Novo livro revela a verdadeira barreira ao diaconato feminino. Artigo de Annie McAuliffe

Foto: Mateus Campos Felipe | Unsplash

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01 Setembro 2026

 "Zagano, no entanto, oferece um caminho a seguir, fundamentado na observação de como a Igreja desperta os dons das mulheres, no sólido conhecimento dos ensinamentos da Igreja e na firme confiança na atuação do Espírito Santo. Ela propõe como solução o princípio da subsidiariedade".

O artigo é de Mary McAuliffe, mestre em teologia e professora de religião em Washington, D.C, publicado por National Catholic Reporter, 28-08-2026. 

Eis o artigo. 

Em "The Vatican and Women Deacons" (O Vaticano e as  diáconas, em tradução livre), Phyllis Zagano apresenta um relato do envolvimento do Vaticano com a questão desde a restauração do diaconato permanente em 1967 e argumenta que a principal barreira à ordenação de diáconas hoje não é teológica, mas cultural.

Estudos que confirmam a ordenação sacramental de diáconas na Igreja primitiva remontam ao século XVII e têm sido consistentemente desenvolvidos desde então.

The Vatican and Women Deacons, livro de Phyllis Zagano (ORBIS, 2026).

"Foi a Igreja, e não Jesus, que estabeleceu este ministério de serviço", portanto, a Igreja mantém a autoridade para ordenar qualquer ministro qualificado, escreve Zagano. A questão que importa agora "não é se as mulheres podem ser ordenadas como diáconas, mas se devem ser ordenadas como tal".

Zagano documenta meticulosamente o padrão de 50 anos do Vaticano de transferir continuamente e sem transparência a questão entre comissões internas, algumas sem especialistas em diaconato, apesar dos repetidos apelos por um ministério diaconal feminino vindos de diversos grupos de fiéis ao redor do mundo. Com esse registro detalhado, Zagano dá peso considerável a um ponto que ela frequentemente menciona em aparições públicas: "Eles não podem dizer não, simplesmente não querem dizer sim."

Zagano não apresenta os comissários como um grupo monolítico; alguns, segundo ela, tentaram sabotar o amadurecimento da questão por razões ideológicas. Uma subcomissão da Comissão Teológica Internacional (CTI) elaborou um documento que foi "impresso, numerado e votado", o qual, segundo Zagano, adotava uma posição favorável às diáconas. No entanto, o então prefeito da Comissão Teológica Internacional, Cardeal Joseph Ratzinger, "recusou-se a promulgá-lo".

Ela indica que outros comissários simplesmente não estavam dispostos a dizer sim.

Para católicos como eu, que atingiram a maioridade na era do Papa Francisco, essa distinção pode suscitar uma amargura particular. Fico me perguntando: se eu e minhas colegas do colégio católico feminino tivéssemos visto uma mulher pregando o Evangelho na missa ou presidindo batismos e casamentos, que impacto isso teria tido na formação da nossa fé? Nunca saberemos. Porque, segundo Zagano, os membros das comissões do Vaticano, desde a década de 1970 até o início dos anos 2000, simplesmente não estavam preparados para isso.

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A abordagem do livro em relação às comissões mais recentes traz um choque de realidade para aqueles que esperavam que o progresso estivesse próximo. Em uma reunião em maio de 2016 entre o Papa Francisco e a União Internacional das Superioras Gerais (UISG), uma freira questionou: "O que impede a Igreja de incluir mulheres entre os diáconos permanentes, como acontecia na Igreja primitiva? Por que não constituir uma comissão oficial para estudar o assunto?"

Zagano caracteriza a resposta do Papa Francisco como "as lembranças comuns de não especialistas".

Ele repetiu o que lhe fora ensinado há muito tempo: que as mulheres na igreja primitiva serviam como diáconas, cujo status de ordenação era incerto e cuja função principal era batizar outras mulheres, além de servir de intermediárias entre as mulheres e seus bispos. Contudo, concordou com a necessidade de estudar o assunto mais a fundo e criar uma comissão: aquela da qual a própria Zagano fez parte entre 2016 e 2018.

É provável que os leitores fiquem perplexos com a reação de Francisco às conclusões de sua comissão.

No almoço final da comissão, em junho de 2018, "o Papa Francisco aproximou-se da mesa e agradeceu informalmente às comissárias... O Papa também perguntou quem seria a primeira diácona. As comissárias apontaram para Zagano." No entanto, ao reunir-se novamente com a União Internacional das Superioras Gerais pouco mais de um ano depois, o Papa Francisco "entregou à presidente da UISG 'o pouco em que todas concordaram'" e usou uma expressão italiana referindo-se às comissárias como "todas diferentes, todas sapos de poços diferentes", recusando-se a tirar qualquer conclusão definitiva.

Em um webinar organizado pela Discerning Deacons em julho, Zagano disse: "Eu não sabia do que ele estava falando, e ainda não sei."

Uma segunda comissão foi convocada em 2020, e suas conclusões negativas ganharam as manchetes em dezembro de 2025. Em sua investigação sobre o trabalho dessa comissão de 2020, Zagano descobriu que, mais uma vez, alguns comissários tiraram conclusões baseadas em entendimentos limitados da história e do diaconato. O fato de não terem ocorrido reuniões com a presença de todos os membros originais, devido a uma série de doenças, também é suspeito.

Os opositores do diaconato feminino aproveitaram-se do relatório negativo dessa segunda comissão para usar a mesma tática que vêm aplicando há décadas: criar a falsa impressão de que existe um ensinamento magisterial definitivo contra a ordenação de mulheres ao diaconato e, em seguida, usar essa impressão para impedir qualquer discussão adicional.

Quanto à objeção da "unicidade das ordens", Zagano responde com o ensinamento magisterial atual, que afirma a natureza sacramental da ordenação diaconal e separa o ministério diaconal como totalmente distinto do sacerdócio e do episcopado. Essa separação provavelmente será o aspecto mais decepcionante do texto para os católicos cujas aspirações para as mulheres incluem o sacerdócio. Zagano argumenta que, mesmo nos mais altos escalões do Vaticano, uma significativa confusão teológica levou à vinculação do diaconato ao sacerdócio de maneiras contraproducentes. Em sua análise, essa confusão entre os dois ministérios impediu o progresso na discussão sobre as vocações femininas.

Zagano, no entanto, oferece um caminho a seguir, fundamentado na observação de como a Igreja desperta os dons das mulheres, no sólido conhecimento dos ensinamentos da Igreja e na firme confiança na atuação do Espírito Santo. Ela propõe como solução o princípio da subsidiariedade: confiar aos líderes locais o poder de tomar as decisões que impactam mais diretamente suas comunidades. A subsidiariedade poderia permitir que bispos em dioceses que necessitam e desejam diáconas prosseguissem com a ordenação delas; as dioceses que não necessitam não seriam obrigadas a fazê-lo.

E quanto ao futuro das diáconas? Zagano conclui que "O cenário mais provável é que o atual papa, ou o próximo papa, apresente um motu proprio … concedendo permissão aos bispos para ordenarem mulheres como diáconas" — e nos lembra que o que vem do Espírito Santo não pode ser impedido.

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