05 Agosto 2026
O que parece uma simples ansiedade por estar dentro das tendências esconde um complexo mecanismo social que redefine o próprio conceito de liberdade, especialmente na era digital. O medo de ficar de fora (FOMO, na sigla em inglês) opera com uma força além do consumo, moldando relações sociais, exigências profissionais e até a percepção de autonomia. Em um contexto impulsionado por inteligência artificial e coleta de dados em massa, essa dinâmica pode atingir níveis ainda mais sofisticados de influência.
A reportagem é de Vinícios Penteado, publicada por ComCiência, 20-07-2026.
Há quase quatro décadas de conexão global constante e de opções aparentemente infinitas, o medo de ficar de fora ocupa um espaço de destaque. Para o professor de história e divulgador científico Vitor Soares, esse fenômeno é mais do que um movimento de ansiedade social; é um mecanismo central que alimenta o consumismo moderno. As pessoas são impelidas a consumir não apenas por desejo, mas por uma profunda necessidade de pertencer. Este é o primeiro pilar do FOMO: o consumismo funciona como moeda de troca para a aquisição de um lugar no grupo. Soares, no entanto, faz uma distinção crucial: se o consumismo pode ser um ato solitário, o FOMO é intrinsecamente social, nascendo da pressão do coletivo.
O impulso de pertencimento é o segundo pilar. A vontade, de ser aceito e reconhecido por um grupo, de fazer parte de algo, é o motor que faz o FOMO funcionar. Com essa pressão, consumir determinado produto ou adotar determinado comportamento acontece porque a alternativa leva a sensação de isolamento social. “Ficar de fora” da tendência parece uma sentença insuportável. Da busca por conexão constrói-se o terceiro pilar: a servidão. Soares evita o termo “escravidão” por respeito ao seu peso histórico, mas propõe “servidão” como o conceito preciso para descrever essa opressão moderna. Nela, acredita-se piamente que as decisões são livres, quando, na verdade, as pessoas são movidas por pressões externas tão bem orquestradas que as internalizam como vontade própria.
Soares recorre a uma analogia doméstica: um pai que, em vez de ordenar, persuade o filho a visitar a avó, fazendo-o acreditar que a ideia partiu dele. A criança sente a ilusão do autocontrole, sem perceber os fios emocionais que a guiam. Da mesma forma, “o medo de ficar de fora”, impulsionado pelos ambientes digitais, leva as pessoas a cumprir certos rituais de consumo com a convicção de que estão no comando, quando, na verdade, são submetidas a fortes influências sociais e mercadológicas. “A verdadeira liberdade não é fazer simplesmente o que se quer no calor do momento. É, antes, ter acesso ao máximo de opções possíveis e ser capaz de fazer escolhas racionais e fundamentadas, longe do ruído das pressões de grupos”, ressalta Soares.
Para Pietro Coelho, doutor em comunicação e docente em marketing, o FOMO não é um fenômeno exclusivo do ambiente digital, mas um sentimento inerente ao ser humano. O professor argumenta que a necessidade de participar, de estar a par do que acontece, de fazer amizades e de conversar sempre existiu. Embora o termo FOMO seja recente, a sensação de ficar de fora é antiga. A linguagem publicitária, por exemplo, historicamente utiliza a ideia de que, sem determinado produto – celular, carro, perfume –, o consumidor ficará “para trás” ou não será desejado.
Coelho associa o FOMO à necessidade social do ser humano, mencionando a hierarquia de necessidades de Maslow, que inclui a busca por amizades e conexões. As redes sociais e o meio digital “escancaram” e amplificam esse sentimento. Antes, a sensação de ficar de fora era compartilhada com um círculo mais restrito, como a família ou amigos próximos. Hoje, com o acesso a informações de todo o mundo e a presença das redes sociais, o sentimento se torna muito mais extremo.
Coelho também aborda a pressão social relacionada ao FOMO, distinguindo a pressão individual da externa. No cenário profissional, o docente observa que todas as áreas hoje exigem que os indivíduos estejam constantemente atualizados. Um jornalista precisa saber o que acontece no mundo, um publicitário, das novas tecnologias, e um arquiteto, das novas tendências. Essa cobrança do mercado de trabalho, que exige que o profissional esteja “antenado”, fortalece o FOMO. A análise sugere que o fenômeno ganhou força justamente por conta desse mercado superexigente.
No cenário pessoal, Coelho explica que, mesmo sem interesse em política ou economia, uma pessoa pode ter FOMO em relação a seus interesses específicos. O algoritmo das redes sociais identifica esses interesses e bombardeia a pessoa com notícias e novidades, criando a sensação de que “precisa saber” sobre aquilo, pois “está sendo dito em todos os lugares”.
O doutor em comunicação argumenta ainda que as redes sociais e o ambiente digital transformaram até mesmo o ato social de fazer amizades e entrar em grupos em um meio competitivo, semelhante ao mercado profissional. A necessidade de postar diariamente, opinar sobre assuntos e ganhar seguidores ou engajamento gera uma cobrança constante. Na visão de Coelho, o digital “dá um chute na porta e escancara” o FOMO, amplificando-o.
Sobre o futuro do FOMO, Coelho expressa uma visão pessimista. O docente acredita que, com o avanço tecnológico e a aceleração do mundo, o FOMO só vai piorar, resultando em mais crises de ansiedade e depressão, pois nunca vai acabar, a menos que o mundo pare de ter novidades. Coelho observa que, embora muitas coisas hoje não sejam genuinamente novas, remakes, reboots, pequenas atualizações de produtos, a comunicação as torna “novas” e “melhores”.
Soares, por sua vez, imagina um cenário que beira o cyberpunk, caso a lógica atual se mantenha. O marketing, armado com dados pessoais em quantidades sem precedentes e potencializado por inteligência artificial, não se limitará a sugerir produtos, mas também produzirá propagandas “perfeitas”, tão personalizadas que vão se unir à ideia própria de desejo, manipulando o FOMO com grande eficiência. Nesse amanhã possível, as grandes empresas controlariam não apenas o que se compra, mas a própria percepção da liberdade. De acordo com Soares, a regulação de dados e a taxação das Big Techs poderiam desacelerar essa corrida.
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