Vozes de Emaús: Por uma futurologia ancestral. Artigo de Priscilla dos Reis Ribeiro

Arte: Lauren Palma | IHU

29 Agosto 2026

"Exercitemos uma futurologia que seja voltada para nosso passado ancestral, repositório dinâmico de afetos e saberes que nos habitam, para que as raízes existenciais, fincadas neste chão afropindorâmico, floresçam justiça e paz. Sigamos na teimosa disposição de espalhar as sementes subversivas do Verbo e jardinar o desejo de dignidade para todas as criaturas da Casa Comum".

O artigo é de Priscilla dos Reis Ribeiro, indígena de ascendência tupinambá, ecoteóloga feminista, pastora batista e doutoranda em Epistemologia, Lógica e Teorias da Mente pelo HCTE/UFRJ.

Priscilla dos Reis Ribeiro. (Foto: Arquivo pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos; para que não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e compreendam com o coração, e se convertam, e eu os cure” (Evangelho de Mateus 13:15).

Essa reflexão nasce da reverberação do encontro Ameríndia Brasil 2026 e se baseia na provocação feita pelo Cristo na expressão “compreendam com o coração” do texto lido no Evangelho de Mateus. Mas o que isso tem a ver com a teologia? O termo teologia nos chega cheio de significados: palavra de outra terra, outras gentes, outras categorias de pensamento. Por isso, proponho a expressão “cosmopercepção do Sagrado” tendo em vista que percebemos os fenômenos com todo o corpo e, em se tratando da experiência do Sagrado e da vida, essa perspectiva que dialoga com a corporeidade faz toda a diferença. Na cosmopercepção do Sagrado, a partir da perspectiva indígena que tem me inspirado, o corpo todo atua e não apenas o aspecto racional, muito embora em inúmeros contextos este seja considerado a única abordagem legítima.

Temos muitos sentidos e todos eles vivenciam, aprendem e expressam o sagrado. Sendo assim, pergunto: é possível deslocar o eixo principal da reflexão teológica e, em vez de pensar o Sagrado, construir uma experiência corpórea multi sensorial enraizada em nossa terra? Os caminhos teológicos da academia são pavimentados com muitas certezas, no entanto, as trilhas que a vida cotidiana nos apresenta mostram que mais importam as perguntas do que as respostas. Abraçar as contradições e os paradoxos é o que nos faz humanos. Nossa raça, minha gente, é capaz do que há de mais grotesco e violento, mas também do mais sublime e elevado.

Por isso pergunto: a partir do chão que se pisa hoje, o que pode ser elaborado como uma “cosmopercepção libertadora”? No que essa proposta seria diferente das tantas teologias que nos chegaram do norte global, inicialmente pelas caravelas que singraram mares azuis e atualmente navegam telas azuladas? As possibilidades narrativas recebidas sobre o Sagrado, a comunidade, a terra e nós mesmos nos cristianizam ou nos evangelizam, nos aprisionam numa gaiola invisível ou nos tornam subversivamente livres?

Fomos colonizados. Logo, toda a nossa experiência existencial foi afetada pelo fim do mundo que iniciou em 1492 em nosso território. E se tudo foi contaminado, o que se fez da nossa vivência de fé? Sabemos identificar a insalubridade da teologia colonial que fincou raízes nos nossos corpos e territórios há mais de meio milênio? Essa questão é urgente porque para decolonizar precisamos ver julgar e agir sobre o colonialismo e o legado deixado que ainda persiste.

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Para começo de conversa, nosso país tem nome de árvore e se usarmos nossa imaginação e observação para aprender, perceberemos que esse simples fato já nos ensina muito. Nossa teologia/cosmopercepção é feita a partir de onde nossos pés pisam das gentes que nos atravessam, dos conflitos que enfrentamos e das conquistas que saboreamos coletivamente. Desta forma, a proposta de tecer coletivamente uma teologia da agrofloresta e não da monocultura, dialoga com o fato de a teologia é um construto humano sobre o Sagrado, e por isso mesmo podemos reconstruí-la a partir do que aprendemos com os povos afroindígenas dessa nossa Améfrica Ladina como bem ensinou Lélia Gonzalez no seu bom pretuguês.

Evoco a sabedoria ancestral de Nêgo Bispo para essa ciranda de saberes e antropofagizo sua conceituação das diferenças entre monocultura e agrofloresta como existenciais mais do que técnicas, à medida que reflete uma profunda diferença de cosmopercepção. A monocultura está enraizada na lógica colonial e cosmofóbica, enquanto a agrofloresta se alinha com os princípios da confluência, da ética da reciprocidade e da vida em comunidade. Cosmofobia é essa forma de ser no mundo que se pauta na dominação, no medo da diversidade e da natureza, aspectos que o fascismo também carrega, bem como o fundamentalismo religioso.

Perceba: são constituintes tanto da monocultura quanto da monolatria as lógicas da exclusão, da eliminação do diferente e da imposição das práticas de controle e é por isso mesmo que o desafio não é só ser decolonial, mas sim contracolonial, em outras palavras, não apenas reagir, mas propor outras maneiras de ser e assim, imitar a floresta, valorizando a diversidade e a relação de reciprocidade com a terra e todos os seres.

O bioma que nos pariu, nosso locus teológico mesmo que inconsciente, não é recurso a ser dominado e explorado para o lucro. Há que se envolver mais do que desenvolver porque a terra é parceira. Envolver-se em uma relação de troca, seguindo a ética da reciprocidade com suas relações sociais, econômicas e cósmicas baseadas num fluxo contínuo de dar, receber e retribuir, tão caro aos povos indígenas, comunidades tradicionais e biomas do Brasil. Uma cosmopercepção do Sagrado permeada por tais relações de parceria e de complementaridade permite que os princípios suleadores da Teologia da Libertação adubem a vida subterraneamente, como raízes.

Para que a atual necroteologia disseminada em nosso país seja desarticulada, precisamos desenvolver uma metodologia fúngica, ou seja, aprender com os minúsculos fungos que nutrem e comunicam vida a imensas árvores. Creio que esse relacionamento que ocorre longe dos olhos, no ventre da terra, pelas raízes, pode subversivamente impedir o crescimento das redes de destruição de subjetividades que tem minado nossa democracia. Fortalecer nossas redes de afetos que não se podem ver - que não estão nas mídias -, onde se nutre a verdade e não se propaga desinformação, é apontar caminhos de ressurreição comunitária.

A proposta de uma teologia da agrofloresta nos provoca a confluir afetos, saberes e modos de vida e assim, manifestar práticas da contracolonização propositivas, que dedicam energia a produzir alimentos espirituais de forma sustentável, bem como reconectar os seres humanos à lógica da natureza e da comunidade, rompendo com o medo cosmofóbico que caracteriza o projeto colonial moderno que ainda vive. Na agrofloresta, todos os seres são necessários e o conhecimento para cultivar a diversidade vem da observação atenta da natureza e dos saberes ancestrais, e não de pacotes teóricos por mais adequados que sejam. E assim, a cosmopercepção teológica ou melhor, vidalógica como afirma Ivone Gebara, pode contar com novos fios na trama que tece a Teologia da Libertação Latinoamericana e Caribenha nos dias de hoje.

Exercitemos uma futurologia que seja voltada para nosso passado ancestral, repositório dinâmico de afetos e saberes que nos habitam, para que as raízes existenciais, fincadas neste chão afropindorâmico, floresçam justiça e paz. Sigamos na teimosa disposição de espalhar as sementes subversivas do Verbo e jardinar o desejo de dignidade para todas as criaturas da Casa Comum.

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