A Guerra do Cardeal Sarah. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Jack Gardner/ Unsplash

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03 Setembro 2026

Andrea Grillo reconstrói as raízes de quarenta anos de relações entre Roma e o mundo lefebvriano, de 1988 ao Summorum Pontificum até hoje, e aponta o caminho de um único rito compartilhado, capaz de respeitar diferentes sensibilidades. "A Missa Tridentina, reintroduzida por Lefebvre em substituição ao rito aprovado após o Concílio Vaticano II, seguindo as recomendações do Concílio, foi um 'ato de guerra' contra a Igreja de Roma. Inverter a lógica e fazer dos culpados as vítimas não faz sentido e só alimenta mal-entendidos", escreve o teólogo, em artigo publicado por Munera, 02-09-2026.

Eis o artigo.

Em uma entrevista muito recente, o Cardeal Sarah retoma sua nostalgia pelo Tridentino. E diz coisas verdadeiramente surpreendentes, subvertendo a realidade, como tem feito há muitos anos. Aqui estão as quatro principais declarações, que cito textualmente:

a) É errado declarar guerra à Missa Tridentina.

"Como Igreja, não podemos declarar guerra contra aqueles que frequentam a missa com devoção, simplesmente porque preferem uma forma à outra: essa é uma atitude míope e totalmente ideológica, e, portanto, não pastoral nem cristã."

b) Admiração pela grande intuição do Papa Bento XVI.

“Entre os efeitos da liberalização da forma extraordinária (isto é, a Missa Tridentina pelo Papa Bento XVI) houve uma influência positiva, eu diria até uma correção, de possíveis abusos na celebração da forma ordinária.”

c) Denúncia da humilhação sofrida pelo Papa Bento XVI.

[Bento XVI] pretendia permitir a mais ampla disseminação possível do rito tridentino, para que o povo de Deus pudesse decidir por si mesmo, ao longo de décadas, qual modo de viver a fé era o mais apropriado. Tudo isso foi anulado pela Traditionis Custodes, com o Papa Emérito ainda vivo. Não me pareceu uma escolha sábia ou respeitosa. Mas Bento, um homem manso como um cordeiro, permitiu-se ser humilhado e, assim, em silêncio e oração, ofereceu seu sofrimento a Deus para melhor se identificar com a dor de Cristo por sua Igreja e purificá-la.

d) Reafirmação da regra de ouro.

“O acesso a formas rituais que são reconhecidas e existem há séculos nunca pode ser limitado artificialmente por decretos.”

Gostaria de refutar, uma a uma, essas quatro afirmações.

A Missa Tridentina, reintroduzida por Lefebvre em substituição ao rito aprovado após o Concílio Vaticano II, seguindo as recomendações do Concílio, foi um "ato de guerra" contra a Igreja de Roma. Inverter a lógica e fazer dos culpados as vítimas não faz sentido e só alimenta mal-entendidos. Não se trata de "travar guerra à Missa Tridentina", mas de adotar, como rito comum, aquele oficialmente determinado pelo desenvolvimento orgânico da tradição, que entrou em vigor em 1970. A partir desse momento, recorrer ao "Vetus Ordo" é uma guerra contra Roma. Sarah parece esquecer essa história e está raciocinando de trás para frente.

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A solução proposta pelo Papa Bento XVI em 2007 não resolveu o problema, mas sim o agravou. A ideia de que dois ritos contraditórios podem gerar "paz" é uma ilusão que logo revelou seus frutos venenosos. Alimentar, a partir do centro, uma competição desleal entre formas rituais contrastantes nunca é uma solução. Muito menos serve para corrigir "abusos", que certamente são uma experiência ligada à recepção do Novus Ordo (NO), mas que Vetus Ordo (VO) resolve renunciando à participação ativa.

A questão crucial é que o ON pode ser abusado, mas a OV é um abuso em si mesma, sendo concebida como um rito clerical, produto da apologética moderna do catolicismo.

A imagem da "humilhação do papa" por seu sucessor é uma ficção. Francisco simplesmente restabeleceu o bom senso — defendido por Paulo VI e João Paulo II antes dele — que Bento XVI havia subvertido, introduzindo no magistério eclesiástico o mesmo argumento que levou Lefebvre ao cisma: a ideia de que a reforma litúrgica não tem autoridade para reformar o rito tridentino. Essa é uma ideia cismática, que Sarah parece não compreender.

No cerne de toda essa discussão reside, precisamente, a falsa afirmação de que um rito que existe há séculos não pode ser alterado. A Igreja tem autoridade para se reformar, inclusive sua própria liturgia, desde que o faça legitimamente. O que poderiam ter dito os bispos no Concílio de Trento, quando este estabeleceu a obrigatoriedade da residência, a forma canônica do matrimônio e a criação dos seminários?

Todas essas eram novidades, que gradualmente entraram em vigor, substituindo as anteriores. O mesmo se aplica ao Concílio Vaticano II, que indicou claramente a tarefa eclesial de superar uma forma litúrgica inadequada. Pensar que essa intenção do Concílio pode ser ignorada é declarar guerra a Roma. Pelo menos àquela Roma que está convencida de que está avançando e "deve avançar", como o Papa Leão XIV claramente expressou. A tentativa de colocar Leão XIV contra Francisco é um ato grave, que o Cardeal Sarah vem repetindo descaradamente há meses, associando-se a muitos personagens de má reputação.

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