04 Agosto 2026
Cristãos e outras pessoas de fé estão enfrentando uma campanha governamental para deportar migrantes para seus países de origem (ou, de forma mais violenta, para terceiros países). Centenas de milhares de pessoas do Haiti e da Síria perderam, neste mês, seu Status de Proteção Temporária e seu direito ao trabalho.
A reportagem é de MT Dávila, publicada por America, 03-08-2026.
Muitos haitianos e outros beneficiários do TPS não vivem em seus países de origem há mais de uma década. Um grande número deles tem filhos que são cidadãos americanos e formaram famílias que fazem parte do tecido social deste país. Seu trabalho árduo contribui para diversos setores em todo o território nacional. O momento atual nos desafia a compreender as vidas que os migrantes construíram nos Estados Unidos, bem como os danos que podem sofrer se forem devolvidos a países ainda assolados pela violência e instabilidade.
Como podem os cristãos responder a um governo que parece demasiado poderoso para resistir? Os conceitos de “enraizamento” e de “direito de permanência” ou “direito de ficar, migrar e regressar”, presentes na doutrina social católica desde a sua origem, oferecem uma perspectiva abrangente para enquadrar a solidariedade com os migrantes na atualidade.
“Esse ‘direito de permanecer’ refere-se ao direito de indivíduos e famílias viverem com segurança e dignidade em suas terras natais, em vez de serem forçados a partir pela violência, pobreza ou instabilidade política”, escreveu Antonio Lemos, professor da Universidade de Notre Dame, em um ensaio de 2025 na revista US Catholic. “Isso impõe uma obrigação moral à comunidade internacional e aos governos locais de abordar as causas profundas que forçam a migração em primeiro lugar.”
Lemos traça a origem do conceito no ensinamento social católico até os escritos do Papa Leão XIII, que em 1888 abordou o drama da migração forçada de imigrantes italianos em sua encíclica “Quam Aerumnosa”. Nela, o papa lamenta os perigos da jornada migratória, os danos causados pelo desenraizamento de famílias e comunidades e, principalmente, a falta de recursos espirituais disponíveis para os recém-chegados.
O Papa Pio XII também destacou a situação dos migrantes forçados, ao mesmo tempo que defendeu “o direito das famílias a um espaço habitacional seguro para si” na constituição apostólica de 1952, “Exsul Familia Nazarethana”. E São João Paulo II articulou claramente o direito de permanência em seu discurso no Congresso Mundial sobre a Pastoral dos Migrantes e Refugiados, em 1998: “[P]arece importante salientar que é um direito humano fundamental viver no próprio país”.
O Papa Francisco confirmou o direito de permanência em sua mensagem de 2023 para o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, cujo tema foi “Livre para escolher entre migrar ou ficar”: “Para que a migração seja uma escolha verdadeiramente livre, é preciso envidar esforços para garantir a todos uma participação igual no bem comum, o respeito aos seus direitos fundamentais e o acesso a um desenvolvimento humano integral.”
E durante sua visita à Espanha e às Ilhas Canárias em junho, o Papa Leão XIV levantou a questão pertinente: “Que tipo de mundo construímos, se tantos irmãos e irmãs precisam arriscar a vida para viver?” Assim como seu homônimo, o Papa Leão XIV expressou preocupação com a violência e os abusos infligidos aos migrantes por traficantes, bem como com as péssimas condições que muitos enfrentam nos países de acolhimento.
O direito de permanência não se trata de manter os migrantes em um local contra a sua vontade, mas sim de coexistir com o direito de migrar. Ambos são caminhos legítimos disponíveis à família humana para garantir uma vida digna para todos. Ambos os direitos exigem que examinemos as condições sociais, econômicas e políticas que sustentam ou prejudicam essa dignidade.
O direito de permanência está relacionado à noção de "enraizamento", um componente essencial da experiência humana. Embora esteja ligado à busca universal por pertencimento, significado e uma vida que valha a pena ser vivida, o enraizamento aponta para uma conexão e vínculos mais profundos com o lugar e a comunidade; reconhece também os elementos concretos que os constroem, como educação, trabalho, vida religiosa e expressões culturais.
As pessoas, em todas as situações de mobilidade ou de inmobilidade, têm o direito de sentir-se enraizadas — de se conectar, construir, nutrir, sonhar, trabalhar, pertencer e contribuir.
Em gerações anteriores, imigrantes irlandeses, alemães, italianos e do leste europeu deixaram suas raízes em seus países de origem e se comprometeram a criar raízes em diversos lugares nos Estados Unidos. Uma experiência semelhante foi refletida no show do intervalo do Super Bowl de Bad Bunny, que retratou o desejo de permanecer enraizado em um lugar específico (Porto Rico e Nova York), em conexões comunitárias (uma celebração de casamento, homens jogando dominó, a casinha), no trabalho (trabalhar nos campos, o mercadinho da esquina, o salão de manicure), na cultura (comida, roupas, dança, música) e em experiências compartilhadas de luta (o apagão e o neocolonialismo).
E o sentimento de enraizamento é a experiência de migrantes haitianos e outros ex-beneficiários do TPS que construíram uma vida nos Estados Unidos que vale a pena ser vivida e que está tão conectada a Miami, Boston e Springfield, Ohio, quanto ao Haiti.
O testemunho do Serviço Jesuíta aos Refugiados e de outras agências que acompanham refugiados e migrantes nos mostra que as pessoas em todas as situações de mobilidade, ou de não mobilidade, têm o direito de vivenciar o enraizamento — de se conectar, construir, nutrir, sonhar, trabalhar, pertencer, contribuir. Todos esses elementos, essenciais para uma vida humana plena, exigem colaboração local, nacional e internacional para abordar as causas profundas dos conflitos, estabelecer uma paz duradoura e garantir o acesso de todos aos bens da criação. O direito de permanecer, o enraizamento e o direito de migrar se unem no princípio da dignidade humana e são conceitos que impactam a todos nós diretamente.
Permitir que o senso de enraizamento molde nossas respostas aos desafios atuais na defesa e no acompanhamento de migrantes exige que caminhemos em estreita colaboração com as comunidades afetadas, cujo enraizamento real nos Estados Unidos, bem como sua segurança em seus países de origem, estão ameaçados. Ao expandirmos nossa compreensão da experiência humana da migração para incluir o senso de enraizamento e o direito de permanecer, tornamo-nos mais conscientes das maneiras pelas quais as relações coloniais, extrativistas e militares em todo o mundo impactam a capacidade das pessoas de permanecer ou migrar em busca de segurança, estabilidade, uma comunidade à qual pertencer, um lugar para chamar de lar.
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