças culturais volta a ser importante aqui. Pois, a própria discussão sobre o que estamos vendo depende dessa resposta:

(a) é um genocídio, isto é, um crime e/ou erro ético terrível, ou

(b) não se deve interferir nessa relação entre palestinos e israelenses porque não há uma verdade universal e tudo é uma questão cultural.

Para Israel e os seus aliados, eles estariam atuando corretamente porque baseados na sua tradição religiosa e na sua fé. Mais do que um argumento ético, eles estariam cumprindo ordens divinas. Por outro lado, muitos dos defensores dos direitos dos palestinos correm seus riscos em nome da sua fé religiosa, seja cristã ou outra. Frente a isso, não é suficiente dizer que não podemos saber definitivamente, pois se não há uma base ética ou racional para uma luta em defesa dos direitos dos mais fracos, o resultado será a lei do mais forte. No caso em que se mistura política e religião, como acontece nesse tempo, a lei do Deus mais forte.

Enquanto os filósofos e teólogos não entram em acordo final (e nunca vão porque somos seres humanos), podemos e precisamos buscar ajuda de também outros lugares. Eu trago aqui uma sabedoria que aprendi com o atual Dalai Lama sobre um sentimento humano básico: a empatia recíproca. Ao falar disso, ele trouxe uma sabedoria antiga do Tibet: a empatia é “‘a incapacidade de suportar a visão do sofrimento do outro’. [...] É o que provoca o sobressalto quando ouvimos um grito de socorro, é o que nos faz recuar instintivamente ao ver alguém ser maltratado, o que nos faz sofrer ao presenciar o sofrimento dos outros. E o que nos faz fechar os olhos quando queremos ignorar a desgraça alheia.” (Uma ética para o novo milênio).

Por outro lado, E. Musk tem defendido publicamente que a empatia seria uma fraqueza do Ocidente, exatamente porque empatia leva as pessoas sentirem e compartilharem o sofrimento e as dores de outras pessoas. Ele mesmo reconhece que empatia é condição humana que nos permite a entender a intenção e o sentimento do outro, por isso diz que é preciso lutar contra essa empatia porque se tornou uma fraqueza para o Ocidente. Isto é, lutar contra a sensibilidade humana.

Genocídio sistemático exige uma estratégia para combater a empatia que é uma condição natural da espécie humana que lhe permite ser um ser humano mais humano. Não sei muito bem o que leva pessoas e grupos sociais a querer eliminar, destruir ou escravizar outros povos; mas a história nos mostra que esses grupos precisam justificar, para si e para outros, as ações e políticas sistemáticas o que não é humanamente justificável.

Para justificar o que é injustificável (em termos de argumento razoável baseado na capacidade humana empática no diálogo com outros seres humanos), o melhor instrumento criado pela espécie humana foi o Deus que exige sacrifícios de vidas humanas. Em resumo, só se pode matar crianças inocentes sem problema de culpa quando se mata em nome de Deus.

Por isso, o discernimento teológico entre o Deus que mata e o Deus e espiritualidades que defendem a vida dos pequenos é uma tarefa fundamental para toda a sociedade.

Leia mais