A era da espiritualidade viandante, sem bagagem e fora das igrejas. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Archee Lal/Unsplash

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21 Janeiro 2026

"Espiritualidade viandante ou do indivíduo moderno, explorador autônomo de sentido, que atravessa diversos territórios e navega entre várias fontes (espiritualidades tradicionais, ética laica, relacionamentos, paixões) para construir sua própria "verdade", distanciando-se dos dogmas religiosos consolidados", escreve Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Stampa-Tuttolibri, 17-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O viandante é alguém que vai pela estrada, por caminhos já traçados, por onde outros caminham e onde outros podem ser encontrados. O viandante nem sempre tem um destino preciso à sua frente como o peregrino, e aparece como a figura de alguém que quer caminhar, viajar a pé, percorrendo um caminho na cotidianeidade do tempo e na realidade da terra por onde passa. O viandante traça trilhas no tempo, não para chegar, mas para estar no caminho, uma sombra que carrega o mistério do "onde" e do "porquê", tecendo sua vida com passos lentos e conscientes, um explorador da própria existência, muitas vezes solitário, que encarna a jornada interior e a busca incessante, criando o mapa do seu destino a cada pegada deixada na poeira.

O que somos nós, homens e mulheres, senão viajantes nesta terra por um certo número de dias? Tempo e espaço são as dimensões que estruturam toda experiência humana, e são precisamente o tempo e o espaço que marcam nosso caminho na jornada da vida. E o viandante deveria saber vivê-los plenamente: se for um verdadeiro viandante, não carrega bagagem, mas se sente equipado apenas com uma mochila, na qual pode colocar o essencial: algo para beber, para comer, no máximo para se agasalhar e enfrentar a chuva, o frio e talvez a noite.

É por meio da figura do viandante que o sociólogo Luigi Berzano analisa e interpreta a condição moderna do indivíduo que, em constante busca por sentido, produz por si mesmo os significados de sua existência, com uma adesão cada vez mais tênue às crenças religiosas históricas. Último de uma série de esclarecedores ensaios dedicados por Berzano à evolução das experiências da religiosidade pessoal e coletiva nas sociedades multiculturais e secularizadas, tanto nas religiões históricas quanto nas novas formas de espiritualidade, em "Spiritualità viandante: Orizzonti di senso nell'epoca secolare" (Espiritualidade viandante: horizontes de sentido na época secular), publicado pela Editrice Bibliografica, Luigi Berzano identifica algumas características na "espiritualidade viandante": trata-se de uma espiritualidade em movimento e expansão, marcada pela mobilidade em função da sensibilidade pessoal.

"Spiritualità viandante. Orizzonti di senso nell'epoca secolare", de Luigi Berzano (Editrice Bibliografica, 2025).

Há tempo, observa-se que, na sociedade secularizada, a espiritualidade é vivenciada de forma individualizada, geralmente "fora das igrejas", buscando conexões pessoais por meio de práticas como meditação, contemplação, contato com a natureza e integração de elementos de tradições ou filosofias "sem Deus". Tudo isso se concentra em uma experiência interna, em vez de dogmas institucionalizados, mesmo mantendo uma ética pessoal e buscando um sentido mais profundo na vida. Resumindo, a secularização não matou a espiritualidade, mas a tornou mais fragmentada, personalizada e do tipo "faça você mesmo", deslocando o foco da religião organizada para a experiência individual de busca por sentido.

A partir disso, o mérito do ensaio de Luigi Berzano reside em apresentar uma síntese eficaz e clara dos principais avanços no âmbito da sociologia da religião, oferecendo linhas interpretativas originais, insights fecundos e ideias para reflexão particularmente estimulantes para quem deseja conhecer um pouco mais as principais características da relação entre o homem contemporâneo e a espiritualidade.

Desde o início, Berzano observa que o nômade, o andarilho, o peregrino, o forasteiro e o viandante são figuras já exploradas por autores como Gabriel Marcel em Homo viator (1945), Danièle Hervieu-Léger em O Peregrino e o Convertido (1999), Jacques Attali em L'uomo nomade (2004) ou, mais recentemente, Umberto Galimberti em L'etica del viandante (2023). Embora provenham de diferentes campos de pesquisa, seja ela histórica, filosófica, antropológica ou religiosa, emerge um modo de existência, uma busca por sentido que caracteriza a condição estável do homem na Terra.

No contexto atual, a espiritualidade torna-se viandante porque a religião se desloca das igrejas para as ruas, dos ritos litúrgicos para as práticas seculares, da obediência às doutrinas e aos magistérios para as escolhas individuais. Espiritualidades que experimentam novos alfabetos religiosos, que vão além da observância de ritos, porque se preocupam com o ser mais que com a moral. "A singularidade da espiritualidade viandante em comparação com a religião", observa Berzano, "reside em sua imediatidade e fluidez essenciais. É uma espiritualidade em movimento e expansão, marcada pela exploração individual, pela variabilidade dos caminhos religiosos e pela mobilidade em função da sensibilidade pessoal."

Se no passado as práticas regulares de culto eram o ponto de referência para o panorama religioso cristão, na conjuntura moderna, é o indivíduo que cria os significados de sua própria existência, com uma adesão fraca, quando não formal, a um sistema de crenças codificado. Daí a fluidez do nômade viandante, autônomo e autossuficiente em relação a afiliações institucionais, tradicionais e comunitárias.

Berzano demonstra como a época secular, caracterizada pela fragmentação espiritual, deu origem a espiritualidades seculares caracterizadas como experiências individuais, experienciais e autônomas, e que assumem a forma de designer spirituality. Essa é a definição com a qual alguns sociólogos indicam a construção individual do estilo de vida religioso, análoga à construção de outros estilos de vida em outros contextos, como a alimentação, o esporte, o vestuário, as preferências musicais, etc.

A designer spirituality corresponde, portanto, à busca pessoal de um perfil religioso que escolhe os conteúdos com base em suas próprias sensibilidades, escolhas, gostos e interesses, sendo, portanto, inerentemente criativa, moderna, eclética e reflexiva: "Ao contrário da espiritualidade do passado, que reproduzia formas e estruturas preexistentes às quais as necessidades e os gostos pessoais eram subordinados, essas espiritualidades inverteram a situação. É a espiritualidade que deve satisfazer as preferências individuais." E assim, chegamos às espiritualidades privadas e não de igreja — espiritualidades, poderíamos dizer, no genitivo: espiritualidade da moradia, espiritualidade da busca, espiritualidade terapêutica, espiritualidade da busca pelo eu profundo, da busca pela sintonia consigo mesmo, do estar de bem consigo mesmo.

Luigi Berzano identifica um elemento que caracteriza o horizonte de sentido na época secular nas "espiritualidades experienciais", onde a experiência vivida é a única fonte de verificação admitida. "Tive uma experiência maravilhosa": é a chave interpretativa de quem reconhece ter sentido as emoções de uma viagem, um encontro, um evento religioso ou um momento ritual. A emoção vivenciada é o critério de autenticidade, a imaginação emocional é a confirmação de sua veracidade.

Espiritualidade viandante ou do indivíduo moderno, explorador autônomo de sentido, que atravessa diversos territórios e navega entre várias fontes (espiritualidades tradicionais, ética laica, relacionamentos, paixões) para construir sua própria "verdade", distanciando-se dos dogmas religiosos consolidados.

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