"A esperança não é um fim em si mesma, ela é fértil, gera frutos suculentos de ações pela justiça. Da mesma forma que o sol quase arromba as retinas de quem vê, como canta Chico, o amanhecer da ressurreição nos impregna o corpo da encarnação do Verbo em nós. O Nazareno está vivo em milhares, milhões. Todos os corpos. Homens, mulheres, indígenas, negros, palestinos, LGBTQIAPN+. Todos e todas que foram colocados às margens têm seu rosto, todos e todas que sofrem desprezo carregam suas marcas, uma multidão imensa que não se pode contar pelos séculos: nossa gente, caminhantes na senda divina da mesma fé na vida."
Priscilla dos Reis Ribeiro. (Foto: Arquivo pessoal)
O artigo é de Priscilla dos Reis Ribeiro, indígena de ascendência tupinambá, ecoteóloga feminista, pastora batista e doutoranda em Epistemologia, Lógica e Teorias da Mente pelo HCTE/UFRJ.
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Ainda ressoando os ecos deste tempo de Páscoa, sento-me para escrever no entre-lugar em que a noite já não é mais tão sombria e o dia ainda não chegou. Nesse tempo-fronteira celeste ouso revisitar Gramsci na sua tão famosa sentença “o velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse escuro-claro, irrompem os monstros” a partir da subversiva perspectiva da ressurreição do Cristo libertador.
Muita coisa aconteceu nas narrativas da Semana Santa, atos e sentimentos intensos condensados em poucos dias deram ao movimento de Jesus um sentido de urgência cósmica como se as areias do tempo corressem com mais celeridade para a parte inferior da ampulheta da existência.
Por isso, no exercício imaginário de desacelerar, trago a lente de aumento para esse céu que clareia a seu tempo como tem sido desde o fiat lux mas que esquecemos na correria da vida ditada pelos algoritmos. Sim, é com pesar que vivencio a subtração diária que temos sofrido num sistema de vida que nos faz perder de vista a imensidão do céu e tudo que ele pode nos ensinar. A luz artificial tem nos seduzido e sequestrado nosso olhar da miração essencial que é a da teóloga mais antiga e mais sábia, Gaia. Esse interregno, tempo escuro-claro que Gramsci detectou como nascedouro de fenômenos mórbidos históricos, me serve como metáfora para topografias existenciais, territórios interiores que atravessamos e que nos colocam a alma em suspenso, entre a fé e a dúvida, entre a certeza do que já vivemos e a insegurança de ter sido apenas projeção de nossos desejos mais profundos.
Nessa fronteira entre-mundos, somente o mistério pode nos guiar pelas mãos e nos conduzir em sua amorosidade através do sábado da espera após a brutalidade vivida no teatro do horror do Crucificado. Sábado que pesa em seu silêncio um peso incarregável quando o que vivemos hoje diante dos imperialismos - que em seus suspiros de monstros que pisam forte e se recusam a morrer -, nos faz desmaiar a esperança no peito.
São as conhecidas mãos da Divina Ruah que nos carregam nesta travessia rumo ao alvorecer do dia em que o Sol da justiça trará a salvação debaixo de suas asas, como profetizou Malaquias. No entanto, para chegarmos lá, precisamos enfrentar a dor da sexta-feira da Paixão e a espera silente do sábado, díade extraordinária que expande nossa consciência do tempo e nos mostra que habitar essa fronteira é carregar um pouco dos dois lados, experimentando a transitoriedade e as contradições que a vida apresenta, ao mesmo tempo que se dispõe a delas sorver sabedoria, gota a gota, de um cálice por vezes amargo. O domingo chegará, mas neste tempo sagrado, suspenso e fora dos relógios do mundo, metaverso do espírito onde as camadas existenciais se sobrepõem, o coração se refugia no silêncio contemplativo após secarem as lágrimas de dor e submergir num silêncio oceânico as perguntas difíceis.
Ser peregrina neste entre-lugar sacramental, limiar do sábado da espera e o domingo da vida, é destino de quem caminha com Jesus e, por isso, conhece as dores intensas da finitude assolada por um Estado perverso, uma religiosidade hipócrita e pela humanidade medrosa que abandona e deixa à mercê da solidão. Sintomas mórbidos de uma humanidade que clama por redenção.
