17 Setembro 2026
Nos Estados Unidos, a corrida pela inteligência artificial enfrenta uma reação contrária aos data centers, que une democratas e republicanos. Tão inédita quanto improvável, essa coalizão pode alterar o cenário nas eleições de meio de mandato.
A reportagem é de Théo Quintard, publicada por Reporterre, 16-09-2026. A tradução é do Cepat.
Mar-a-Lago, com seus jardins verdejantes, seu campo de golfe… e em breve seu data center? Segundo Donald Trump, sua luxuosa residência na Flórida seria ideal para abrigar um desses centros de dados impessoais e sem charme, a nova “galinha dos ovos de ouro” dos Estados Unidos aos olhos do presidente republicano. No entanto, a menos de dois meses das eleições de meio de mandato, os protestos locais se multiplicam à medida que essas imensas construções, necessárias para o avanço da inteligência artificial (IA), proliferam. Entre reuniões públicas por vezes tensas, petições e ações judiciais, a oposição assume diversas formas.
Das campanhas de Trump aos redutos democratas, essa “mobilização popular descentralizada e rápida” transcende em grande parte as “divisões políticas e ideológicas”, sem que haja “uma organização capaz de coordenar o movimento em escala nacional”, observa a socióloga Nancy Whittier, especialista em movimentos sociais e seus efeitos sobre as políticas públicas e professora do Smith College (Massachusetts).
A rejeição é agora tão forte que os data centers estão gerando mais hostilidade do que as usinas nucleares: 7 em cada 10 estadunidenses se oporiam à construção de um data center em sua comunidade, de acordo com uma pesquisa do Gallup publicada em maio. Embora essa oposição bipartidária permaneça mais forte entre os democratas, tradicionalmente mais sensíveis às questões ambientais, 63% dos republicanos também dizem se opor a esses data centers.
Trump: “Let data reign”
Defensor da IA e aliado precoce das gigantes da tecnologia, Donald Trump não esconde sua irritação com essa reação contrária dos cidadãos. Fiel ao seu estilo, ele despreza seus oponentes e os acusa de quererem deliberadamente se tornar “atrasados e pobres”, acrescentando que “a China não poderia estar mais feliz com esse movimento contra os data centers”. “Deixem os dados reinarem”, escreveu em sua rede social Truth Social no final de agosto, convicto de que, na terra do ouro negro, os data centers acabarão sendo “mais valiosos que o petróleo”.
Segundo cálculos da Reporterre baseados no banco de dados do Data Center Map, os Estados Unidos possuem quase 4.800 data centers ativos, mais do que seus 17 concorrentes juntos nessa corrida global por data centers – a França tem um total de 393, doze vezes menos que seu concorrente estadunidense.
Molly Earley, uma dona de casa de cinco filhos, de 49 anos, que vive no interior do condado de Grant, Indiana, admite sem rodeios que, em novembro, votará no Partido Democrata “pela primeira vez em 10 anos”. Embora tenha apoiado o bilionário republicano nas últimas três eleições presidenciais, ela agora está convencida de que outros eleitores rurais podem, por sua vez, se afastar da ideologia MAGA (Make America Great Again) de Trump, ou até mesmo “migrar completamente para o campo democrata”.
As declarações repetidas de Donald Trump a enfurecem particularmente e apenas “demonstram seu distanciamento do estadunidense médio”, esbraveja. “Desde que Donald Trump chegou ao poder, meu partido se descuidou”. Assim como Molly Earley, um de cada dois estadunidenses diz que é mais provável que vote em um candidato que proponha uma moratória para data centers em seu estado, de acordo com uma pesquisa publicada em julho pelo Politico. “Poucas pessoas mudam radicalmente da direita para a esquerda, mas estão começando a enxergar algum mérito nas posições do campo oposto”, insiste Nancy Whittier.
Uma aliança improvável
Em meados de julho, o estado de Nova York tornou-se o primeiro a adotar uma moratória para os data centers que consomem 50 megawatts ou mais. Sob pressão, outros estados suavizaram suas posições desde então. No Nebraska, o governador republicano Jim Pillen assinou uma ordem executiva que corta incentivos fiscais para novos data centers. No Texas, seu homólogo, Greg Abbott, suspendeu o avanço de novas conexões à rede elétrica enquanto centenas de projetos são revisados. O coletivo Data Center Watch identificou pelo menos 75 projetos de data centers parados ou atrasados no primeiro trimestre de 2026, e até mesmo para todo o ano de 2025.
