"A Esperança de uma nova forma de sociedade nos põe em busca de caminhos para sua realização, e nessa caminhada não podemos aceitar coerções à liberdade de pensamento capaz de formular um projeto viável de uma Terra sem males, Terra onde Justiça e Paz se abracem e toda a grande comunidade de vida do Planeta viva em Paz."
O artigo é de Pedro A. Ribeiro de Oliveira, doutor em Sociologia, Professor aposentado dos PPGCR da UFJF e PUC Minas.

Pedro A. Ribeiro de Oliveira (Foto: Tiago Miotto | Cimi)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto e ter acesso a todos os artigos da coluna, verifique o leia mais, no final do texto. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.
Mudança climática. Para a Terra esse é um evento menor, mas para muitas espécies vivas — inclusive a nossa — há risco de efeitos devastadores e até de extinção. Temos dificuldade de pensar essa realidade porque, antropocentricamente, nos julgamos o ápice da Evolução, imagem e semelhança de Deus e por isso continuamos a viver como se tudo estivesse normal... comemos, bebemos, e festejamos... (Mt 24, 38). Os alicerces físicos em que se assenta a humanidade, porém, estão sendo abalados e isso tem consequências sociais, econômicas e políticas cada vez mais graves.
Capitalismo ultraliberal. A economia mundial mudou: após um século desenvolvimentista em que o capital amenizou a luta de classes buscando a sociedade do bem-estar, triunfou o neoliberalismo e a globalização que fez crescer o capital financeiro e a desigualdade entre ricos e pobres. Agora, a crise de 2007/08 levou o capitalismo para o ultraliberalismo predador (apropriação dos bens-comuns) e manipulador (por meio da informática). Seu impulso é o de acumular o máximo de bens antes que o Planeta se esgote. Resultado: enorme concentração da riqueza: 3 a 4 mil bilionários [1] no mundo detêm uma riqueza superior a US$ 20 trilhões (Elon Musk aproxima-se da marca de trilionário). Para Peter Thiel, dono da Palantir (que produz I.A. para fins militares), liberdade e democracia são incompatíveis. Sua meta é a autonomia da tecnologia, acima de fronteiras e sem regulamentação, para consolidar o poder de quem a controla.
O problema não é tanto a desigualdade quantitativa (estimo em 3-4 mil bilionários, 1 milhão de milionários e 800 milhões de pessoas nos setores médios da população mundial), mas sim a enorme concentração de riqueza e poder em 10% da população mundial, deixando desprotegidas mais de 7 bilhões de pessoas, porque a economia não seria prejudicada se viessem a desaparecer! O governo do Brasil — a duras penas — busca proteger essa massa humana (fim da escala 6x1, taxação de fortunas e de dividendos), mas outros, ao contrário, reprimem migrantes, pobres e divergentes.
Mal-estar generalizado. Essa nova configuração econômica da sociedade provoca a sensação de insegurança e mal-estar que desemboca numa forma de medo generalizado, porque suas raízes são ignoradas e as instituições do Estado não conseguem dar a devida proteção à grande maioria empobrecida. Assim, ela busca escapar desse inimigo não-identificado submetendo-se a milícias, religiões que prometem intervenção divina, ou influenciadore/as que dão receitas miraculosas: este é o terreno fértil para o ressurgimento do fascismo, agora revestido de tecnologia informática.
Esperançar não é alimentar o otimismo: é dar a razão da nossa Esperança (1 Pe 3,15), tomando consciência da realidade de morte em que estamos inseridos. Há a Esperança baseada na Fé: um mundo onde reinem a Justiça e a Paz é possível, porque Jesus deu a vida por ele e foi ressuscitado por Deus. Mas há Esperança histórica? Como e onde encontrar força para resistir e viver? Uma pista é dada pelo povo Palestino, que, na contramão da evidente derrota, luta pela vida. Submetido a mais de 1.000 dias de massacre impiedoso que não respeita sequer as leis da guerra, esse Povo teima em viver e resiste ao Estado sionista (não judeu!) que o expulsa ou mata para apropriar-se de sua terra. Essa resiliência deve inspirar quem luta por uma sociedade realmente democrática.
Alimentar a Esperança requer, em primeiro lugar, entender a lição da História: Democracia se conquista com muita luta. É importante fazer memória das lutas e de quem lutou. Exemplo: a Constituição cidadã de 1989, que só trouxe conquistas democratizantes — aposentadoria rural, demarcação de Terras indígenas e quilombolas, SUS, garantia dos Direitos Humanos e outras — porque a voz das ruas, reforçada por cristãos e cristãs comprometido/as com os Direitos dos pobres ecoava no Congresso por meio dos Partidos do quadro democrático-popular.[2] A partir da virada neoliberal de Collor e FHC inicia-se o desmonte da Constituição e as privatizações. A força dessa reação fez Lula ceder à pressão em 2002, ao retirar de sua proposta de governo a Reforma Agrária, a Auditoria da Dívida Pública e a Reforma Tributária. Contudo, fica lição da História: quando se articulam os Movimentos Sociais da Sociedade Civil com Partidos atuantes na esfera do Estado, é possível realizar-se grandes conquistas democráticas.
