04 Agosto 2026
"A verdadeira invasão é aquela do medo que toma o lugar da compaixão", escreve José Antonio Vázquez Mosquera, em artigo publicado por Religión Digital, 31-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
José Antonio Vázquez Mosquera é filósofo semita, mestre em Aconselhamento, especialista em Mindfulness pela UCM e promotor do Centro de Escuta de Vallecas.
Eis o artigo.
"Eu era estrangeiro e me acolhestes" (Mt 25,35).
Há palavras que matam. Não porque disparem uma arma, mas porque abrem caminho para que outros atirem. Elas não erguem fronteiras nem atacam diretamente ninguém. No entanto, moldam nossa visão de mundo a ponto de não vermos mais pessoas, mas sim ameaças. Isso está acontecendo nos últimos dias com a chegada de milhares de pessoas pobres a Ceuta. Inúmeros veículos de comunicação retrataram essa tragédia humana como uma "invasão". O termo é repetido incessantemente, criando uma imagem profundamente falsa: a de um exército que ataca as nossas fronteiras.
Os pobres são transformados em soldados; os refugiados tornam-se invasores. As vítimas são vistas como ameaças. A pobreza deixa de ser a questão central e passa a ser algo visto com suspeita. É difícil imaginar uma subversão mais radical do Evangelho.
A linguagem nunca é inocente
Rotular uma crise humanitária como "invasão" não significa simplesmente escolher uma palavra infeliz. Significa construir um esquema mental.
Quando uma sociedade ouve, por horas a fio, que está prestes a ser invadida, já não vê mais crianças, famílias ou jovens desesperados, começa a ver combatentes. E, uma vez que surgem combatentes, qualquer resposta violenta parece mais facilmente justificável. Não é coincidência que, paralelamente a essa retórica, tenham surgido manifestações com palavras de ordem como "Prendam eles!" e ataques contra os migrantes. As palavras frequentemente precedem a violência
O imaginário acaba se transformando em comportamentos.
A verdadeira notícia não são os migrantes; é a pobreza.
Enquanto os talk-shows falam de invasões, mal se escuta a pergunta realmente importante. Por que milhares de pessoas estão deixando o Marrocos? Por que arriscam suas vidas? Por que tantos jovens consideram preferível arriscar a morte a permanecer no lugar onde nasceram?
A resposta não está em Ceuta. Reside na pobreza estrutural. Na desigualdade econômica. Em um sistema econômico internacional profundamente injusto, que continua a perpetuar relações neocoloniais entre o Norte e o Sul.
O Marrocos também é palco de graves violações dos direitos humanos, há anos denunciadas por organismos internacionais.
Também não se pode descartar a possibilidade de que o regime marroquino, com seus aliados Trump, Netanyahu e toda a extrema-direita internacional, inimigos do governo espanhol, esteja utilizando os fluxos migratórios como instrumento de pressão política; um aspecto que merece uma investigação rigorosa.
No entanto, mesmo que existam interesses geopolíticos por trás desses deslocamentos, aquele que cruza a fronteira continua sendo vulnerável. Não se torna mais vítima simplesmente porque outros tentam usá-lo.
O Evangelho jamais falou de invasões
Jesus nunca definiu os pobres como uma ameaça. Ele nunca transformou o estrangeiro em inimigo. Ele nunca equiparou segurança à rejeição do necessitado. Pelo contrário, pessoalmente se identificou com eles: "Eu era estrangeiro e me acolhestes". Ele nunca disse: "Eu era estrangeiro e me chamastes de invasor".
O critério supremo de juízo em Mateus 25 não será até que ponto protegemos nossas fronteiras. Será o que fizemos pelos famintos. Pelo estrangeiros. Pelos nus. Por aqueles que sofriam.
O cristianismo começa precisamente quando deixamos de ver o outro como uma ameaça e passamos a reconhecer nele o rosto de Cristo. Uma espiritualidade autêntica conduz necessariamente a assumir a responsabilidade pelo mundo e a uma prática de justiça e compaixão para com aqueles que mais sofrem. Uma espiritualidade que não resulta em compromisso com as vítimas acaba sendo uma espiritualidade vazia.
