14 Março 2026
"A partir dessas perspectivas teóricas, torna-se possível compreender que a crise da educação não se limita a problemas de financiamento ou organização institucional. Trata-se, antes, de uma crise mais profunda relacionada à própria perda da dimensão formativa da educação."
O artigo é de Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), professor de Ensino Religioso do Colégio Santa Catarina - Juiz de Fora, professor de Filosofia, Sociologia e de Projeto de Vida do Centro Educacional do Raciocínio e Aprendizagem Socializada - RAS em Juiz de Fora.
Eis o artigo.
A crise contemporânea da educação não pode ser compreendida apenas como um problema administrativo, pedagógico ou de gestão escolar. Ela se insere em um cenário mais amplo de transformações culturais, sociais e tecnológicas que reconfiguram profundamente as formas de relação do ser humano com o tempo, com o conhecimento e com os vínculos sociais. Nesse sentido, o diagnóstico da crise educacional exige um diálogo com a filosofia social contemporânea, especialmente com autores como Byung-Chul Han e Hartmut Rosa, cujas análises sobre aceleração social, desempenho e alienação ajudam a compreender os desafios atuais enfrentados pela educação.
Segundo Han, a sociedade contemporânea passou por uma profunda transformação em suas estruturas de poder. Se anteriormente predominava o que ele denomina de “sociedade disciplinar”, caracterizada por normas externas, vigilância e controle institucional, hoje vivemos na chamada sociedade do desempenho. Nela, o sujeito não é mais simplesmente reprimido por estruturas externas, mas passa a internalizar a lógica da produtividade, tornando-se simultaneamente explorador e explorado de si mesmo.
Esse fenômeno tem implicações diretas para a educação. A escola, que historicamente foi concebida como um espaço de formação humana e reflexão crítica, passa gradualmente a ser submetida a lógicas de eficiência, produtividade e mensuração de resultados. Avaliações padronizadas, metas institucionais e indicadores quantitativos passam a ocupar o centro das políticas educacionais. Nesse cenário, o processo educativo corre o risco de reduzir-se a uma lógica instrumental, na qual o valor da educação é medido exclusivamente por sua capacidade de produzir desempenho mensurável.
Han argumenta que essa lógica produz uma profunda erosão da experiência formativa. A educação, entendida tradicionalmente como um processo de amadurecimento intelectual e existencial, exige tempo, silêncio, contemplação e reflexão. Contudo, a sociedade do desempenho valoriza a rapidez, a multitarefa e a hiperatividade. Como consequência, estudantes e professores passam a experimentar a educação sob constante pressão de produtividade, o que frequentemente conduz ao esgotamento psíquico e ao empobrecimento da experiência intelectual.
Essa dinâmica também se manifesta no próprio ambiente universitário e acadêmico, onde a produção científica é frequentemente avaliada por métricas quantitativas — número de publicações, índices de impacto e produtividade acadêmica — em detrimento da profundidade reflexiva. O conhecimento passa a ser tratado como produto, e não como processo de busca e compreensão da realidade.
A aceleração social e a crise da experiência educativa
A análise de Rosa amplia essa reflexão ao introduzir o conceito de aceleração social. Segundo o autor, a modernidade tardia é caracterizada por três formas principais de aceleração: a aceleração tecnológica, a aceleração das mudanças sociais e a aceleração do ritmo de vida. Essas três dimensões produzem um cenário no qual o tempo disponível para a experiência humana torna-se cada vez mais escasso.
A educação, nesse contexto, enfrenta uma tensão estrutural. O processo educativo é, por natureza, lento e cumulativo. Aprender exige repetição, aprofundamento, reflexão e maturação intelectual. Entretanto, a sociedade acelerada exige resultados imediatos e respostas rápidas. A lógica da velocidade passa a invadir o espaço da formação, criando uma contradição entre o tempo necessário para aprender e o tempo imposto pelas dinâmicas sociais contemporâneas.
