03 Junho 2026
Três datas dos primeiros cinco meses de 2026 ilustram o renovado intervencionismo dos EUA na América Latina: em 3 de janeiro, as tropas de elite da Força Delta dos EUA invadiram Caracas e sequestraram Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. Em 3 de março, helicópteros militares equatorianos, com apoio militar dos EUA, incendiaram supostos esconderijos de narcotraficantes na província de Sucumbíos, perto da Colômbia. "Sim, também estamos bombardeando narcoterroristas em terra", declarou Pete Hegseth, então Secretário de Defesa dos EUA. Em 30 de abril, o presidente argentino Javier Milei desembarcou no porta-aviões nuclear americano USS Nimitz para participar de exercícios navais conjuntos com os EUA em Mar del Plata. Poucos dias antes, havia autorizado a presença de militares americanos em solo argentino para o Exercício Daga Atlántica.
A reportagem é de Bernardo Gutiérrez, publicada por elDiario.es, 02-06-2026.
O fluxo de intervenções militares dos EUA na América Latina ocorre no âmbito da Operação Escudo das Américas, uma nova coalizão militar lançada em 7 de março no campo de golfe Trump National Doral, em Miami, para combater o narcotráfico e a imigração ilegal. Doze governos nacionais alinhados a Donald Trump já aderiram à Operação, incluindo Argentina, Equador, Bolívia, El Salvador, Paraguai e Costa Rica — um país historicamente neutro e sem exército, onde o debate sobre a presença de bases militares americanas em seu território já começou.
Após décadas de presença limitada a bases isoladas, as forças armadas dos Estados Unidos estão de volta à América Latina. Donald Trump está forçando diversos governos a assinarem acordos militares em uma sequência carregada de simbolismo. Em fevereiro de 2024, o Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) foi assinado com o Equador, país que fechou a base militar de Manta em 2009. Em abril de 2025, um memorando de entendimento militar foi assinado com o Panamá, país onde Washington administrou o Canal do Panamá até 2000 e onde se localizava a Escola das Américas, que treinava os exércitos de ditaduras. O Peru e a República Dominicana autorizaram o destacamento temporário de tropas americanas em seus territórios até o final de 2025.
No entanto, o acordo que mais gerou preocupação foi o SOFA assinado com o Paraguai. Aprovado em março, o acordo não só protege os soldados americanos da justiça paraguaia, como também permite a circulação de veículos e armamentos militares sem qualquer inspeção. "O acordo representa uma verdadeira base militar secreta. É humilhante", declarou o deputado da oposição Raúl Benítez ao elDiario.es.
Protestos eclodem no Paraguai
Em um evento na Plaza Italia, em Assunção, membros de movimentos indígenas e camponeses se reuniram para formar uma frente unida de resistência. Eles discursaram em guarani, usando ocasionalmente palavras em espanhol: "Resistência", "camaradas", "privatização", "narcopoder". Uma palavra se repetia constantemente: SOFA. "Este acordo viola os direitos das comunidades. Um soldado americano pode estuprar uma menina e nada acontece. O narcotráfico é a desculpa deles", disse Camila Mas, da Coordenação Paraguaia de Direitos Humanos (CODEHUPY), ao elDiario.es.
Rosa Toledo, da La Vía Campesina, declarou que a revogação do SOFA é uma das principais reivindicações dos povos indígenas e dos movimentos camponeses: "Viola o Artigo 143 da Constituição (relativo à soberania nacional). Permite que comunidades de pequenos agricultores sofram despejos violentos." Os EUA têm um longo histórico de danos colaterais decorrentes de supostas operações antidrogas. Uma investigação do New York Times revelou que o alvo do ataque em Sucumbíos, em março, não era um acampamento de narcotráfico, mas sim uma fazenda leiteira.
A congressista de esquerda Johanna Ortega, do Partido Solidariedade País (PPS), denuncia o acordo SOFA como um insulto ao povo paraguaio. "Antes, a cooperação com os militares dos EUA era implementada em etapas. O acordo SOFA transforma oficialmente o Paraguai no quintal dos EUA, permitindo a entrada de qualquer veículo e beneficiando apenas alguns poderosos", disse ela ao elDiario.es. A congressista explica que o acordo prevê o levantamento das sanções impostas pelos EUA contra o ex-presidente Horacio Cartes por seu envolvimento em "corrupção desenfreada". "É paradoxal: a maioria dos deputados conservadores implicados em contrabando e narcotráfico votou a favor do acordo", observa Raúl Benítez. Pelo menos 26 deputados de Cartes foram investigados judicialmente por seu envolvimento com o narcotráfico.
