América Latina. Uma mulher é assassinada a cada duas horas. E a direita responde com populismo punitivo

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18 Julho 2026

Nos últimos cinco anos, a América Latina registrou mais de 19.000 feminicídios. Honduras e Guatemala estão entre os países mais afetados, enquanto mais de 90% das mortes violentas ficam impunes. Organizações feministas denunciam a ineficácia de penas mais severas e exigem prevenção, investigações eficazes e políticas abrangentes contra a violência de gênero.

A reportagem é de Giorgio Trucchi, publicada pela revista Pagine Esteri e reproduzida por Nueva Lista Informativa Nicaragua y Más, 14-07-2026. A tradução é do Cepat.

O Observatório da Igualdade de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas registrou 19.254 feminicídios nos últimos cinco anos, ou seja, 11 mortes violentas de mulheres por motivos de gênero todos os dias, uma a cada duas horas.

Em 2024, 14 dos 25 países com as maiores taxas relativas de feminicídio no mundo estavam localizados na América Latina e no Caribe (ONU Mulheres e CEPAL), liderados por Honduras, com 4,7 vítimas por 100.000 mulheres, seguidos pela Guatemala (1,9) e pela República Dominicana (1,7). Este número não leva em consideração a enorme subnotificação de dados, principalmente devido ao medo ou à incapacidade de denunciar os crimes e, muitas vezes, à falta de confiança nas forças policiais e no sistema judiciário, que é percebido como indiferente, arrogante ou até mesmo conivente com os agressores.

Esses números superam em muito a média regional, que varia de 1 a 1,3 caso por 100.000 mulheres. Brasil e México lideraram a lista de países com o maior número absoluto de feminicídios, com 1.568 e 768 homicídios, respectivamente (2025). Quarenta e dois por cento dos ataques fatais são cometidos por um parceiro atual ou anterior, e o ambiente doméstico é a principal fonte de risco, particularmente para as mulheres entre 21 e 30 anos (22% dos feminicídios).

Em 2025, em Honduras, o observatório do Centro de Direitos das Mulheres (CDM) registrou 936 ataques contra mulheres e meninas, incluindo 412 crimes sexuais e 262 feminicídios. Isso significa que, em Honduras, uma mulher ou menina é assassinada a cada 33 horas. Quarenta e seis por cento das vítimas têm entre 11 e 39 anos, representando um aumento de 49% em comparação com o ano anterior.

A maioria dos agressores fazia parte do círculo mais próximo das vítimas. Pela primeira vez, os crimes sexuais (44%) ultrapassaram os crimes contra a vida (31%), afetando principalmente meninas e mulheres jovens (297). Os relatos de violência doméstica totalizaram 41.895 e os de violência familiar chegaram a 48.642.

Nos primeiros seis meses de 2026, a situação permaneceu inalterada. O Observatório registrou 126 mortes violentas de mulheres, uma a cada 34 horas. Em maio, oito mulheres foram assassinadas em apenas quatro dias, quatro delas menores de idade. Diante da gravidade da situação e da significativa subnotificação dos casos, o Centro de Direitos das Mulheres (CDM) e cerca de 20 organizações, coletivos e plataformas feministas e de mulheres se posicionaram, exigindo uma abordagem abrangente para a violência contra as mulheres.

“Esses números não são estatísticas abstratas; representam vidas perdidas, famílias destruídas e filhos e filhas crescendo sem suas mães. Cada estatística representa um nome, uma história e uma comunidade que lamenta sua ausência. Diante dessa realidade, nenhuma organização comprometida com os direitos das mulheres pode permanecer em silêncio”, alertam em uma declaração conjunta.

Em 2013, após uma longa luta, o movimento feminista hondurenho alcançou uma vitória histórica: a tipificação do crime de feminicídio. Apesar disso, como acabamos de ver, a situação de emergência não diminuiu, e os números revelam um cenário extremamente preocupante.

O novo Congresso, controlado pelas forças ultraconservadoras do tradicional sistema bipartidário em decorrência das “eleições fraudulentas” fortemente influenciadas pela interferência dos EUA e por alegações de fraude, aprovou uma reforma que aumenta as penas para feminicídio (de 25 para 30 anos) e para feminicídio qualificado (entre 40 e 60 anos) e cria órgãos judiciais especializados.

Para as organizações que lutam pelos direitos das mulheres, essa medida não só é insuficiente, como representa um paliativo frágil, uma espécie de “populismo punitivo” que se espalha em paralelo com o avanço da direita no continente latino-americano.

“Aumentar as penas é inútil se não forem promovidas políticas de prevenção, ou se a impunidade que afeta mais de 90% das mortes violentas de mulheres não for seriamente combatida”, explicou Erika García, coordenadora do programa de justiça feminista e litígio estratégico do Centro de Direitos das Mulheres, à revista Pagine Esteri. Isso coloca em evidência o sistema judiciário e a falta de uma abordagem abrangente para a tragédia da violência de gênero.

Além disso, continuou García, organizações denunciam a falta de reforço do processo de investigação, a relutância sistemática de quem administra a justiça em aplicar o crime de feminicídio, bem como a cumplicidade das forças de segurança, compostas majoritariamente por homens.