Em Independence, Missouri, McKenna Cobb, de 31 anos, também abraçou a causa: essa mãe de dois filhos, que nunca havia se envolvido politicamente, lançou uma campanha de destituição contra um vereador que apoiava um projeto de data center. Sua campanha deu resultado: após coletar 1.000 assinaturas, quase 68% dos eleitores optaram por destituir John Perkins do cargo em uma eleição especial que aconteceu no início de setembro.
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Essa vitória eleitoral é também a vitória de uma aliança improvável. Inicialmente relutante em bater em portas adornadas com cartazes de Trump, ela acabou simpatizando com um casal de republicanos aposentados, a ponto de confiar seus filhos a eles por algumas horas para que pudesse fazer campanha.
Numa dessas reuniões, ela ainda se lembra de ter visto um homem vestindo uma camiseta com a frase “O socialismo é o futuro” conversando pacificamente com outro que usava um boné com a inscrição MAGA. Embora reconhecendo as profundas divisões entre os dois partidos em nível nacional, particularmente em relação ao aborto, imigração e direitos das minorias, essa mobilização permitiu que ela “desdemonizasse o outro lado”, enfatiza. “Porque, em nível local, todos queremos a mesma coisa: estradas bem conservadas, locais de encontro, água potável e contas de luz acessíveis”.
Embora as motivações variem de acordo com as sensibilidades políticas, o aumento do custo de vida (e especialmente da energia elétrica) é um ponto de consenso – outra promessa de campanha não cumprida por Donald Trump: desde seu retorno à Casa Branca, os preços ao consumidor aumentaram cerca de 5%.
Contas de energia elétrica insustentáveis, riscos de escassez de água, poluição sonora, grilagem de terras, desconfiança em relação às gigantes da tecnologia e aos representantes eleitos locais que lhes concedem licenças e isenções fiscais: essa impressionante lista de queixas só alimenta a raiva das diversas comunidades afetadas pelo desenvolvimento dos data centers.
Uma ruptura de verdade?
Há muito aceitos por gerarem receita tributária e criarem empregos, os data centers se tornaram “uma espécie de personificação das inquietações em torno da IA”, observa Scott Brennen, diretor do Centro de Políticas de Tecnologia da Universidade de Nova York (NY). Ele explica: “São blocos grandes e desagradáveis que materializam fisicamente problemas que, de outra forma, permaneceriam difusos e difíceis de compreender. Ao contrário dos debates sobre a regulamentação da IA, em que o cidadão comum acaba tendo pouca influência [regulamentação de chatbots, obrigações de segurança, etc.], os data centers estão localizados perto de casa, onde os moradores podem se mobilizar e ter um impacto real”.
A maioria dos moradores entrevistados pela Reporterre está mais irritada com seus representantes eleitos locais do que com as gigantes da tecnologia como Amazon, Microsoft e Google, que operam enormes redes de data centers.
Os representantes eleitos “deveriam ser nossos protetores” contra o apetite voraz das gigantes da tecnologia e sua sede de lucro, mas quando “uma grande quantia de dinheiro é acenada diante deles, eles se curvam e se esquecem das pessoas que deveriam ajudar e proteger”, desabafa Kyle Schmidt, 44, empreiteiro da construção civil. Ele mora em uma área rural muito conservadora perto de Sand Springs, Oklahoma, onde um projeto está previsto para ser construído próximo à fazenda de sua família.
O homem que agora se define como libertário – favorável a um Estado mínimo e uma forte proteção das liberdades individuais – sente repulsa pelo sistema político e econômico que considera “injusto” desde a proliferação dos data centers nos Estados Unidos. “Em novembro, votarei no candidato democrata certo ou no candidato republicano certo”, continua o presidente da Protect Sand Spring Alliance, uma coalizão de moradores. “Depende muito da pessoa: agora presto muito mais atenção ao que eles propõem do que antes”.
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