Alarme em Brasília
O acordo SOFA assinado pelo Paraguai soou o alarme em Brasília. Apenas alguns dias antes de sua aprovação, o jornalista brasileiro Jamil Chade noticiou que o Departamento de Estado dos EUA havia declarado a região da tríplice fronteira entre Paraguai, Argentina e Brasil como uma das "principais áreas de atividade na América Latina", incluindo a cidade brasileira de Foz do Iguaçu.
Poucos dias após a assinatura do acordo SOFA, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, André Vieira, reuniu-se em Assunção com o presidente paraguaio Santiago Peña para expressar sua preocupação. A recente designação, pelos Estados Unidos, das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas representou um grande revés para o Brasil. O encontro do presidente Lula com Donald Trump na Casa Branca, no início de maio, não conseguiu reverter a decisão.
A pressão da família Bolsonaro sobre Donald Trump após o escândalo de corrupção envolvendo o filme Dark Horse acelerou o processo. Será que o SOFA paraguaio permitirá que os EUA desdobrem tropas em território brasileiro sob o pretexto de combater o financiamento do Hezbollah ou os cartéis de drogas brasileiros na tríplice fronteira? "É verdade que a medida faz parte de uma política externa que busca expandir a influência dos EUA. Mas expandir os instrumentos de pressão é uma coisa, e intervenção direta em território brasileiro é outra", disse André Pasternak Glitz, procurador do Ministério Público do Paraná, ao elDiario.es.
Para Tallita Lima, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), considerar o PCC e o CV como terroristas significa enquadrá-los no contexto da segurança nacional, da defesa e da política externa. "Quando Washington começa a classificar organizações criminosas latino-americanas como terroristas, cria um ambiente político no qual medidas extraterritoriais, sanções, cooperação assimétrica e formas mais intrusivas de vigilância parecem mais aceitáveis", disse Lima a este jornal. Após o anúncio do governo americano, o próprio Lula afirmou que os cartéis de drogas "são terroristas para as comunidades brasileiras", mas "não são os terroristas que Trump quer".
Interesses ocultos
A presença de Alexandre Silveira, Ministro de Minas e Energia do Brasil, na reunião em Assunção fornece mais uma pista sobre as implicações do acordo SOFA: recursos naturais e minerais. O deputado federal paraguaio Billy Vaesken, do Partido Liberal, denunciou que o acordo SOFA não apenas abre mão da soberania, mas também de "informações valiosas" sobre os recursos naturais do país, referindo-se ao lítio e aos aquíferos subterrâneos — o Paraguai compartilha o vasto Aquífero Guarani com o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Vaesken afirma que o verdadeiro interesse dos EUA "não é a cooperação desinteressada, mas o acesso a dados estratégicos e recursos naturais críticos do Paraguai", que também incluem ouro e urânio.
Após a intervenção militar dos EUA na Venezuela, a Operação Escudo das Américas foi recebida com suspeita em toda a região. "A doutrina de segurança nacional dos EUA visa criar uma barreira contra potências adversárias. Ela é claramente direcionada à China", disse à BBC o chileno Carlos Solar, especialista em segurança e defesa no Royal United Services Institute (RUSI).
Pablo Ospina, professor da Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador, afirma que, embora o narcotráfico e a imigração não sejam meras cortinas de fumaça, os novos acordos militares dos EUA têm outros objetivos. "O interesse político mais evidente é consolidar contatos e parcerias entre projetos de extrema-direita", declara. O especialista aponta que existem interesses em comum entre o governo dos EUA e seus aliados para promover "agendas menos populares, como cortes de impostos para os mais ricos, reduções em serviços sociais e nos sistemas universais de saúde e educação pública, além da pilhagem de recursos, da natureza e do patrimônio".
Da Argentina, a principal preocupação é a Base Naval Integrada que o governo de Javier Milei autorizou a ser construída em conjunto com os EUA na península de Ushuaia, na Terra do Fogo. A visita de uma delegação comercial americana a Ushuaia, em janeiro, não incluiu o narcotráfico em sua agenda, mas sim o "processamento de licenças para a gestão de minas e o processamento de minerais críticos", segundo a própria embaixada dos EUA. Emiliano Fossatto, secretário jurídico da Terra do Fogo, governada pela oposição peronista, declarou que a visita foi repleta de "muitas preocupações" e não foi comunicada às autoridades locais. "A localização geográfica do porto de Ushuaia, porta de entrada para a Antártica, é significativa. Pode haver outros motivos em jogo." A Antártica, vítima do derretimento do gelo causado pelo aquecimento global, está se tornando uma nova fronteira para o Hemisfério Ocidental da era Trump.
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