27 Agosto 2026
“Não gosto de dizer que a inovação pode ter um saldo negativo, mas é essa a situação em que nos encontramos”, alerta o fundador da Microsoft, que defende um imposto especial sobre IA e empregos “reservados para humanos”.
A reportagem é de Carlos del Castillo, publicada por El Diario, 26-08-2026.
A revolução da inteligência artificial deixou o mundo em alerta. Até mesmo aqueles que conhecem o funcionamento interno da indústria de tecnologia como a palma da mão estão apreensivos. Bill Gates, um dos grandes entusiastas da digitalização e figura fundamental para a compreensão da democratização da computação e dos computadores pessoais, é o mais recente a admitir que está "com medo". "A transição para a era da IA será um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade" e, se não agirmos, "a pior fonte de injustiça já inventada", adverte ele.
O fundador da Microsoft, de 70 anos, acredita que a IA terá um impacto profundo nas democracias, no emprego, nas capacidades cognitivas das crianças e nas relações humanas. "Não gosto de dar más notícias e não gosto de dizer que a inovação pode resultar num saldo negativo... Mas é essa a realidade", afirma ele num extenso ensaio e entrevista publicados nesta quarta-feira no New York Times.
Esses efeitos nocivos o levaram a se juntar àqueles que pedem uma paralisação ou moratória no desenvolvimento tecnológico. "Se alguém tivesse um plano crível para desacelerar o avanço da IA globalmente, eu provavelmente o apoiaria", revela em seu manifesto. "No entanto, não acho que isso vá acontecer. Os incentivos geopolíticos e econômicos exercem uma pressão muito forte para que continuemos a todo vapor", lamenta.
Bill Gates defende criar reserva de empregos para humanos e cobrar impostos sobre robôs
— Oliver Stuenkel 🇧🇷 (@OliverStuenkel) August 27, 2026
Gates critica governos e diz que países não estão preparados para enfrentar os impactos da tecnologiahttps://t.co/EYaoFgJpkj
Ele acusa as empresas de tecnologia de esconderem a verdade
Gates critica os executivos de tecnologia cujos escritórios ele frequentou por décadas. Por um lado, ele pretende refutar o argumento de que a IA criará mais empregos do que destruirá, como aconteceu em outras revoluções tecnológicas no passado: “Você está brincando comigo? Essa é uma afirmação tremenda, e eu aposto tudo o que sei que isso será totalmente, absolutamente, completamente e totalmente diferente.”
Por outro lado, são acusados de esconder os riscos de continuar avançando. "Em particular, as pessoas que entendem o quão boa é essa tecnologia e o quanto ela está melhorando estão muito preocupadas", revela ele, indicando que aqueles que ousam apontar isso são censurados pelo resto da indústria. "Eles dizem uns aos outros: 'Ei, cara, não diga isso. É ruim para os próximos bilhões de dólares que estamos tentando levantar.'"
Portanto, ele apela aos governos para que tomem medidas e critica Donald Trump por permitir que essas corporações multinacionais interfiram na elaboração de leis que deveriam regulamentar a IA. "Autorregulamentação para a ferramenta mais perigosa já inventada? Não, obrigado!"
Taxar robôs para salvar empregos
O fundador da Microsoft passou o ano de 2026 envolvido em controvérsias devido ao seu envolvimento nos Papéis de Epstein. Em julho, ele testemunhou por horas perante a Câmara dos Representantes sobre seu relacionamento com o notório líder de uma rede de pedofilia. Agora, Gates quer retomar sua rede de contatos com líderes internacionais, afirmando que os riscos da IA se tornaram tão importantes quanto suas preocupações com a saúde global e a preparação para a próxima pandemia.
Em seu manifesto, o magnata propõe uma profunda intervenção governamental na economia, começando por uma reforma tributária que reduza os incentivos das empresas para demitir trabalhadores em massa. Gates argumenta que os sistemas tributários atuais recompensam a substituição de trabalhadores por algoritmos. "Atualmente, se você é um empregador e contrata alguém, paga impostos sobre a folha de pagamento referentes aos seus rendimentos. Mas se você compra um robô, geralmente pode deduzi-lo imediatamente como despesa comercial", destaca ele.
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Para lidar com essa situação, Gates defende a criação de impostos específicos sobre IA e robôs. No caso dos algoritmos, o magnata propõe que as empresas sejam obrigadas a pagar por cada unidade de poder computacional consumida, que no setor de IA são conhecidas como tokens. Ele acredita que isso impediria as empresas de automatizar tarefas na primeira oportunidade e arrecadaria fundos para acelerar a reintegração de trabalhadores demitidos.
“Reservado para humanos”
A segunda grande proposta de Gates é criar áreas onde o uso de IA seja totalmente proibido para proteger a dignidade do trabalho. “À medida que a IA e os robôs melhoram, reservaremos certas coisas apenas para as pessoas fazerem. Comecei a chamar esse domínio de Reserva Humana”, explica ele. “Gosto dessa expressão porque me faz pensar em reservas naturais: lugares onde poderíamos construir prédios e estradas, mas decidimos não fazê-lo porque a perda seria muito grande”, detalha.
Ele propõe que essas áreas sejam setores como o cuidado de doentes ou idosos, a educação infantil ou a redação de notícias médicas particularmente sensíveis.
Um órgão regulador internacional inspirado no controle nuclear
O plano global de Gates culmina em um alerta sobre a ineficácia das fronteiras nacionais diante de uma tecnologia que se dissemina a uma velocidade impressionante. Para impedir que a IA caia nas mãos de agentes capazes de desenvolver armas biológicas ou lançar ciberataques massivos, o magnata acredita que a sociedade deveria abolir as instituições criadas para uma realidade que já não existe.
“Nenhuma de nossas instituições atuais foi projetada para lidar com uma tecnologia que se espalha tão rapidamente e afeta tantas áreas de nossas vidas. Portanto, teremos que criar novas”, afirma o ensaio. Gates sugere que a solução poderia estar em uma grande agência reguladora internacional, inspirada nos “regimes de inspeção de armas nucleares, regulamentações da aviação civil e acordos para proteger a camada de ozônio”.
Em sua entrevista ao The Times, o primeiro dos grandes magnatas da tecnologia reconhece que sua fortuna, superior a US$ 100 bilhões, o protege dos potenciais danos causados pelos efeitos negativos da IA. Mas, ao mesmo tempo, ele destaca que “a ironia de um entusiasta da inovação estar com medo, dizendo que não estamos prontos e que estamos ultrapassando limites, é talvez ainda mais perturbadora”.
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