“Há discursos que pensávamos ter superado e que agora voltam a ocupar o centro das atenções”. Entrevista com Mateo Niro

Javier Milei. (Foto: Gage Skidmore/Flickr)

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30 Julho 2026

Às vésperas do 7º Congresso Latino-Americano de Glotopolítica – realizado na Argentina pela primeira vez em uma década –, o pesquisador analisa como novos movimentos da direita alteraram a natureza do discurso público, alerta para o ressurgimento de uma retórica que desafia o consenso democrático e sustenta que a linguagem se tornou um campo de batalha fundamental para o conflito político.

A entrevista é de Valeria Montenegro, publicada por Tiempo Argentino, 29-07-2026. A tradução é do Cepat.

Mateo Niro integra o comitê executivo do 7º Congresso Latino-Americano de Glotopolítica – evento realizado em Buenos Aires de 29 de julho a 1º de agosto – e é também uma figura de destaque na Argentina nas áreas da glotopolítica e da sociolinguística. Como professor e pesquisador, ele defende que a linguagem nunca é neutra e que as mudanças na forma como falamos refletem transformações políticas, sociais e culturais.

Em entrevista a Tiempo Argentino, o pesquisador reflete sobre as novas discursividades políticas, a polarização, as redes sociais e os desafios impostos pela inteligência artificial e pelas migrações.

Eis a entrevista.

O que é a glotopolítica e por que ela é tão relevante hoje?

As pessoas costumam pensar que a glotopolítica estuda apenas o discurso dos líderes políticos, mas, na realidade, seu escopo é muito mais amplo. Ela analisa como processos políticos, econômicos, sociais, culturais e tecnológicos impactam a linguagem, e como diversas instituições – o Estado, os meios de comunicação, as escolas e as plataformas digitais – intervêm nas práticas linguísticas, regulando-as e moldando sentidos. O que a glotopolítica estuda é justamente essa relação entre linguagem e sociedade.

O congresso ocorre em um contexto muito particular para a Argentina e a região. Esse cenário também perpassa as discussões acadêmicas?

Sem dúvida. Todo congresso científico dialoga com o momento histórico em que se realiza. Este se realiza na Argentina em 2026, mas reúne pesquisadores de vários países da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos. Isso permite o compartilhamento de questões comuns e a análise de processos que vão muito além da conjuntura nacional.

Que ferramentas a glotopolítica oferece para compreender o discurso do governo de Javier Milei?

Processos sociais nunca podem ser reduzidos a um único governo; no entanto, é evidente que, nos últimos anos, surgiram formas discursivas que modificaram profundamente a esfera pública. Quero dizer que estamos vendo modos de intervenção que antes não associávamos à representação institucional – insultos, ataques pessoais e formas de violência verbal que agora ocupam um lugar central. Ao mesmo tempo, consensos sociais que antes pareciam firmemente estabelecidos – como aqueles relativos aos direitos humanos, direitos civis ou direitos sexuais – estão sendo novamente questionados. A ascensão de novos movimentos de direita em vários países da região e nos Estados Unidos reflete transformações sociais mais amplas que também impactam a linguagem e a comunicação política.

A glotopolítica utiliza ferramentas da linguística e da sociolinguística para analisar esses processos, mas também opera a partir de uma perspectiva crítica. Nós, que pesquisamos esses fenômenos, não buscamos apenas compreendê-los; assumimos uma posição em relação a eles, pois acreditamos que a análise científica não pode permanecer indiferente quando certos discursos desafiam direitos ou promovem formas de exclusão. Temos uma certa ideia do político – como ele se comporta, como interage com a sociedade, como se expressa e quais valores transmite – e parece que, nos últimos anos, temos testemunhado um tipo diferente de fenômeno, não é?

Como você interpreta essa transformação?

Historicamente, o discurso político estava associado a um certo estilo retórico. Havia uma tradição de elaborar discursos públicos voltados à persuasão e à representação institucional. Atualmente, estão surgindo outras competências discursivas. Há uma construção – como diria a teoria – de um ethos da autenticidade muito forte. Consolidou-se a ideia de que uma pessoa fala da mesma maneira em qualquer ambiente porque, supostamente, está sendo “genuína”.

Mas todos nós desempenhamos diferentes papéis sociais. Não falo com meus amigos da mesma forma que falo ao dar aulas na universidade. Cada espaço tem regras, responsabilidades e registros diferentes. Essa diferenciação também faz parte da vida democrática. Um dos temas centrais da conferência será justamente analisar como essas transformações são amplificadas pela forma como as plataformas digitais operam, onde a circulação do discurso segue lógicas muito diferentes das tradicionais.

Nas últimas semanas, houve um debate intenso nas redes sociais sobre a chamada campanha “anti-Argentina”. Como você vê esses fenômenos?

Não acompanhei de perto esse episódio específico, por isso prefiro ser cauteloso. No entanto, acredito que muitas dessas controvérsias operam dentro do próprio ecossistema das redes sociais. São fenômenos que se retroalimentam, pois geram interação, audiência e visibilidade. Isso não significa que não sejam reais, mas que seu impacto muitas vezes fica restrito a essas plataformas.

Ainda assim, você observa que as redes sociais consolidaram uma lógica política baseada na confrontação permanente.

Sim, porque a lógica do “amigo versus inimigo” acaba sendo exacerbada. Durante décadas, nossas democracias construíram consensos básicos. Hoje, muitos desses consensos estão sendo novamente questionados. Nas redes sociais – especialmente no X –, a discordância permanente não é apenas um subproduto do funcionamento da plataforma; é o seu combustível.

Qual é a responsabilidade dos meios de comunicação e do jornalismo em relação à circulação desses discursos – ou das próprias discussões – que estigmatizam grupos específicos? Pergunto isso porque, além das redes sociais, também circularam vídeos mostrando argentinos sendo agredidos e acusados de racismo em outros países.

Essa é, de fato, uma área de enorme responsabilidade. Para além de qualquer controvérsia específica, existem discursos públicos que estigmatizam migrantes, minorias e diversos grupos sociais. Esses discursos circulam por meio de certos veículos de comunicação, figuras políticas e indivíduos com grande capacidade de amplificar mensagens. Tais fenômenos merecem uma análise crítica, pois têm efeitos concretos na vida social. Há décadas, a sociolinguística estuda as relações entre linguagem, discriminação, migrações e construção da identidade. A novidade é a velocidade com que essas ideias circulam e são amplificadas atualmente.

O que uma conferência internacional pode contribuir nesse contexto?

O aspecto mais valioso é o intercâmbio. Estamos reunindo cerca de 400 pesquisadores de diversas origens. O objetivo é comparar perspectivas, compartilhar avanços teóricos e construir conhecimento coletivo sobre fenômenos que afetam todas as nossas sociedades.

Quais são os principais desafios que a glotopolítica enfrenta hoje?

Há vários, mas eu destacaria três. O primeiro é compreender criticamente as novas configurações políticas que emergem em diferentes partes do mundo. O segundo diz respeito à migração e à maneira como os discursos constroem a inclusão ou a exclusão. E o terceiro é o impacto da inteligência artificial generativa, que já está alterando profundamente a produção e a circulação da linguagem.

Esses desafios têm implicações para o futuro das democracias. A inteligência artificial, a circulação de dados, a migração, as novas formas de comunicação política e o discurso de ódio estão remodelando a forma como concebemos a cidadania, os direitos e a convivência democrática. Compreender esses processos é uma tarefa urgente – assim como intervir neles de forma crítica.

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