No entanto, ser peregrina é também estar aberta ao convite de experienciar a degustação multisensorial dos mistérios do Grande Espírito Eterno, sabores de leite e mel existentes em fartura, cheiros de lírios e outras flores do campo, farfalhar da árvore da vida, murmurar de águas cristalinas, gorjear de pássaros e vozes de todo sotaque que acolhem os que adentram o território do Bem Viver que é o Reino dos céus em sua resplandecente irmandade que abarca toda a teia da vida.
A urdidura desse tear da fé que renasce após violentos golpes só é possível pois a comunidade ampara e ajuda a prosseguir. Sei que falar de comunidade em tempos de olhos reféns das fantasmagóricas luzes azuladas das telas, tempo de individualismos e de escassez de vida plena, é desafio grande por demais mas, creia, vale a pena insistir porque é exatamente quando as primeiras luzes tingem o céu numa aquarela de claridade e cores tênues que se intensificam à medida que as horas dançam. Sim, é neste preciso e precioso momento que a partilha da Boa Notícia ocorre em comunidade refazendo a força em meio a um mundo despedaçado, costurando corações, bordando a boniteza da fé viva.
O império ainda estava lá na Jerusalém do século primeiro, assim como está aqui em Nuestra América e espalha seus tentáculos por muitos países do mundo com seus aparatos de subalternização, tecnologias de opressão para cansar e amedrontar. Parece invencível, mas maior é a força da vida que brota com simplicidade majestosa e não pode calar o impulso de espalhar o impensável nas artesanias das conversas sussurradas, revolucionárias em amor e insistente esperançar.
O des-poder do Messias servo carrega as sementes que rompem os sintomas mórbidos, a brutalidade dos homens, a adversidade dos tempos e a crueldade das guerras. Quando inicia em cada discípulo e cada discípula a potência de reescrever a história com um final já certo que é vitória da vida. Essa radicalidade ninguém pode nos tirar, não há como debelar o fogo de um coração incendiado pelo desejo de transformar primeiramente a si, e então, transbordar coletivamente.
Discipulado é chamamento para ser caminhante entre-mundos, para deixar rastro luminoso de metanoia nas fronteiras. É aprender a cartografar renovados afetos à medida que andamos entre as gentes, mapeando os encontros como bússola do sentipensar grafada nas tábuas de carne do coração nos “durantes” do nosso breve tempo aqui.
A esperança não é um fim em si mesma, ela é fértil, gera frutos suculentos de ações pela justiça. Da mesma forma que o sol quase arromba as retinas de quem vê, como canta Chico, o amanhecer da ressurreição nos impregna o corpo da encarnação do Verbo em nós. O Nazareno está vivo em milhares, milhões. Todos os corpos. Homens, mulheres, indígenas, negros, palestinos, LGBTQIAPN+. Todos e todas que foram colocados às margens têm seu rosto, todos e todas que sofrem desprezo carregam suas marcas, uma multidão imensa que não se pode contar pelos séculos: nossa gente, caminhantes na senda divina da mesma fé na vida.
Hoje, aqui mesmo, somos suas mãos, sua voz, em nossos passos caminham seus pés e esse doce mistério da fé. Mistério que inebria o coração que entendeu que é peregrino, mas que tem uma bússola infalível a guiar seus dias andarilhos, certeza pequena e indestrutível de que é na comensalidade que o Ressurreto nos abre o baú da memória, nos mareja os olhos e nos faz arder o coração.
Essa breve reflexão em tempos pascais, carrega o desejo que de você que me lê, mesmo em meio às madrugadas insones, silenciosas e densas da vida, não perca de vista o fato de que o sol da justiça repousa logo ali, no seu horizonte e vem a seu tempo. Ele vem, Ele já está. Ele respira em você, em nós. Apesar dos fenômenos mórbidos que rondam e por vezes nos tiram o chão de sob os pés, tenhamos coragem de celebrar a subversiva esperança anti imperial que nos move. Aleluia!