Prefeito da Cidade de Gaza: "A guerra acabou, mas vivemos em meio a escombros e destroços". Entrevista com Yahya al-Sarraj

Foto: Anadolu agency

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18 Setembro 2026

Yahya al-Sarraj afirma: "Continuamos sob ocupação, as Forças de Defesa de Israel não nos permitem acessar o que precisamos, estamos sem água e serviços básicos."

Yahya al Sarraj é um prefeito sem recursos, dinheiro, estradas, casas, aterros sanitários, luz, aquedutos, escritórios ou funcionários. Mas ele ainda é o prefeito da Cidade de Gaza, um engenheiro cedido à administração, que não pertence a nenhuma facção política. Ele não foi embora, não fugiu: permaneceu em sua cidade durante toda a guerra. E quando, à 1h da manhã, a estrutura de um prédio desabou sobre uma dúzia de famílias palestinas, às quais o destino não poupou nada, ele correu para tentar ajudar. Ele atende o telefone em frente aos escombros.

A entrevista é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 17-09-2026.

Eis a entrevista.

Como vai, prefeito?

Estou muito triste.

Aquele prédio havia sido atingido durante a guerra?

Estava parcialmente danificado, mas ainda de pé. Não era seguro, mas as pessoas daqui não aguentam mais viver em barracas e não têm alternativa: estão dispostas a arriscar a vida por um lugar para ficar. As barracas não são habitáveis: faz muito calor no verão e muito frio no inverno, e muitas já estão em péssimo estado. Poucas novas chegam. Precisamos de casas móveis ou casas de verdade.

Você tem os meios para cavar?

Não, temos muito pouco equipamento, e ele é muito antigo. Não é adequado para resgatar pessoas presas sob os escombros.

Pediu às autoridades israelenses permissão para usar mais equipamentos de escavação?

Já faz uns três anos que estamos pedindo; ninguém nos ouve, não nos dão permissão. Precisamos de tudo: materiais de construção, peças de reposição. Se tivéssemos tudo isso, poderíamos ter consertado os prédios que correm risco de desabar.

Esta manhã, ligamos para organizações internacionais pedindo autorização para trazer todo esse material. Estamos cavando com as próprias mãos.

Já se passou quase um ano desde o cessar-fogo: qual é a situação na Cidade de Gaza?

Temos mais comida, a fome acabou, mas muitos itens básicos não estão chegando. É sobrevivência, não vida real. A maior parte dos escombros da guerra ainda está lá, com os mortos embaixo. Só conseguimos limpar as estradas principais.

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Temos um problema com o lixo, porque não nos permitem transportá-lo para os aterros sanitários no leste de Gaza, que ainda estão sob ocupação israelense. Somos obrigados a gerenciar o lixo dentro das áreas residenciais, com todos os riscos à saúde que isso acarreta.

Você tem água potável?

A disponibilidade de água corresponde a cerca de 30% das nossas necessidades. Conseguimos obter água potável limpa graças a algumas organizações internacionais. No entanto, muitos poços não estão funcionando.

E quanto aos banheiros? Os habitantes de Gaza têm permissão para tomar banho?

Este é um dos principais problemas. Os israelenses não permitem a construção de novos banheiros, e as pessoas tentam se virar: usam uma parte da barraca como banheiro ou simplesmente cavam um buraco no chão, o cobrem de alguma forma e fazem suas necessidades ali. Mas essa não é uma vida digna.

Como se ganha a vida em Gaza?

O desemprego provavelmente está acima de 70-80%, as pessoas dependem de auxílio.

As crianças vão à escola?

Sim, mas em dias alternados, porque não temos espaço suficiente para todos. Muitos não comparecem às aulas.

Você pediu ajuda ao governo interino palestino estabelecido pelo Conselho de Paz de Trump?

Claro, mas eles parecem paralisados. O plano de Trump está fracassando; quase nada foi implementado, exceto uma redução no número diário de vítimas. A travessia de Rafah está fechada: apenas cerca de 150 pessoas podem entrar ou sair por dia, em meio a inúmeras restrições.

O Hamas concordou em desarmar-se e renunciar ao poder: acredita nisso?

Eles afirmaram repetidamente que estão prontos para partir, e alguns deles de fato já o fizeram. Mas se todos partissem agora, isso criaria um vácuo de poder que poderia levar a confrontos e agitação. Alguém precisa ocupar o lugar deles, mas ninguém está disposto a fazê-lo. Uma força internacional de estabilização deveria intervir em Gaza, separar palestinos e israelenses e pôr fim às mortes que ocorrem diariamente.

Por que você diz que sem o Hamas haveria caos?

Como existem muitos grupos armados e milícias que colaboram com os israelenses, se surgir um problema entre duas pessoas, quem o resolverá? É preciso a polícia. É preciso autoridade. Não se pode viver sem um governo.

O que você pede da comunidade internacional?

Considerar os habitantes de Gaza como seres humanos, não como números. Nós, palestinos, somos um recurso, não uma ameaça. Temos uma das populações mais instruídas do mundo. Queremos trabalhar, não depender de ajuda. Queremos reconstruir uma vida em paz, uma vida com dignidade.

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