05 Agosto 2026
Não é só nostalgia de “internet livre”. É a sensação concreta de que Google, Amazon, Meta, etc., viraram donos de uma terra que a gente só aluga.
O artigo é de Henrique Cortez, jornalista e ambientalista, publicado por EcoDebate, 04-08-2026.
Este texto é uma reflexão pessoal inspirada no debate entre Yanis Varoufakis e Evgeny Morozov sobre o poder das big techs na economia digital.
Eis o artigo.
Porque eu comecei a me sentir um servo digital?
Faz um tempo que uma sensação estranha não me larga. Abro o celular, deslizo o dedo pela tela, aceito um punhado de cookies sem ler, e sigo o dia comprando, pesquisando, trabalhando e me divertindo dentro de espaços que, na prática, não são meus.
Não tenho as chaves de nada ali. Só tenho permissão de uso e essa permissão pode mudar a qualquer momento, sem aviso, sem negociação, sem eu ter dito uma palavra sobre isso.
Foi assim que cheguei ao conceito de tecnofeudalismo, cunhado pelo economista grego Yanis Varoufakis e confesso que, no início, parecia só mais um termo bonito para descrever o óbvio, que a Big Tech é grande demais e sabe demais sobre a gente. Mas quanto mais eu lia, mais a metáfora feudal fazia sentido.
O que é, afinal, esse tal de tecnofeudalismo
A ideia central é simples de resumir e difícil de digerir. Assim como os senhores feudais da Idade Média não produziam nada com as próprias mãos, mas cobravam pelo uso da terra, hoje empresas como Google, Amazon e Meta, etc., controlam a “terra digital” da nossa era: a nuvem, as bases de dados, as plataformas onde a vida social e econômica acontece. Quem quer vender, se comunicar, aparecer ou simplesmente existir online precisa pagar seu tributo, quer seja em dinheiro, em atenção ou em dados.
E os dados, aliás, viraram o novo capital. Cada clique, cada pausa em um vídeo, cada busca de madrugada alimenta algoritmos que decidem o que vemos, o que compramos e, em muitos casos, até decisões que afetam nossa vida fora da tela. Pequenos negócios sentem isso na pele: dependem de anúncios pagos só para serem encontrados dentro das próprias plataformas que deveriam ajudá-los a crescer.
É um sistema sustentado por uma vigilância quase invisível. Os famosos cookies, que a maioria de nós aceita no piloto automático, servem para identificar dispositivos, rastrear sessões, montar perfis de comportamento e medir o quanto um anúncio “funcionou” em cima de nós. No fim das contas, viramos, como diz a expressão, uma espécie de servos digitais: presentes, produtivos, mas sem propriedade sobre o território onde vivemos.
Mas será que isso é mesmo feudalismo?
Aqui é onde o debate fica interessante e onde eu também comecei a duvidar da minha própria indignação inicial.
O pesquisador bielorrusso-americano Evgeny Morozov discorda de Varoufakis num ponto essencial: para ele, chamar a Big Tech de “senhores feudais” é um erro de diagnóstico. Senhores feudais não inovavam, apenas extraiam renda de terras que já existiam. Já as gigantes de tecnologia investem somas absurdas em pesquisa, infraestrutura e desenvolvimento. Não são parasitas passivos, são, nas palavras de Morozov, motores de produção.
Além disso, Morozov lembra que a concentração de poder em poucas mãos não é nenhuma novidade histórica dentro do capitalismo. Ele resgata observações antigas, inclusive de Lenin, sobre o capitalismo monopolista, para argumentar que monopólio não é o oposto do capitalismo. É, muitas vezes, sua consequência natural quando ninguém o regula. Para ele, o que vivemos não é uma ruptura para um novo sistema, mas uma versão mais agressiva e concentrada do capitalismo que já conhecíamos, ainda movida por competição e crescimento incessante.
Duas lentes, um mesmo desconforto
Fiquei pensando se essa discussão é só um debate acadêmico distante ou ela muda alguma coisa prática na minha vida?
Acho que muda, sim e muda na forma como eu reajo ao problema. Se o que existe é feudalismo, a saída pareceria ser “recuperar a terra”, talvez com uma internet tratada como bem comum, de acesso público e gestão coletiva.
Se o que existe é capitalismo hiperconcentrado, a saída também passa por outro caminho: regulação antitruste, limites de mercado, políticas que freiem a concentração. O remédio clássico contra monopólios, só que aplicado a um território que não existia há trinta anos.
Na prática, análises recentes mostram os dois lados coexistindo. O mercado de infraestrutura de nuvem segue extremamente concentrado nas mãos de poucas empresas, o trabalho por plataforma cresce ano após ano no Brasil, e a corrida por infraestrutura de inteligência artificial só aprofundou essa concentração de poder computacional em 2026.
Ao mesmo tempo, países como o Brasil têm investido em capacidade computacional própria, um sinal de que talvez a resposta não seja escolher um rótulo teórico, mas agir antes que a dependência se torne irreversível.
E daí?
Não saí desse debate com uma resposta definitiva sobre se vivemos um novo feudalismo ou uma nova fase do capitalismo. Mas saí com uma pergunta mais útil do que a discussão semântica: de quem é a ‘terra’ onde eu construo minha vida digital e o que eu, pessoalmente, posso fazer para não depender tanto dela?
Talvez seja diversificar onde guardo meus dados. Talvez seja apoiar alternativas menores, de código aberto, de governança mais transparente. Talvez seja simplesmente prestar mais atenção antes de clicar em “aceitar todos os cookies”.
Os softwares de código aberto estão amplamente disponíveis e os adotei há mais de uma década. Servidor: Linux; SO dos computadores: Linux Mint; Suíte de escritório: LibreOffice, que em nada fica devendo ao MS Office; E-mail: Thunderbird; Navegador: LibreWolf.
Pequeno, eu sei. Mas é o tipo de gesto que começa a devolver um pedacinho da terra pra quem, no fim das contas, é quem sustenta esse ecossistema todo: nós.
Referências
Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo, Yanis Varoufakis. Disponível aqui.
Critique of Techno-Feudal Reason, Evgeny Morozov. Disponível aqui.
Leia mais
- O significado do DeepSeek para o tecnofeudalismo e a Nova Guerra Fria. Artigo de Yanis Varoufakis
- O tecnofeudalismo é um Leviatã frágil. Artigo de Cédric Durand
- Para escapar do Tecnofeudalismo. Entrevista com Cédric Durand
- “O tecnofeudalismo é uma espécie de capitalismo canibal”. Entrevista com Cédric Durand
- O que vem depois do neoliberalismo? Grandes gestores de tecnologia e ativos como novos rentistas
- “O virtual não pode ser tudo, porque se for tudo, a vida não faz sentido”. Entrevista com Cédric Durand
- O reinado feudal do algoritmo. Entrevista com Cédric Durand
- “A lógica do tecnofeudalismo possui uma ascensão contínua sobre nossas vidas”. Entrevista com Cédric Durand
- “Estamos vivendo a segunda morte do neoliberalismo e, desta vez, será a definitiva”. Entrevista com Cédric Durand
- Agora, somos servos do dono de uma plataforma digital que se dedica a acumular renda”. Entrevista com Yanis Varoufakis
- O tecnofeudalismo está dominando. Artigo de Yanis Varoufakis
- “O capitalismo matou o capitalismo”. Entrevista com Yanis Varoufakis
- Somos humildes servos dos senhores da nuvem: bem-vindos ao tecnofeudalismo. Artigo de Yanis Varoufakis