A oração de Jesus: força dos pequenos e esquecidos. Comentário de Ana Casarotti

Foto: Srocca

03 Julho 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 11,25-30 que corresponde ao 14° domingo do Tempo Comum Cristo, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: "Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve".

Neste domingo, Jesus nos convida a mergulhar profundamente em seu coração, em sua relação com o Pai. Três verbos nos abrem o caminho para essa realidade e nos conduzem ao centro do mistério cristão: Jesus louva o Pai, revela o mistério do Seu amor e convida os cansados e exaustos a estarem com ele. São três movimentos que se encadeiam com uma beleza singular e nos levam até Ele.

Jesus não apenas ensina sobre seu Pai, mas dialoga com Ele e O louva porque Ele escondeu “essas coisas” aos sábios e aos entendidos e as revela aos pequeninos.

Vivemos em uma cultura que exalta o conhecimento, a competência e a autossuficiência. Quem não se encaixa nesse sistema é descartado, como disse tantas vezes o Papa Leão: persiste, por vezes bem disfarçada, uma cultura que descarta os outros sem nem sequer se aperceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram à fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano. Alguns anos atrás, a foto de uma criança de bruços, sem vida, numa praia do Mediterrâneo provocou grande choque; infelizmente, à parte de alguma momentânea comoção, acontecimentos semelhantes estão a tornar-se cada vez mais irrelevantes, como se fossem notícias secundárias.

Jesus quebrou a religiosidade da autossuficiência, de um saber que não se coloca à disposição dos outros, mas que se situa acima do outro. Jesus discutiu com os fariseus e os sumos sacerdotes, que se consideravam donos desse saber e, portanto, com o direito de decidir sobre a vida das pessoas. Ele teve problemas com os discípulos quando estes tentavam se colocar em posições de superioridade em relação aos demais; por meio de diversas parábolas, Ele transmitia esse olhar de amor do Pai para com a pessoa pobre, desamparada e desprezada pela sociedade devido à sua condição física e social.

Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.

Jesus é compreensivo com os pequenos porque ele próprio se tornou pobre, como diz Paulo na carta aos Filipenses: “Ele, que, sendo de natureza divina, não se apegou à igualdade com Deus; pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se semelhante aos homens” (Flp 2,6-7). O próprio Jesus redescobriu o imenso amor do Pai por cada pessoa ao estar e sentir-se junto aos mais pobres, aos marginalizados pela cultura religiosa, àqueles que, aparentemente, não serviam ou eram descartados. Ao tornar-se “semelhante aos homens”, ele abriu o caminho para que nós conheçamos verdadeiramente seu Pai. Ele traçou a trilha que pode ser percorrida à sua maneira.

São Paulo refere que entre os fiéis da nascente comunidade cristã não havia "muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres" (1 Cor 1, 26). Entretanto, apesar da própria pobreza, os primeiros cristãos têm a clara consciência da necessidade de acudir àqueles que passam maiores privações.

Ser pequeno não é fazer parecer-se pequeno, e muito menos mostrar-se assim, pois isso abriria as portas para a soberba e o orgulho, levando-nos a acreditar que somos ainda melhores do que os outros. Nos pequenos, o ouvido está atento, a alegria está pronta para se manifestar a cada momento; a dor é sentida, mas o carinho e o consolo a cobrem com a rapidez de um gesto de proximidade. Na vida do simples há espaço, pois sempre há a necessidade do outro; ele é habitado pela sensibilidade do seu entorno, discute pouco e age muito, “tem tempo” para ouvir, desfrutar, estar ao lado de quem sofre… Os simples são os humildes, os modestos, que não têm pretensões e estão abertos a aprender. Isso não é sinônimo de ter pouco conhecimento ou de não ser inteligente; ao contrário, Jesus destaca sua atitude de confiança, a receptividade e a humildade como elementos mais do que fundamentais para acolher a revelação do Pai.

Porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos

Jesus se refere àquele que acredita ter resposta para tudo e não permite que a surpresa e a novidade realmente penetrem profundamente na vida de uma comunidade e de uma pessoa. Deus esconde sua novidade daquele que não precisa dela, que não a busca, daquele que “entende” tudo e, por isso, não busca respostas mesmo diante de situações muito difíceis. São aqueles que confiam tanto em seu conhecimento e em sua sabedoria que se fecham à Boa Nova. Aqueles que, de suas mesas, oferecem respostas “claras e concisas”, mas não permitem que nada os desestabilize; oferecem soluções para calamidades como as que a Venezuela está sofrendo neste momento, mas sem se comover com o desânimo, a dor e a angústia. Suas ideologias ou raciocínios ocupam um lugar tão prioritário e central que não lhes permitem acolher a revelação de Deus, pois a cegueira nega a incompreensão, a pergunta, o diálogo com um Deus que, mesmo estando presente, lhes traz consolo. Eles acreditam saber tudo e não estão dispostos a aprender.

...ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Este conhecimento de que Jesus fala não é informação senão que é comunhão. Conhecer o Pai, no sentido bíblico, é estar em relação íntima com Ele, é participar da Sua vida. Esse conhecimento não se conquista, se recebe. Jesus apresenta-se como o único caminho de acesso ao Pai porque Ele O conhece. É um presente que os pequeninos podem receber! Os "pequeninos" não são os ignorantes, mas aqueles que reconhecem a própria limitação e se deixam surpreender pela graça. A sabedoria do mundo fecha os olhos; a simplicidade do coração os abre.

Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve".

Quem são os cansados e fatigados sob o peso dos fardos? Não são os virtuosos, possivelmente os entendidos, ou os virtuosos, os que já tem uma vida arrumada, mas chama os cansados, aqueles que carregam o peso de suas dificuldades, da dor da incompreensão, das decepções que ninguém pode explicar, das exigências que o mundo impõe. O descanso que Jesus promete não é ausência de esforço; é paz interior, reconciliação com Deus e consigo mesmo, aquela serenidade profunda que o mundo não pode dar nem tirar.

O jugo de Cristo não oprime, mas liberta. Ele não nos chama a carregar um fardo de normas e obrigações que esmagam, mas a caminhar ao lado d’Ele, que é mansidão e humildade. Seguir Jesus é entrar em uma relação viva, onde o amor se torna lei e a graça se faz caminho.

Ao olharmos para nossos irmãos e irmãs venezuelanos, vemos um testemunho que nos interpela. Em meio à dor e à perda, eles não se rendem à morte, mas insistem em buscar a vida. Sua fé é como uma chama que resiste ao vento, iluminando entre as cinzas da destruição. Cada vida resgatada é para eles revelação do Pai, e cada gesto de esperança se transforma em louvor. Mesmo sem os recursos necessários, continuam a rezar, a escutar e a procurar sinais de vida. Sua perseverança nos ensina que a verdadeira fortaleza não está em possuir muito, mas em não deixar que a adversidade roube a esperança.

Unidos ao Papa, elevamos nossa oração neste mês de julho: que o Senhor sustente aqueles que, mesmo na escuridão, continuam a proclamar que a vida é mais forte que a morte. Que também nós aprendamos deles a confiar, a esperar e a louvar, mesmo quando tudo parece perdido.

Senhor da vida,
Tu criaste-nos por amor
e chamaste-nos a viver em plenitude.
Cada pessoa é um dom sagrado que reflete o teu rosto,
desde o primeiro instante da sua existência
até ao último suspiro do seu caminho na terra.

Hoje pedimos-te a graça de reconhecer e cuidar
do valor único e irrepetível de cada ser humano.
Ensina-nos a acolher a vida sem condições,
a cuidar a fragilidade com ternura,
a acompanhar cada etapa com respeito
e a defender com coragem quem não tem voz.

Perdoa-nos, Senhor,
quando caímos na indiferença
ou na cultura do descarte,
quando deixamos de ver no outro
um ser digno de amor.
Dá-nos um coração novo,
capaz de escolher sempre a vida,
e mãos generosas que a protejam
com gestos concretos.

Faz da tua Igreja um testemunho vivo
do Evangelho da vida,
uma casa aberta onde toda a existência
seja celebrada, onde ninguém se sinta a mais
e onde a dignidade seja sempre respeitada
e cuidada.

Senhor Jesus,
que amemos a vida como Tu a amas:
com ternura, fidelidade e entrega total
de nós mesmos.
Que saibamos proclamar, com palavras e gestos,
que cada vida humana vale a doação total.

Amém.

Leia mais