11 Julho 2026
"A imigração também continua a ser um ponto de divergência entre Leão e o governo Trump. Em 30 de junho, o vice-presidente J.D. Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, definiu como "preocupantes" as críticas do Vaticano que denunciavam o tratamento "inumano" dispensado aos migrantes nos Estados Unidos."
O editorial é publicado por Le Monde, 07-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o editorial.
Primeiro papa dos Estados Unidos, Leão XIV havia sido convidado a Washington para participar das comemorações do 250º aniversário do país, em 4 de julho. Ele fez uma escolha diferente, viajando, em vez disso, para a ilha italiana de Lampedusa, que se tornou o símbolo de uma crise migratória que continua a se agravar.
Em sua mensagem de felicitações ao povo estadunidense, havia um ponto alinhado com sua viagem a Lampedusa. "A cada geração", escreveu ele, "aqueles que vieram [aos EUA] em busca de liberdade, oportunidades e um lugar para chamar de lar contribuíram para forjar o caráter da nação estadunidense".
Durante uma visita às Ilhas Canárias (Espanha) em junho, Leão XIV já havia se dirigido à Europa, afirmando que ela "não pode proclamar a dignidade humana enquanto, simultaneamente, se acostuma ao fato de que o Mediterrâneo e o Atlântico tenham se tornado cemitérios sem lápides" para os migrantes que enfrentam travessias extremamente perigosas. No entanto, ao visitar Lampedusa, seguindo os passos de seu predecessor, Francisco, que realizou sua primeira viagem pontifícia ao local em 2013 para denunciar a "globalização da indiferença", o Papa pôde dar-se conta de sua solidão.
De fato, em todo o mundo, a mensagem da Igreja Católica sobre a necessidade de estender a mão a "todos aqueles forçados a se deslocar devido à pobreza, às mudanças climáticas ou aos desastres ambientais", nas palavras da encíclica Magnifica humanitas, choca-se com um endurecimento sem precedentes das políticas públicas e com a radicalização da opinião. A campanha para a eleição presidencial francesa de 2027 provavelmente vai demonstrar isso, inclusive entre aqueles que professam sua fé cristã. Isso já é demonstrado, por exemplo, pelo abandono, por parte da União Europeia, de seus próprios princípios, com a decisão de junho de criar centros fora de suas fronteiras para enviar as pessoas em situação irregular, apesar dos resultados desastrosos de experiências anteriores. Pode se somar a isso a violenta perseguição a migrantes sem documentos na África do Sul e a instrumentalização política da teoria da "grande substituição" na Tunísia.
A imigração também continua a ser um ponto de divergência entre Leão e o governo Trump. Em 30 de junho, o vice-presidente J.D. Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, definiu como "preocupantes" as críticas do Vaticano que denunciavam o tratamento "inumano" dispensado aos migrantes nos Estados Unidos.
Ainda assim, o Papa se esforça para encontrar um ponto de equilíbrio. Em sua encíclica, convida tanto a "salvaguardar o direito à esperança de quem é obrigado a partir, garantindo vias seguras e legais, condições de acolhimento dignas e percursos concretos de integração", quanto para "promover igualmente o direito de permanecer em paz e segurança na própria terra". Esse direito remete a um ponto fraco dos discursos sobre a imigração, uma vez que implica combater "as causas profundas que forçam à migração, incluindo as relacionadas com as injustiças econômicas e a crise climática". Isso nunca é discutido nos debates demagógicos, que prometem fazer os migrantes desaparecerem como num passe de mágica, e muito menos em um momento de cortes drásticos na ajuda internacional, aos quais os Estados Unidos contribuíram significativamente desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
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