O oráculo: o analista de IA. Artigo de Gustavo Fernando Bertran

Foto: Meryl Merlin | Pexels

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17 Setembro 2026

"A pergunta não é o que a IA chegará a fazer. A pergunta é o que estamos dispostos a deixar de fazer nós mesmos para que ela o faça em nosso lugar."

O artigo é de Gustavo Fernando Bertran, psicanalista, publicado por Página|12, 17-09-2026.

Eis o artigo. 

A inteligência artificial pode se converter numa ferramenta extraordinária; também, num novo lugar de autoridade. O problema não é apenas o que a IA pode fazer, mas que lugares subjetivos estamos dispostos a lhe ceder.

Desde a pandemia, o atendimento virtual vem transformando nossa relação com a presença e a escuta. Sobre esse terreno, começa a se naturalizar a possibilidade de uma IA ocupar o lugar de um profissional de saúde. Quando, diante do desamparo e da solidão, começamos a lhe pedir respostas sobre nossa existência, deixamos de usar uma tecnologia e passamos a autorizar um Outro.

Na Argentina, o uso de inteligência artificial em processos de admissão e orientação em saúde mental já gerou um pronunciamento específico do Colégio de Psicólogas e Psicólogos da Província de Buenos Aires, que assinalou particularmente o caso da OSDE. Uma pesquisa da American Psychological Association de 2026 constatou, ainda, que 35% dos psicólogos consultados tinham pacientes que utilizavam a IA como um profissional adicional de saúde mental.

"Ulisses e as Sereias" (1909), de Herbert James Draper. | Fonte: Wikimedia Cmmons

Vivemos, no Ocidente, uma época atravessada pelo desamparo e pela solidão. A dor de existir se torna cada vez mais difícil de acolher. A IA não chega a um mundo tranquilo, chega a uma sociedade que já tem dificuldades com o vínculo, com a espera, com a alteridade. Gaza e seu genocídio, a concentração obscena da riqueza enquanto milhões ficam expostos à precariedade, são a face crua de um desamparo que não é apenas individual, é também social e político.

Essa intempérie subjetiva é o terreno onde uma IA sempre disponível pode se oferecer como refúgio. Aí aparece o risco, quando o refúgio se transforma em substituto. Um amigo pode dizer que não. Um analista pode nos devolver uma pergunta em vez de uma resposta. O outro humano tem sua própria falta, seu próprio desejo, sua própria impossibilidade de saber tudo. A IA, por sua vez, está disponível. Responde, se adapta. Pode se converter em interlocutor, confidente, amigo, psicólogo ou parceiro.

O atendimento virtual se incorporou de maneira acelerada à saúde mental. A mudança não é negativa em si mesma, mas modificou nossa relação com a presença e com o vínculo terapêutico. A tela se tornou uma forma habitual das sessões. Sobre esse terreno já naturalizado, avança a inteligência artificial, ocupando, cada vez mais, o lugar do analista.

O que antes era atendimento humano mediado por uma tela pode se converter agora em atendimento sem profissional, disponível vinte e quatro horas, mais barato para empresas e seguradoras. A pergunta não é tecnológica nem de eficiência; é o que acontece quando a redução de custos encontra na IA a forma de substituir a presença e a responsabilidade de quem escuta.

Quanto mais ela responde, mais fácil se torna autorizá-la a ocupar o lugar do Outro. Aí aparece o oráculo. Um oráculo não é apenas aquele que sabe, é aquele a quem se supõe um saber.

A inteligência artificial se converte em oráculo quando deixamos de consultá-la para obter informação e passamos a lhe perguntar sobre nossa própria existência. O que está acontecendo comigo, o que eu deveria fazer, se estou certo, se sou amado, se devo me separar, se estou doente, se vale a pena continuar vivendo. Ali já não usamos uma ferramenta, consultamos um Outro.

Talvez apareça algo mais profundo, um inconsciente artificial. Não porque a IA tenha inconsciente, mas porque ela começa a fazer parte do território onde o nosso se desdobra. Falamos com ela, contamos-lhe desejos, medos, fantasias, conflitos, e esperamos uma resposta.

A inteligência artificial se torna assim uma segunda artificialidade, uma criação humana que intervém sobre a subjetividade de sujeitos já constituídos artificialmente pela linguagem. Aí está o verdadeiro problema. A "máquina" não precisa ter inconsciente para ocupar um lugar em relação ao nosso; basta que lhe suponhamos um saber sobre nós.

O risco não é apenas que a IA erre. É que, acertando, respondendo, estando sempre disponível, se torne cada vez mais fácil transferir a ela o que antes sustentávamos no vínculo com os outros. Quanto mais eficaz ela parece, mais cresce sua autoridade.

Não se trata de estar contra a tecnologia, trata-se de não perder a capacidade de perguntar. Nem tudo pode nem deve ser respondido de imediato. Talvez uma das funções mais importantes do Outro humano seja nos acompanhar ali onde não há resposta.

Também por isso preocupam os primeiros casos de adolescentes e adultos com vínculos de forte dependência em relação a chatbots, e as ações judiciais de famílias que relacionam essas interações a suicídios posteriores. Não é uma hipótese de ficção científica. É uma questão que já levanta interrogações clínicas, éticas e jurídicas.

O verdadeiro perigo do oráculo não é que uma IA pretenda saber tudo. Ele começa quando nós, diante do desamparo, da solidão, da angústia e da dor de existir, lhe entregamos a responsabilidade de responder por nós.

A pergunta não é o que a IA chegará a fazer. A pergunta é o que estamos dispostos a deixar de fazer nós mesmos para que ela o faça em nosso lugar.

E, se não intervirmos agora, essa cessão pode crescer de maneira exponencial. Porque cada função que delegamos torna mais natural delegar a seguinte. Primeiro lhe pedimos informação, depois orientação, em seguida decisões, e finalmente podemos chegar a lhe entregar aquilo que constitui nossa relação com os outros e com nós mesmos.

Talvez o perigo da inteligência artificial se pareça com o canto das sereias: amável, sedutor, envolvente. Ela não nos chama a partir da ameaça, mas a partir da promessa de estar sempre disponível, de nos entender, de responder a tudo. E justamente por isso pode ser mais difícil perceber o momento em que o refúgio começa a se converter em captura e pode empurrar à passagem ao ato.

Talvez a pergunta mais inquietante não seja até onde pode chegar a inteligência artificial, mas sim que parte de nós estamos dispostos a lhe entregar para que ela chegue até lá.

E fica uma pergunta mais incômoda. Se o atendimento virtual já modificou nossa relação com a presença e a escuta, não estaremos favorecendo, com sua própria lógica, que a IA dotada de consciência termine ocupando o lugar do analista? Não estaremos preparando, sem perceber, o terreno para uma nova forma de atendimento virtual, na qual finalmente uma IA possa ocupar o lugar do analista?

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