Em segundo lugar, trata-se de ter um projeto de sociedade que realize o ideal da Democracia plena. Seu pressuposto é a contradição estrutural entre o modo de produção capitalista e a universalização dos Direitos Humanos[3]: a apropriação privada dos meios de produção dos bens necessários à vida obriga quem não é proprietário a submeter-se a quem detém o capital, para sustentar-se a si mesmo e a sua família. A História mostra que as classes trabalhadoras só conquistam seus Direitos ao se apropriarem coletivamente desses meios de produção que foram privatizados. Em outras palavras, o projeto de sociedade realmente democrática, onde imperem a Justiça e a Paz social supõe a socialização dos meios de produção.
Esse projeto igualitário tem seu estágio final quando realizar-se historicamente o princípio "de cada pessoa conforme sua capacidade, a cada uma conforme sua necessidade", que é a proposta final do comunismo clássico, mas que prefiro chamar de modo de produção comunitário devido ao desgaste semântico daquela palavra. Ele propõe superar o sistema do mercado (vender / comprar) pelo sistema da dádiva (dar / receber / retribuir), que é princípio de qualquer comunidade humana, desde a família até as comunidades tribais, camponesas ou territoriais. Seu fundamento está em que — desde que não seja realizado sob opressão! — o trabalho como atividade humana pode ser tão prazeroso para a pessoa adulta quanto é a brincadeira para a criança e a prática desportiva para pessoas saudáveis. Trabalho só é ruim quando implica a submissão de quem trabalha às leis do mercado, que sempre favorecem o mais forte: o capital.
O "x" do problema está em como chegar a essa sociedade constituída sobre um modo de produção comunitário. Desde a Comuna de Paris, em 1870, esse antigo projeto tem sido objeto de revisões e debates, daí nascendo o socialismo que foi aprimorado por Lenin e inspirou as principais revoluções e lutas populares do século 20. Hoje, porém, está em questão.
Hoje coloca-se como alternativa o projeto do Bem Viver, que se difundiu a partir das experiências das lutas dos povos Quíchua do Equador e Aymara da Bolívia[4], e tem sintonia com as formas de vida de povos originários de Nossa América. A atual experiência dos caracóis Maia de Chiapas, sob a proteção do Exército Zapatista, precisa ser lembrada, porque é uma nova forma de fazer Política. Enfim, é preciso ir mais fundo nas experiências de Economia Solidária, que precisa deixar de ser apenas forma alternativa à dominante economia de mercado para tornar-se o modo de produção normal da sociedade: uma economia de reciprocidade, que não deixa embutido o lucro no preço das transações de bens e serviços, nem cobra juros sobre empréstimos.[5]
A Esperança de uma nova forma de sociedade nos põe em busca de caminhos para sua realização, e nessa caminhada não podemos aceitar coerções à liberdade de pensamento capaz de formular um projeto viável de uma Terra sem males, Terra onde Justiça e Paz se abracem e toda a grande comunidade de vida do Planeta viva em Paz. A Esperança afirma que isso é possível, mas a História mostra que sua realização requer um estudo crítico das experiências históricas de superação do modo de produção capitalista. Essa tarefa intelectual está a desafiar toda pessoa que tem na Política o campo preferencial de vivência de sua Fé cristã.
[1] Para contar 1 milhão de segundos leva-se quase 12 dias. Para contar 1 bilhão: 31 anos. E aqui falo em US$.
[2] Plinio de Arruda Sampaio, líder do PT na época, contava que a tática de colocar nas praças um cartaz com a foto, nome e voto dos parlamentares foi um bom instrumento de pressão popular a favor dos Direitos na Constituinte.
[3] A ela acrescenta-se a contradição entre o capitalismo e os Direitos da Terra, que leva ao Ecossocialismo.
[4] Esta não é a única forma de Bem-Viver, mas foi muito difundida por Alberto Acosta num livro de ampla divulgação entre nós.
[5] Os textos da conferência temática nº 11, que tratou esse tema no 13º ENFP, podem ser acessados em: https://fepolitica.org.br/wp-content/uploads/2026/05/13o-ENFP-Coletanea-de-Textos_.pdf (p. 100–127).