Rosa argumenta que essa aceleração gera um fenômeno que ele denomina alienação social, caracterizado pela incapacidade de estabelecer relações significativas com o mundo. Quando tudo se torna rápido, transitório e descartável, o indivíduo perde a possibilidade de desenvolver vínculos duradouros com o conhecimento, com as instituições e com as pessoas.
No campo educacional, essa alienação manifesta-se de diversas formas. Estudantes frequentemente experimentam o conhecimento como algo fragmentado, instrumental e desconectado de sua própria existência. O aprendizado deixa de ser uma experiência de descoberta e passa a ser percebido como mera obrigação institucional. Da mesma forma, professores enfrentam a crescente burocratização do trabalho docente, o que reduz o tempo dedicado à reflexão pedagógica e ao acompanhamento formativo dos estudantes.
A perda da dimensão formativa da educação
A partir dessas perspectivas teóricas, torna-se possível compreender que a crise da educação não se limita a problemas de financiamento ou organização institucional. Trata-se, antes, de uma crise mais profunda relacionada à própria perda da dimensão formativa da educação.
Historicamente, a educação sempre esteve associada à ideia de formação integral do ser humano. Essa concepção compreendia a educação como processo de construção da autonomia intelectual, da sensibilidade ética e da participação na vida pública.
Entretanto, na sociedade contemporânea marcada pela lógica do desempenho e pela aceleração social, essa dimensão formativa tende a ser substituída por uma concepção utilitarista da educação. O valor do conhecimento passa a ser medido principalmente por sua utilidade econômica ou por sua capacidade de gerar competitividade no mercado de trabalho.
Essa transformação possui implicações profundas para a cultura democrática. Uma sociedade que reduz a educação à lógica da utilidade econômica corre o risco de enfraquecer a formação crítica dos cidadãos. A educação deixa de ser espaço de construção do pensamento autônomo e torna-se apenas instrumento de adaptação às demandas do sistema econômico.
Educação, ressonância e reconstrução do sentido
Apesar do diagnóstico crítico, Rosa propõe um caminho possível para repensar a educação contemporânea por meio do conceito de ressonância. Para o autor, a ressonância ocorre quando o indivíduo estabelece uma relação significativa com o mundo, na qual existe abertura, resposta e transformação mútua.
Aplicada à educação, a ideia de ressonância implica repensar a escola não apenas como espaço de transmissão de conteúdos, mas como ambiente de encontro entre sujeitos, saberes e experiências. A aprendizagem ocorre de forma mais profunda quando o estudante estabelece uma relação viva com o conhecimento, percebendo-o como algo que dialoga com sua própria existência.
Essa perspectiva sugere que a superação da crise educacional não depende apenas de reformas curriculares ou tecnológicas, mas de uma transformação mais ampla na maneira como a sociedade compreende o papel da educação. É necessário recuperar o sentido da escola como espaço de encontro, diálogo e construção de significado.
A educação como resistência cultural
Nesse contexto, a educação pode assumir também um papel de resistência cultural diante das dinâmicas de aceleração e instrumentalização da vida social. Ao promover a reflexão crítica, a leitura aprofundada, o debate filosófico e a construção de vínculos comunitários, a escola pode tornar-se um espaço que resiste à lógica da superficialidade e da fragmentação contemporânea.
A crise da educação, portanto, não deve ser interpretada apenas como um sinal de fracasso institucional, mas como expressão das tensões estruturais que atravessam a sociedade contemporânea. Compreender essas tensões é um passo fundamental para reconstruir projetos educacionais capazes de responder aos desafios do presente.
Assim, o diálogo com pensadores como Byung-Chul Han e Hartmut Rosa permite perceber que a educação não enfrenta apenas uma crise pedagógica, mas uma crise de sentido. A superação dessa crise exige recolocar no centro do debate educacional a formação humana, a construção de vínculos significativos e a recuperação do tempo necessário para o pensamento, a experiência e a aprendizagem autêntica.
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