Proteger os migrantes também é uma forma de defender a vida. Entrevista com Mark J. Seitz, Arcebispo de El Paso, EUA

Foto: Diego Lozano/ Unsplash

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14 Julho 2026

Um chapéu branco ao estilo texano na cabeça e um rosário de madeira nas mãos. Caminha em procissão à frente de um estandarte com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe sobreposta à bandeira tricolor mexicana.

Em 26 de junho passado, o Arcebispo de El Paso, Mark J. Seitz — acompanhado por outros seis prelados e centenas de fiéis de dioceses fronteiriças entre os Estados Unidos e o México — liderou uma procissão de Nogales, no Arizona, até a fronteira com a outra Nogales, no estado mexicano de Sonora, do outro lado do muro.

Antes do momento de oração, os bispos celebraram a "Missa da Fronteira 250", uma liturgia que homenageia a contribuição fundamental dos imigrantes, por ocasião do 250º aniversário da Declaração de Independência dos EUA. Em sua mensagem histórica para as celebrações de 4 de julho — que marcam a fundação dos Estados Unidos —, Leão XIV ressaltou que "a dignidade de cada vida" deve ser considerada um dos "princípios que nortearam o desenvolvimento" da nação. Defender essa dignidade, observou ele, "significa também acolher, proteger e apoiar" os migrantes, "cujas esperanças, sacrifícios e contribuições fazem parte da história" dos EUA desde o início.

"Vivemos mais um momento na vida de nossa nação em que existe o perigo de negar algo que é fundamental para a inspiração que fundou este país", afirma ao Avvenire o bispo, empenhado com sua comunidade diocesana no cuidado pastoral daqueles que tentam atravessar a fronteira vindo do México. "Por isso, sou profundamente grato ao Papa por nos lembrar, de forma tão clara, que o respeito pela vida humana — da concepção à morte natural — também abrange a proteção das pessoas que chegam de outros lugares." Em El Paso, há dois centros federais de detenção de migrantes que despertam polêmicas devido às condições desumanas dos detidos.

A entrevista é de Agnese Palmucci, publicada por Avvenire, 09-07-2026 a tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Em 4 de julho, o primeiro Papa nascido nos EUA escolheu estar em Lampedusa, uma terra de acolhimento. Que tipo de sinal isso representou, na sua opinião?

Não acredito que ele estivesse necessariamente enviando uma mensagem apenas por estar naquele lugar. Ele sempre defendeu com firmeza a importância de tratar os migrantes com a dignidade que cabe aos seres humanos. No entanto, em sua mensagem aos Estados Unidos, o Pontífice ressalta o papel fundamental que os imigrantes desempenharam na formação do país. E, sob certos aspectos, é algo singular que tenha sido formado por uma diversidade tão ampla de povos vindos de todo o mundo. Na Declaração de Independência, reconhecemos certos direitos inalienáveis concedidos por Deus — direitos inerentes à pessoa humana e que, portanto, não são outorgados pela generosidade de qualquer governo. Uma nação tem o direito de examinar aqueles que entram em seu território para determinar se representam ou não uma ameaça, mas isso não nos isenta da responsabilidade de respeitar a todos e tratá-los de acordo com sua dignidade.

Nesse mesmo texto, o Papa pede um renovado empenho pela igualdade, pela liberdade, pela justiça e pela democracia — justamente em um momento em que os Estados Unidos estão envolvidos em guerras. O que o senhor acredita que ele esteja pedindo hoje à Igreja estadunidense?

Acredito que o Papa esteja nos pedindo para ajudar o país a não esquecer seus princípios fundamentais, mesmo quando está enfrentando desafios tão complexos. Não podemos resolver os problemas colocando de lado os valores da dignidade, da justiça e dos direitos. Pois, no final das contas, estaríamos apenas prejudicando o próprio alicerce de nossa história. Neste momento, enfrentamos um imenso problema em relação ao princípio do 'justo processo'. O governo parece tão ansioso em afastar pessoas que não têm a cidadania que, às vezes, quase ficamos dispostos a dizer: 'Tudo bem, vamos suspender esses direitos a fim de livrar nosso país das pessoas que chegaram nos últimos anos'. E essa é uma perspectiva muito perigosa.

