14 Julho 2026
"O Evangelho nos entregou uma imagem diferente do poder. Na noite em que tudo poderia tê-lo levado a se defender, Cristo não colocou uma arma nas mãos de seus discípulos. Ele amarrou uma toalha à cintura. Ajoelhou-se diante deles e lavou seus pés cansados. De um lado, uma arma oferecida de pé, entre homens poderosos. Do outro, Deus ajoelhado diante do homem", escreve Domenico Battaglia, cardeal e arcebispo metropolitano de Nápoles, em artigo publicado por Avvenire, 10-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
É a mensagem do triste presente do presidente turco Erdoğan aos poderosos do mundo. Ajoelhemo-nos diante da vida, não diante de uma arma que pode arrancá-la de um homem. Aos poderosos da terra, que a paz esteja convosco! O mal nem sempre chega arrombando uma porta. Às vezes, entra silenciosamente. Veste um terno elegante. Sorri para as câmeras. É colocado em um estojo, acompanhado de um bilhete e oferecido com todas as honras. E, por alguns instantes, ninguém mais reconhece o mal, pois ele aprendeu as boas maneiras. É isso que mais me assombra no gesto realizado em Ancara: não apenas uma arma presenteada aos representantes dos países da OTAN, mas a morte transformada em cortesia. A capacidade de tirar uma vida convertida em souvenir, presente oficial, objeto de exposição.
Domesticamos as armas a ponto de podermos oferecê-las como presentes. Esse é o verdadeiro escândalo. Dizem que se trata de um símbolo. Mas são justamente os símbolos que educam o mundo. Chegam antes das leis, penetram mais profundamente do que os discursos e ensinam silenciosamente o que uma civilização considera normal. E aquele presente ensina que o poder deve ser reconhecido no metal de uma arma. Que um homem importante é um homem armado. Que os governantes podem prestar homenagem uns aos outros entregando, com elegância, a possibilidade da morte. O nome do destinatário foi gravado no cano da arma.
No entanto, toda arma carrega sempre um segundo nome, invisível. É o nome do homem contra quem ela poderia ser disparada. O nome da mulher que poderia ficar sem marido. O nome da criança que poderia esperar em vão pelo retorno do pai. O verdadeiro destinatário de uma arma nunca é apenas a pessoa que a recebe; é o corpo desconhecido que, um dia, poderia encontrar-se diante de sua bala.
É por isso que não consigo considerar esse gesto como uma simples excentricidade diplomática. Ele conta uma específica visão de mundo. Um mundo onde aprendemos a medir a segurança pela contagem de armas, sem questionar quanto medo é preciso semear para mantê-la. Um mundo que chama o terror mútuo de "equilíbrio" e o intervalo antes do primeiro disparo de "paz".
Como cristão, não posso aceitar isso. O Evangelho nos entregou uma imagem diferente do poder. Na noite em que tudo poderia tê-lo levado a se defender, Cristo não colocou uma arma nas mãos de seus discípulos. Ele amarrou uma toalha à cintura. Ajoelhou-se diante deles e lavou seus pés cansados. De um lado, uma arma oferecida de pé, entre homens poderosos. Do outro, Deus ajoelhado diante do homem.
São duas formas de civilidade. É preciso escolher. Nós, cristãos, não somos ingênuos. Conhecemos a violência. Encontramo-la nos bairros abandonados, nas casas onde falta o pão, nos corpos dos migrantes, nos filhos devolvidas às suas mães dentro de caixões. Sabemos que o mal existe. Precisamente por isso, recusamo-nos a torná-lo elegante. Recusamo-nos a adorná-lo, poli-lo ou transformá-lo em símbolo de prestígio. Uma arma não se torna inocente simplesmente por ser dada como presente. Não se torna muda apenas por não ser disparada. Não se humaniza só porque traz um nome gravado nela.
Peço a vocês, portanto, responsáveis pelas nações, para que não guardem esse presente como um troféu. Não se limitem a deixá-lo em uma sala, longe dos olhos, como se esconder um símbolo bastasse para apagar o seu significado. Façam algo mais difícil. Rejeitem a ideia de que a morte possa ser uma forma de homenagem. Declarem publicamente que nenhum pacto entre povos precisa definir-se por meio de uma arma. Digam que a dignidade de uma nação não coincide com a quantidade de medo que ela consegue gerar. Digam que a segurança não é privilégio de quem pode atirar primeiro, mas o direito de todos de não serem atingidos.
E, na próxima cúpula, deixem uma cadeira vazia. Não para um presidente, nem para um general, nem para um ministro. Deixem-na para o homem sem nome que sempre paga o preço pelas decisões de vocês. Para aquele que não participa das cúpulas, não assina tratados e não aparece nas fotografias, mas que acaba sob os escombros quando a diplomacia fracassa. Olhem para aquela cadeira antes de falar em armas. Talvez então vocês possam compreender que a paz não é uma fraqueza a ser corrigida, mas uma responsabilidade diante da qual é preciso ajoelhar-se. Pois o poder que não sabe ajoelhar-se diante da vida acabará sempre por se ajoelhar diante das armas. E, nesse dia — por mais solenes que sejam as cerimônias —, todos nós já teremos sido derrotados.
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