21 Março 2026
"Em síntese, pensar a educação a partir de Bauman é reconhecer que ela está imersa em uma sociedade marcada pela fluidez, pelo consumismo e pela incerteza. Sua crítica nos obriga a questionar: estamos formando sujeitos ou apenas consumidores de informações?", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor, formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
A educação contemporânea encontra-se imersa em um cenário de profundas transformações culturais, sociais e tecnológicas, marcado pela aceleração do tempo, pela fragmentação das relações e pela crise de sentido. Nesse horizonte, temas como a fragilidade da autoridade docente, os desafios impostos pelas gerações Z e Alpha, a influência da lógica do consumo sobre os processos formativos e a necessidade de resgatar vínculos significativos no ambiente educativo tornam-se centrais. Tais problemáticas, amplamente debatidas por pensadores na atualidade reforça que a educação já não pode ser compreendida apenas como transmissão de conteúdos, mas como um espaço de disputa pelo sentido, pela formação ética e pela reconstrução do humano em uma sociedade em crise.
O pensamento de Zygmunt Bauman constitui uma das mais contundentes críticas à sociedade contemporânea e, consequentemente, à educação. Sua análise da chamada modernidade líquida revela um cenário marcado pela instabilidade, pela fluidez e pela fragilidade dos vínculos humanos, elementos que impactam diretamente o modo como se ensina e se aprende.
Bauman compreende que vivemos em uma sociedade em que “a mudança é a única constante”, gerando incerteza e insegurança generalizadas. Esse contexto produz uma transformação profunda na educação: aquilo que antes era concebido como formação sólida, duradoura e orientada por valores, passa a assumir um caráter provisório, instrumental e frequentemente superficial. O conhecimento deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser tratado como algo descartável, consumido rapidamente e substituído com a mesma velocidade.
Nesse sentido, a crítica de Bauman é radical: a educação foi capturada pela lógica do consumo. Ela se transforma em mercadoria, sujeita à lógica da oferta e da demanda, e perde sua dimensão formativa mais profunda. O saber torna-se “líquido”, isto é, instável e efêmero, dificultando a construção de um conhecimento consistente e crítico. O estudante, nesse cenário, não é mais um sujeito em formação integral, mas um consumidor de informações.
Além disso, Bauman denuncia que o sistema educacional tende a reproduzir desigualdades sociais. Em vez de promover justiça e emancipação, ele frequentemente reforça privilégios, perpetuando a lógica de exclusão. A promessa meritocrática, tão presente no discurso educacional contemporâneo, esconde as profundas desigualdades de acesso e permanência, tornando a educação um espaço de legitimação das diferenças sociais.
Outro ponto fundamental de sua crítica diz respeito à crise do sentido. Em uma sociedade marcada pelo excesso de informação e pela escassez de sabedoria, a educação perde sua capacidade de orientar a vida humana. Como o próprio Bauman sugere, estamos “afogados em informação e famintos por sabedoria”. Isso revela uma contradição central: nunca se teve tanto acesso ao conhecimento, mas nunca foi tão difícil transformá-lo em compreensão significativa da realidade.
Diante desse cenário, a contribuição de Bauman não é apenas diagnóstica, mas também provocativa. Ele aponta para a necessidade de repensar a educação como um processo contínuo, ao longo de toda a vida, capaz de formar sujeitos críticos e conscientes. Mais do que preparar para o mercado, a educação deveria possibilitar a construção de sentido, o fortalecimento dos vínculos humanos e o compromisso com a transformação social.
No entanto, uma leitura crítica de Bauman também exige reconhecer certos limites de sua abordagem. Seu diagnóstico, embora potente, tende ao pessimismo e, por vezes, carece de propostas pedagógicas concretas. Ao enfatizar a liquidez e a fragilidade das instituições, corre-se o risco de naturalizar a crise, sem indicar caminhos claros de superação. Por isso, muitos autores defendem a necessidade de articular Bauman com perspectivas pedagógicas mais propositivas, como a pedagogia crítica, que busca transformar a realidade educacional a partir da ação consciente e engajada.
Em síntese, pensar a educação a partir de Bauman é reconhecer que ela está imersa em uma sociedade marcada pela fluidez, pelo consumismo e pela incerteza. Sua crítica nos obriga a questionar: estamos formando sujeitos ou apenas consumidores de informações? Recuperar a dimensão ética, crítica e humanizadora da educação torna-se, assim, uma tarefa urgente — especialmente em tempos em que tudo parece escorrer pelas mãos, inclusive o próprio sentido de educar.
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