Que tipo de Estados Unidos o Papa Leão imagina?

Acredito sinceramente que Leão XIV esteja constantemente nos relembrando os nossos princípios fundadores. E é por isso que sua carta de 4 de julho foi tão importante — embora o que ele explicitou no texto faça parte do próprio magistério de seu pontificado. Em seus melhores momentos, os Estados Unidos têm sido um farol para o resto do mundo, convocando-nos a algo mais elevado e ajudando-nos a compreender que a vida vai muito além de tramar manobras em busca de vantagens ou de poder político e econômico. Uma nação saudável coloca esses princípios acima de qualquer outro objetivo ou empenho. E também reconhece que a própria unidade nacional se fundamenta sobre esses princípios de igualdade. Pois somos mais fortes quando fazemos jus à nossa vocação mais elevada. O Papa também reconhece que a fé dos povos os ajuda a olhar além do momento presente e a viver em prol de algo mais elevado.

Enquanto isso, as operações do ICE continuam, e os centros de detenção em El Paso, em sua diocese, ficam cada vez mais lotados. Qual é a situação atual e como as comunidades católicas estão respondendo para apoiar os migrantes, em consonância com o apelo feito pelo Papa Leão XIV?

No momento, o governo dos EUA optou por uma abordagem menos ostensiva e conflituosa em relação à detenção de imigrantes. Não estão enviando grandes contingentes de agentes de imigração nos espaços públicos para realizar batidas nas ruas como faziam antes; o número de operações de grande repercussão está diminuindo. Optaram por atuar de forma menos visível — e, consequentemente, com menos repercussão nos meios de comunicação. Recentemente, também enfrentaram um revés, pois estavam prendendo e tentando deportar praticamente qualquer pessoa que comparecesse ao tribunal de imigração, mas os juízes decidiram que isso não é permitido. Continuamos profundamente preocupados com a separação das famílias e com as muitas pessoas que assistimos e que vivem com medo. Isso não está mudando; pelo contrário, estão fazendo todo o possível para tornar cada vez mais difícil a permanência dos imigrantes no país.

Em que pontos vocês, como diocese, estão tentando intervir? Quais são os maiores desafios?

As taxas para dar andamento aos pedidos de asilo, por exemplo, aumentaram significativamente. Muitos imigrantes não têm condições de arcar com os custos desse procedimento. Há tempo a nossa diocese oferece um serviço de assistência jurídica para os migrantes por meio da histórica organização 'Estrella del Paso', que agora poderia ser forçada a fechar as portas. Um de seus principais serviços — financiado por fundos estatais — consistia na orientação, durante o processo legal, dos menores desacompanhados que haviam chegado aos EUA. Havia sido garantido aos tribunais que o governo não poderia encerrar esses programas; no entanto, a administração está atualmente com um atraso de 700 mil dólares nos pagamentos de serviços já prestados a esses jovens migrantes. Uma organização sem fins lucrativos não tem um milhão de dólares no banco para cobrir esses custos. É uma situação realmente difícil.

Que significado teve a iniciativa "Missa da Fronteira 250" para vocês, bispos das dioceses de fronteira?

Procuramos continuar chamando a atenção — em diversos momentos — para a preocupação constante da Igreja com a forma como as pessoas são tratadas na fronteira. Acredito que muitas pessoas em nosso país se preocupam com a situação dos imigrantes; no entanto, às vezes, a questão acaba ficando em segundo plano na consciência pública. Além disso, a situação parece cada vez mais complexa. O governo detém tamanho poder e está atacando os direitos dos imigrantes em tantas frentes que as pessoas, muitas vezes, sentem-se impotentes para reagir. É por isso que um testemunho público como o de 26 de junho transmite uma mensagem: é nisso que ainda acreditamos; esses são os Estados Unidos, e a Igreja continua a defender esses princípios. Não temos medo e continuaremos a expressá-los e a tentar mostrar que nem todos neste país concordam com tais operações.

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