Após as eleições de 2021, vencidas por Xiomara Castro e pelo Partido Liberdade e Refundação (Libre), diversas organizações promoveram uma proposta de lei especial abrangente contra a violência contra a mulher. A então maioria na oposição bipartidária, com o apoio de grupos religiosos fundamentalistas e do aparato midiático controlado por poderosos interesses econômicos e políticos, opôs-se veementemente à sua apresentação em plenário, e o projeto de lei foi arquivado. A recente reforma, portanto, permanece mais uma manobra midiática improvisada do que uma resposta abrangente e holística ao problema.

“Desde que assumiram o poder, as novas autoridades têm erguido a bandeira do movimento pró-vida tanto na câmara parlamentar quanto nos diversos ministérios. Além disso – continua a advogada do Centro de Direitos das Mulheres – nunca quiseram ouvir as opiniões das organizações que estão na linha de frente apoiando as mulheres há anos e que conhecem muito bem a dinâmica que permite que a violência seja reproduzida e reforçada. Há inúmeros exemplos da inconsistência deste governo”.

Há também fortes críticas ao duplo padrão da maioria parlamentar que, por um lado, alega querer defender a vida das mulheres, mas, por outro, aprova leis que as colocam em grave risco. “Eles aprovaram leis que protegem as atividades do agronegócio, criminalizam a defesa da terra e dos recursos comuns, desapropriam comunidades de suas terras, reativam o trabalho a tempo parcial, precarizando ainda mais o mercado de trabalho e desmantelando direitos. As mulheres são as principais vítimas dessas leis”, alerta García.

“A tendência ao fundamentalismo religioso e seu impacto nos direitos das mulheres é uma constante global que caminha lado a lado com a radicalização à direita dos governos na região, tornando-se um de seus instrumentos preferidos”, conclui a advogada do CDM.

A situação das mulheres na Guatemala também é muito grave. O país ocupa o segundo lugar entre os que apresentam a maior taxa relativa de feminicídios. Em 2025, foram registradas 595 mortes violentas, representando um aumento de 6% em comparação com o ano anterior, das quais 206 foram feminicídios (+14,4%). As denúncias de violência de gênero chegaram a 17 por dia, com uma taxa de 402,2 denúncias por 100 mil mulheres (Procuradoria-Geral da República). Apesar disso, apenas 9% das vítimas de violência denunciam o abuso. Essa subnotificação afeta particularmente as comunidades indígenas, que representam 46,3% da população total da Guatemala (Revista Puentes de Diálogos).

Em relação à violência sexual, a Procuradoria-Geral da República registrou 9.649 denúncias, das quais 60% (5.834 vítimas) corresponderam a estupro e 29% (2.839 vítimas) a agressão sexual. A maioria das vítimas são meninas e mulheres jovens (65,9%). A violência também leva a um aumento exponencial da gravidez na adolescência e na infância, com 2.101 nascimentos de mães entre 10 e 14 anos em 2024, representando um aumento de 8% em comparação com o ano anterior (Observatório de Saúde Sexual e Reprodutiva).

Apesar de, em 2008, organizações feministas e de mulheres terem conquistado a aprovação de regulamentações especiais contra o feminicídio e outras formas de violência contra a mulher (Decreto 22-2008), com penas que variam de 25 a 50 anos, e para a busca imediata de mulheres desaparecidas (Decreto 9-2016), a Guatemala continua sendo um dos países do mundo onde mais mulheres são assassinadas e desaparecem. Estima-se que pelo menos 13.800 mulheres tenham desaparecido nos últimos sete anos, ou seja, quase cinco por dia.

“Precisamos retornar à história da Guatemala, um Estado com características coloniais que sempre representou os interesses de oligarquias nacionais e do capital multinacional, excluindo sistematicamente os povos indígenas e as mulheres. Um Estado que, além disso, esconde essa realidade por trás de uma falsa narrativa de defesa dos direitos humanos”, explicou Virginia Gálvez, integrante do coletivo feminista Actoras de Cambio (Agentes de Mudança), à revista Pagine Esteri.

Os 36 anos de conflito armado interno e repressão feroz, com mais de 200 mil vítimas e pelo menos 45 mil desaparecidos, juntamente com a influência direta dos Estados Unidos nas políticas de contrainsurgência, utilizaram a militarização e o controle masculino dos territórios, bem como a violência sexual, como armas contra as comunidades, contra as mulheres maias e contra as mulheres organizadas.

“Foi uma verdadeira institucionalização da violência sexual, que permaneceu quase totalmente impune e foi reforçada ao longo dos anos. Estamos, portanto, diante de uma genuína desumanização das mulheres, especialmente das mulheres indígenas, cujos corpos se tornam uma extensão do território a ser controlado e invadido, ou um objeto a ser explorado sexualmente”, destaca Gálvez.

Diversas organizações feministas e de mulheres apontam para práticas de apoio às sobreviventes, ao litígio estratégico e à luta contra a impunidade, às práticas ancestrais e comunitárias de cura e à conscientização política como os principais elementos de uma estratégia abrangente para enfrentar o flagelo do feminicídio e da violência de gênero.

Para a ativista, é fundamental fazer com que o Estado assuma suas responsabilidades, denunciando sua hipocrisia, legitimando o trabalho das organizações, criando mecanismos de resposta e reparação, de cura e recuperação para as mulheres, e gerando condições sociais que impeçam a repetição dessas situações.

“Existem condições estruturais que precisam ser mudadas, mas também precisamos avançar na luta contra a impunidade, denunciando a falsa proteção oferecida pelo Estado, rompendo o silêncio e reivindicando nossas vozes, nossos corpos e nossa história”, conclui.

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