Ensinar como escolha de sentido. A busca de sentido, responsabilidade e esperança em Viktor Frankl. Artigo de Robson Ribeiro

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03 Setembro 2026

Este artigo integra a série “A crise da docência no século XXI”, composta por sete textos que abordam temas como violência, adoecimento, sentido, autoridade e esperança na docência.

O artigo é de Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e historiador.

Eis o artigo.

Viktor Frankl nos permite avançar da constatação da perda de sentido para uma pergunta de esperança: é possível reencontrar razões para continuar? Para Frankl, o sentido não é uma fórmula universal que alguém entrega pronta. Ele aparece concretamente na relação da pessoa com sua vida, suas escolhas, seus vínculos e as situações que enfrenta. A existência não pergunta apenas “qual é o sentido da vida?”; ela também coloca diante de cada pessoa situações que exigem uma resposta responsável.

Essa perspectiva é especialmente fecunda para a docência. O professor não controla todas as condições em que trabalha. Não controla a política educacional, o comportamento de cada estudante, as decisões administrativas, as desigualdades sociais ou a cultura digital. Isso não significa aceitar passivamente o que precisa ser transformado. Significa reconhecer que, mesmo em circunstâncias difíceis, existe uma dimensão de liberdade relacionada à maneira como respondemos à realidade.

O sentido de ensinar pode estar no encontro com pessoas. Uma aula não é apenas transmissão de conteúdo; é uma oportunidade de abrir possibilidades. O professor pode apresentar um livro, provocar uma pergunta, estabelecer um limite, acolher uma dificuldade ou insistir quando um estudante já desistiu de si mesmo. Muitas vezes, o resultado de uma ação educativa só aparece anos depois.

Essa visão também ajuda a superar a lógica de produtividade que domina parte da educação contemporânea. Nem tudo aquilo que importa pode ser imediatamente medido. Uma escola pode produzir bons indicadores e ainda falhar na formação humana. Da mesma forma, uma conversa que não aparece em nenhum relatório pode modificar profundamente a trajetória de alguém. O sentido do trabalho docente não cabe inteiramente em números.

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Frankl também nos ajuda a compreender que encontrar sentido não é o mesmo que justificar o sofrimento. O professor não precisa sofrer para provar que ama sua profissão. Não há dignidade em aceitar violência evitável, exploração ou abandono. A busca de sentido deve caminhar junto com a transformação das condições injustas. A responsabilidade pessoal não elimina a responsabilidade coletiva.

A esperança docente nasce quando o professor consegue perceber que seu trabalho participa de algo maior do que a tarefa imediata. Educar é trabalhar com o futuro sem possuí-lo. É plantar sabendo que talvez outra pessoa colha. É acreditar que uma palavra, uma aula ou uma relação pode permanecer na vida de alguém muito depois de o professor ter esquecido aquele momento.

Nesse sentido, a docência possui uma dimensão profundamente ética. O professor responde diante de pessoas concretas, e não apenas diante de metas. Seu trabalho possui valor porque participa da construção de sujeitos capazes de pensar, escolher e conviver. Recuperar esse sentido não significa voltar a uma visão idealizada da profissão, mas reconhecer sua humanidade.

A sociedade também precisa assumir sua parte. Não podemos exigir que cada professor encontre sozinho um sentido para uma profissão que coletivamente tornamos cada vez mais difícil. A busca individual por sentido precisa encontrar condições sociais que permitam sua realização.

Talvez a grande pergunta seja: “Por que ensinar?”. Não existe uma única resposta. Para alguns, será o conhecimento; para outros, a transformação social; para outros, o encontro com os estudantes. Mas existe uma resposta que atravessa todas: ensinar pode significar participar da possibilidade de que outra vida encontre novos caminhos.É nessa possibilidade que o professor pode reencontrar esperança.

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