Política do bem comum. Artigo de Francisco de Aquino Júnior

Foto: Madara/Unplash

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18 Agosto 2026

"Desde Pio XI, vem-se repetindo que a política é uma das formas mais sublimes da caridade cristã. E hoje, mais do que nunca, precisamos reafirmar a necessidade da 'melhor política' que é a 'política colocada a serviço do verdadeiro bem comum' (FT 154)", escreve Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE, professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Eis o artigo.

A política é a forma de organizar e governar a sociedade. Não há sociedade sem política. Mas há formas muito diferentes de compreender e fazer política: a serviço dos donos do capital ou a serviço do bem comum. E há muitas estratégias políticas, dentre as quais uma muito atual é a demonização da política. Disseminar desinteresse e aversão à política é uma estratégia política para manter os interesses das elites.

Falando da imagem negativa da política no mundo atual, Francisco dizia que “não se pode ignorar que frequentemente, por trás desse fato, estão os erros, a corrupção e a ineficiência de alguns políticos”. Mas lembrava que “a isso se juntam as estratégias que visam enfraquecê-la, substituí-la pela economia ou dominá-la por alguma ideologia” (FT 176). Há toda uma estratégia política, potencializada pelas novas tecnologias digitais, para demonizar a política e facilitar sua manipulação e instrumentalização: “a melhor maneira de dominar e avançar sem entrave é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo que disfarçada por trás da defesa de alguns valores” (FT 15). Para isso, apela-se com frequência ao “mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar” e, para neutralizar e eliminar os adversários, “recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los” (FT 15). Não podemos ser ingênuos: a demonização da política é uma estratégia de dominação política.

Há muitas formas de manipulação e perversão da política: desviando dinheiro público; usando o poder político para manter e ampliar privilégios; elaborando leis que legalizam e protegem a corrupção; fazendo conchavos políticos para se manter no poder; subordinado as políticas públicas aos interesses do capital; instrumentalizando a religião para projetos de poder contrários ao Evangelho; demonizando a política, como se política fosse sinônimo de corrupção e como se todo político fosse corrupto (curioso que os que demonizam a política não desistem da política!). É preciso denunciar toda forma de corrupção e perversão da política (práticas, estruturas, sujeitos e forças políticas), mas sem demonizar a política, que é a forma de enfrentamento e superação dessas práticas. Problemas políticos se resolvem politicamente. O contrário disso é guerra e tirania.

Desde Pio XI, vem-se repetindo que a política é uma das formas mais sublimes da caridade cristã. E hoje, mais do que nunca, precisamos reafirmar a necessidade da “melhor política” que é a “política colocada a serviço do verdadeiro bem comum” (FT 154). Isso tem muitas consequências para a compreensão e o exercício da política: a) não pode se submeter à economia, mas deve submeter a economia ao bem comum e à justiça social (QA 88; FT 177); b) não pode ser regida apenas pelas circunstâncias e conveniências, mas “com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo” (FT 178); c) deve conjugar o bem de todos (FT 190-192) com as necessidades básicas dos pobres e marginalizadas (FT 187-189); d) deve articular eficácia com ternura, resultados com processos (FT 193-196); e) nunca se submeter à lógica da guerra, transformando adversários em inimigos a serem eliminados.

Especialmente no atual contexto de manipulação política da religião, convém recordar que a Igreja não tem um partido nem um projeto político, nem tem candidatos a nenhum cargo político. Não é sua missão. Nem ela tem competência para isso (PP 13; SRS 41). Mas isso não significa que ela seja indiferente à política e aos projetos políticos. Não tanto faz um partido, projeto, candidato ou outro. É preciso analisar, dentre as opções existentes, qual se aproxima ou se distancia mais da busca do bem comum e da justiça socioambiental. Não podemos criar falsas ilusões com partidos, candidatos e bancadas que se dizem “cristãos”. Isso é uma estratégia de instrumentalização política da religião. Basta ver a posição que defendem em relação a direitos trabalhistas, política tributária, proteção ambiental, políticas sociais, defesa da democracia, ética na política, etc.

Respeitando sempre a autonomia da política e suas mediações (Estado, governo, partidos, pressão social), a Igreja deve contribuir com a luz e força que vem do Evangelho para que a política esteja de modo efetivo e eficaz a serviço do bem comum e da justiça socioambiental. E pode fazer isso de muitas formas: difundindo valores e princípios sociopolíticos; denunciando toda forma de corrupção e perversão da política; fazendo ecoar o grito dos pobres e da terra; fortalecendo as lutas por direitos na sociedade; criando e mantendo pastorais e organismos eclesiais a serviço da justiça social e do cuidado da casa comum; colaborando com diversos setores e organismos da sociedade na denúncia das injustiças, na defesa do bem comum, da justiça, da democracia e da paz; participando dos conselhos de políticas públicas e de direitos; estimulando os cristãos a participarem da política partidária, construindo projetos políticos e exercendo cargos e funções a serviço dos bem comum, da justiça socioambiental e da paz.

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