03 Julho 2026
O Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE) dos Estados Unidos deteve mais de 10 mil pessoas na última semana, um aumento que praticamente duplica o ritmo de prisões registrado no início do ano, como parte de uma estratégia impulsionada pela administração de Donald Trump para intensificar a aplicação das leis migratórias, informou o New York Times.
A informação é publicada por Página|12, 03-07-2026.
Segundo o diário americano, que cita documentos internos e entrevistas com funcionários federais, a direção do ICE ordenou recentemente a seus responsáveis regionais redobrar os esforços para localizar e deter imigrantes passíveis de deportação. As detenções têm sido realizadas durante controles migratórios, inspeções de trânsito e operações na via pública.
O número de prisões passou de cerca de 1 mil diárias no início do ano para cerca de 2 mil por dia, uma meta que, segundo três funcionários citados pelo diário, foi comunicada aos agentes por solicitação da Casa Branca. Um deles advertiu, no entanto, que não está claro por quanto tempo esse nível de atividade poderá ser mantido. A diferença em relação a operativos anteriores amplamente anunciados em cidades como Chicago ou Los Angeles é que o recente incremento das detenções desenvolveu-se com um perfil mais baixo, sem grandes desdobramentos públicos, depois que a administração modificou sua estratégia após as críticas geradas por operações de alto impacto nos meses anteriores.
O aumento das detenções ocorre enquanto Trump insiste em acelerar sua política de deportações em massa, uma das principais promessas de seu segundo mandato. A ofensiva migratória coincide ainda com recentes decisões da Suprema Corte que ampliaram a margem de ação do Executivo em matéria migratória.
A deportação de haitianos
A ONG Human Rights Watch (HRW) alertou em um relatório que a deportação de haitianos decorrente do fallo da Suprema Corte contra o Status de Proteção Temporária (TPS) será uma "sentença de morte" e prejudicará a economia, especialmente a da Flórida, onde os haitianos contribuem com 2,6 bilhões de dólares anuais.
O relatório, baseado em entrevistas com 40 haitianos com TPS em Miami e 15 representantes de organizações comunitárias, encontrou um temor generalizado às deportações para o país caribenho, onde houve mais de 8.200 assassinatos de janeiro de 2025 a março de 2026, e grupos criminosos controlam 90% da capital, Porto Príncipe. "Perder o TPS seria como uma sentença de morte. Se me deportarem ao Haiti, as pessoas vão pensar que tenho dinheiro porque morei no exterior. Tentarão me extorquir ou me sequestrar. E como não tenho dinheiro nem poupanças para pagar, me assassinarão", expressou um haitiano de 28 anos na investigação.
A HRW atribuiu à decisão da Suprema Corte — que permitiu à administração de Trump revogar o TPS que protegia da deportação cerca de 350 mil haitianos — o fato de deixar essas pessoas em perigo de retornar a um "país mergulhado na violência e em uma crise humanitária". Embora o governo Trump tenha argumentado que as condições no país caribenho melhoraram, o relatório citou que há 1,5 milhões de deslocados internos no Haiti, metade menores de idade, e 5,83 milhões, 52% da população, em insegurança alimentar aguda, o nível mais alto já registrado.
"Sem as proteções do TPS, os haitianos correm o risco de ser enviados de volta a uma das crises de direitos humanos mais devastadoras do mundo", comentou Juanita Goebertus, diretora para as Américas da HRW. Goebertus instou o Congresso a agir com rapidez para preservar as proteções do TPS para os haitianos. A investigação alertou ainda sobre impactos particulares na Flórida, onde habitam metade dos haitianos com TPS, cerca de 158 mil, que trabalham nos setores de saúde, cuidado de idosos, construção, turismo e hotelaria.
Freio no Arizona
Enquanto isso, o estado do Arizona chegou a um acordo judicial com o Departamento de Segurança Nacional (DHS) que freia a abertura de um centro de detenções em um armazém na cidade de Surprise até que se faça um estudo de impacto ambiental. A fiscal do Estado do Arizona, Kris Mayers, anunciou o acordo que por ora freia a adequação do local e a prisão de qualquer imigrante no centro, que tem capacidade para 1.500 leitos. Este acordo responde a uma demanda feita pelo escritório de Mayers contra o DHS em abril passado, questionando o impacto na comunidade que a abertura teria.
O governo federal adquiriu um gigantesco armazém na cidade de Surprise para convertê-lo em um novo centro de reclusão, um projeto com um custo inicial de 70 milhões de dólares e gastos operativos estimados em cerca de 180 milhões de dólares anuais. A notícia causou grande descontentamento entre membros da comunidade, políticos e defensores dos migrantes, que criticaram a abertura deste centro próximo a uma escola secundária e bairros predominantemente hispânicos. "Este acordo é uma grande vitória para a comunidade de Surprise, as agências federais devem seguir a lei e realizar os estudos de impacto ambiental relacionados a este tipo de projeto", disse Mayers em um comunicado. A compra de depósitos em vários estados e sua transformação em centros de detenção faz parte do endurecimento da política migratória da administração Trump.
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