O que se sabe sobre o caso Milton Leite e a infiltração do PCC no transporte de SP

Milton Leite, do União Brasil. (Foto: Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo/Wikimedia Commons)

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18 Setembro 2026

Uma grande operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) colocou sob holofotes a extensão da infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte público e na estrutura política da capital paulista. A Operação Vectura Corrupta cumpre mandados de prisão e busca e apreensão contra empresários, advogados, agentes públicos e lideranças do crime organizado suspeitos de fraudar licitações e lavar recursos de origem ilícita nas frotas da cidade.

A reportagem é de Ana Gabriela Sales, publicada por Jornal GGN, 17-09-2026.

O principal nome envolvido na ação é o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil). Citado em decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) como o “dono de fato” da concessionária Transwolff, o ex-vereador é alvo de um mandado de prisão temporária válida por 30 dias. Leite não foi localizado em sua residência durante o cumprimento das buscas na manhã desta quinta-feira (17) e passou a ser considerado foragido pelas autoridades, embora sua defesa negue a condição.

O papel de Milton Leite no esquema

Segundo o relatório que embasou a operação, decisões estratégicas em empresas que atendem o transporte municipal dependiam de validação ou concordância política de Milton Leite. Interceptações telefônicas e depoimentos colhidos em investigações da Corregedoria da Polícia Militar apontam que o ex-parlamentar exercia ingerência direta no funcionamento da Transwolff, empresa que já havia sofrido intervenção e caducidade contratual por parte da Prefeitura de São Paulo em 2024.

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O ex-vereador afirmou que está em agenda de campanha de aliados no interior paulista e declarou que irá se apresentar às autoridades espontaneamente. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou em nota.

Ao ser questionado sobre o caso, ele complementou: “Não sou dono de empresa de ônibus e só assumi uma interlocução na SPTrans a pedido do Bruno Covas, por causa da greve de 2019. Não tem nada de ilegal. Vou me apresentar ainda hoje porque não devo nada”.

Prisão de ex-presidente da SPTrans e braço jurídico

Além de Milton Leite, a Operação Vectura Corrupta mira outros nomes com forte trânsito na administração pública e na política regional. Entre os alvos já presos estão:

Levi dos Santos Oliveira: Ex-presidente da SPTrans (São Paulo Transporte), acusado de se reunir periodicamente com operadores do PCC para alinhar interesses da organização criminosa na frota municipal.

Danilo Marco Morgado Silva: Ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e postulante a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), suspeito de ter tido campanhas eleitorais custeadas com verbas desviadas pela facção.

Advogados da “Sintonia dos Gravatas”: Profissionais que, segundo os investigadores, extrapolavam a atuação jurídica tradicional para intermediar operações financeiras, disponibilizar escritórios para reuniões da facção e articular a aquisição de empresas de fachada.

Ao todo, as ordens judiciais emitidas pela 8ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP abrangem 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão distribuídos por municípios da Região Metropolitana de São Paulo e do Litoral Paulista, incluindo a capital, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos e Praia Grande.

Metade dos ônibus da capital sob suspeita

A investigação conduzida pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes apoiada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) identificou 12 empresas de transporte coletivo que operam na capital com indícios de controle direto ou indireto pelo PCC. Juntas, essas concessionárias pertencem ao chamado subsistema local — que conecta bairros periféricos aos terminais — e gerenciam mais de 6 mil veículos, correspondendo a mais da metade da frota total de ônibus em circulação no município.

As empresas citadas na apuração são:

  • Viação Transcap
  • Alfa Rodobus
  • Transwolff
  • A2 Transportes
  • Imperial Transportes
  • Move Bus
  • Pêssego Transportes
  • Allianz Transportes
  • Transunião
  • Qualibus Transportes
  • Norte Bus
  • Spencer Transportes

De acordo com o Ministério Público, as empresas eram utilizadas para lavar capital proveniente do tráfico de drogas por meio do superfaturamento na compra de veículos, circulação de comissões e uso de sócios ostensivos sem capacidade financeira real.

Origem das apurações e reação da prefeitura

A investida deflagrada nesta quinta-feira é desdobramento direto das operações Decurio (2024) e Contaminatio (2026). A primeira fase teve início após a apreensão de aparelhos celulares de lideranças criminosas, nos quais os policiais descobriram uma rede organizada de comunicação entre presos e integrantes nas ruas. Os dados também revelaram um plano de financiamento de candidaturas políticas e a criação de uma instituição financeira digital usada para movimentar bilhões de reais em lavagem de dinheiro.

Em reação aos desdobramentos da operação, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), anunciou a criação de uma força-tarefa composta pela Procuradoria-Geral do Município, Controladoria-Geral, SPTrans e Secretaria de Mobilidade para auditar os contratos vigentes com as operadoras mencionadas. A gestão municipal informou que não há risco de paralisação nas linhas de ônibus e que o município adotará medidas administrativas, incluindo eventuais intervenções operacionais, para assegurar a continuidade do atendimento à população.

Trajetória de Milton Leite

Figura histórica da política paulistana, Milton Leite tem 70 anos e construiu sua base eleitoral na região do Grajaú, na zona sul da capital. O político entrou na Câmara Municipal em 1997 e cumpriu sete mandatos consecutivos como vereador.

Entre 2017 e 2024, Leite presidiu o Legislativo paulistano por quatro vezes, tornando-se o presidente mais longevo da Casa desde a redemocratização. Ele optou por não concorrer à reeleição no último pleito municipal, mas manteve influência na articulação partidária como presidente do União Brasil na capital e líder da Federação União Progressista em São Paulo. Atualmente, dedica-se ao apoio das campanhas eleitorais de seus filhos.

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