A maior vergonha
Mas, possivelmente, o aspecto mais doloroso destes dias, não foi ouvir tal retórica em certos ambientes políticos. O que é realmente desconcertante é ouvi-la em algumas mídias ligadas à Igreja. O fato de o termo "invasão" ser repetidamente usado em alguns programas da Trece TV ou da Cope para se referir a uma tragédia humanitária é motivo de profunda vergonha para a Igreja institucional, proprietária desses veículos de comunicação. Justamente as mesmas mídias que deveriam nos ajudar a ver a realidade através dos olhos do Evangelho muitas vezes acabam vendo-a pelas lentes do medo, da suspeita e do confronto.
Esperamos ouvir as Bem-aventuranças, mas ouvimos uma retórica que retrata os pobres como um perigo. Esperamos encontrar a história do Bom Samaritano, mas deparamo-nos com esquemas narrativos surpreendentemente semelhantes aqueles propagados hoje por amplos setores da extrema-direita internacional.
É difícil entender como algumas mídias, criados, em tese, para evangelizar, possam acabar utilizando uma linguagem que distorce a própria essência do Evangelho.
A responsabilidade da Conferência Episcopal Espanhola
A essas alturas, já não basta mais responsabilizar apenas jornalistas ou comentaristas. Há também uma responsabilidade pastoral. Os bispos espanhóis não podem simplesmente permanecer em silêncio enquanto alguns veículos de comunicação ligados à Igreja disseminam repetidamente uma linguagem que transforma os pobres em suspeitos e os migrantes em ameaça. O silêncio também comunica. A passividade também molda atitudes.
Não basta publicar documentos sobre a Doutrina Social da Igreja ou citar o Papa Leão XIV se, depois, permite-se a propagação, pelos meios de comunicação de inspiração cristã, de uma retórica incompatível com o coração do Evangelho.
Não se trata de impor uma postura política específica sobre a imigração. É legítimo debater políticas migratórias e gestão de fronteiras. O que é incompatível com o Evangelho é demonizar aqueles que fogem da fome, da pobreza ou do desespero.
Se um veículo de comunicação que fala em nome do cristianismo retrata sistematicamente os pobres como uma ameaça, os responsáveis por tais veículos deveriam seriamente se questionar se estão cumprindo sua missão evangelizadora. Pois não se pode proclamar no domingo que Cristo está presente no pobre e, durante a semana, permitir que as mídias ligadas à Igreja contribuam a retratá-lo como um inimigo social.
Quando a Igreja adota a linguagem do poder
A história mostra que o cristianismo perde a sua alma quando deixa de falar a linguagem das vítimas e adota aquela do poder. Aconteceu com a escravidão. Com o colonialismo. Com demasiadas ditaduras. E pode acontecer novamente com a imigração. Seguir Jesus nunca significou tranquilizar os poderosos; significou anunciar a boa nova aos pobres.
A consequência mais preocupante desse clima não é apenas o aumento da rejeição social. É que chegará um momento em que aqueles que acompanham, alimentam, defendem juridicamente ou simplesmente acolhem pessoas migrantes serão rotulados como ingênuos, cúmplices ou traidores. Isso já está acontecendo em outros países. Padres, religiosas, voluntários e organizações humanitárias têm sido alvo de campanhas de difamação simplesmente por praticarem o que o Evangelho chama de misericórdia.
Seria uma enorme contradição se essa suspeita acabasse sendo alimentada, direta ou indiretamente, por veículos de imprensa ligados à própria Igreja.
Recuperar a linguagem de Jesus
Talvez o primeiro passo rumo à construção de uma sociedade mais humana seja recuperar as palavras. Não chamar o desespero de "invasão". Não chamar aqueles que fogem da fome de "exército". Não chamar aqueles que tentam sobreviver de "ameaça". Porque a verdadeira invasão não é aquela daqueles que chegam pobres às nossas fronteiras. A verdadeira invasão é aquela do medo que toma o lugar da compaixão. Aquela do nacionalismo que toma o lugar da fraternidade. Aquela da propaganda que toma o lugar da verdade.
E – fato ainda mais doloroso - aquela de uma linguagem estranha ao Evangelho que ocupa o espaço das mídias que deveria ser preenchido pelas palavras de Jesus.
No dia em que a Igreja rotular o estrangeiro como "invasor", deixará de proclamar o Reino de Deus e passará a ecoar a retórica dos poderosos. E, enquanto continuamos a discutir sobre fronteiras, o Evangelho continuará a nos fazer a única pergunta realmente decisiva: o que você fez com o seu irmão?
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