Por que é necessário um governo global. Artigo de Vito Mancuso

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01 Setembro 2026

A cena do "Aprendiz de Feiticeiro" no filme da Walt Disney termina com a chegada do mestre feiticeiro, que detém as vassouras enlouquecidas com um simples gesto; mas nós não teremos nenhum Super-Homem para consertar as coisas, temos de lidar por nós mesmos.

O artigo é de Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele, de Milão, e da Universidade de Pádua publicado por La Stampa, 27-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Alguém ainda se lembra da memorável cena do Aprendiz de Feiticeiro no filme Fantasia, de Walt Disney? Foi a primeira imagem que me veio à mente após ler as declarações de Bill Gates, segundo o qual a IA não deveria mais ser tratada apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como "uma força da natureza desencadeada pelo homem". Imediatamente visualizei o Mickey Mouse como o aprendiz de feiticeiro, em pânico diante das forças misteriosas que havia conjurado, confrontado por uma floresta de vassouras enlouquecidas que haviam se transformado, de pacíficos utensílios, em guerreiros ameaçadores. Agora nós somos o Mickey Mouse.

Após ter delineado a verdadeira natureza da IA e esclarecer que nosso futuro depende de como a gerenciamos (ou de como seremos gerenciados por ela), Bill Gates argumentou que devemos avançar em três frentes principais:

1) criar uma agência internacional para governar a IA, semelhante à que já existe para a energia atômica;

2) tributar empresas que demitem trabalhadores por causa da IA, utilizando a arrecadação para financiar um sistema de garantia salarial ou renda básica universal para quem fica desempregado; e

3) reservar pelo menos 40% dos empregos para os seres humanos, uma espécie de "cota" obrigatória (semelhante às cotas de gênero), ainda que a cor específica para designar essa "cota humana" ainda precise ser definida.

Gostaria de me debruçar sobre o primeiro ponto. Bill Gates defende uma "gestão política" da IA, mas no que exatamente consistiria tal gestão? Primeiro, na promulgação de leis pelo Poder Legislativo; segundo, na sua aplicação efetiva pelo Poder Executivo; e, finalmente, na possibilidade de sancionar as infrações da parte do Poder Judiciário. Os três poderes fundamentais que constituem a autoridade de um Estado moderno devem, necessariamente, entrar em jogo se quisermos estabelecer uma governança verdadeiramente eficaz para essa nova força da natureza que desencadeamos. Mas, justamente daqui nasce da maneira mais cristalina a necessidade imprescindível do direito internacional. E, portanto, da ONU. Bill Gates, de fato, até poderá viajar à China para se encontrar com o presidente Xi Jinping (como espero que aconteça em breve), e também encontrar um presidente EUA finalmente digno desse nome assim que terminar o mandato do atual ocupante do cargo; mas nenhum acordo entre os EUA e a China intermediado por ele poderá ser efetivamente implementado em escala global sem o envolvimento direto da ONU. Segue-se que o direito internacional e sua principal instituição, atualmente tão marginalizados, devem necessariamente recuperar o centro do palco político.

No entanto, precisamos ir além e perguntar sobre qual fundamento poderá ser construída a necessária legislação sobre a IA. Aqui, fica claro que é o direito, por se reportar à ética, isto é, uma específica visão do ser humano e dos valores irrenunciáveis necessários para salvaguardar sua dignidade. Em outras palavras, a governança global da IA não pode ser concretizada sem uma ética global, a qual remete organicamente ao projeto de "Ética Mundial" (World Ethos) defendido corajosamente pelo teólogo suíço Hans Küng.

A situação pode, assim, ser resumida nos seguintes pontos:

1) a tecnologia criou uma força da natureza com imenso potencial, tanto positivo quanto negativo, para a humanidade, mas não sabemos governá-la;

2) precisamos de uma instituição política internacional que possa governá-la;

3) para que tal instituição possa legislar de forma eficaz, deve haver um acordo universal sobre os princípios éticos irrenunciáveis.

A situação atual poderia muito bem espelhar o que aconteceu na antiguidade na ilha de Creta: seus habitantes, embora profundamente divididos em facções rivais, uniam-se sistematicamente contra um inimigo externo, conseguindo assim repelir a ameaça. Precisamos desse "sincretismo" renovado, isto é, uma energia intelectual que una as forças fundamentais dos seres humanos para salvar a humanidade da tecnologia que ela mesma conjurou.

A cena do "Aprendiz de Feiticeiro" no filme da Walt Disney termina com a chegada do mestre feiticeiro, que detém as vassouras enlouquecidas com um simples gesto; mas nós não teremos nenhum Super-Homem para consertar as coisas, temos de lidar por nós mesmos. E talvez uma saída possa surgir dessa renovada reflexão sobre nós mesmos e sobre o que realmente importa em nossas vidas. Como escreveu Hölderlin: "Mas onde há perigo, cresce também o que salva".

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