01 Julho 2026
Os autores do novo estudo sequenciaram o genoma de 1,6 milhão de espécimes coletados ao longo de quatro décadas.
A reportagem é de Esther Sánchez, publicada por El País, 30-06-2026.
A questão de quantas espécies de insetos existem permanece em aberto há décadas. Após inúmeras discussões, a comunidade científica aceitou uma estimativa de cerca de seis milhões. Essa estimativa conservadora, da qual apenas cerca de 1,2 milhão foram descritas — identificadas por nome —, continua sendo a referência padrão. Um novo estudo científico contesta essa estimativa e eleva o número para entre 14 e 20 milhões de espécies, mais que o dobro e mais que o triplo do número atualmente aceito. E, alertam os autores, eles também são “conservadores” em suas hipóteses, portanto o número real pode ser ainda maior. A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores se concentraram na Área de Conservação de Guanacaste, uma área protegida de 169.000 hectares localizada no noroeste da Costa Rica. A área possui um dos inventários de biodiversidade mais abrangentes do mundo, compilado ao longo de mais de quatro décadas. Usando essa coleção e uma rede de armadilhas, os pesquisadores sequenciaram o DNA de 1,6 milhão de insetos tropicais, um a um. Esse sistema permitiu identificar 54.000 espécies.
Mas mesmo com esse esforço, nem todas as pontas soltas foram amarradas, porque não importa quantas sejam capturadas, algumas espécies sempre escapam. Para abranger mais terreno e calcular as espécies faltantes, eles introduziram vespas parasitoides do grupo Microgastrinae na pesquisa, um dos grupos mais diversos do planeta. Comparando as espécies de insetos encontradas com aquelas que — usando as Microgastrinae como referência — ainda precisavam ser descobertas, eles concluíram que poderia haver cerca de 333.000 espécies de insetos na Área de Conservação de Guanacaste. Esse número serviu de base para extrapolar a estimativa para o resto do planeta, chegando a um número entre 14 e 20 milhões de espécies.
As armadilhas usadas para coletar insetos em Guanacaste e arredores foram distribuídas por diferentes ecossistemas. “Instalamos as armadilhas ao nível do mar, em floresta tropical seca, floresta nublada de média altitude e floresta tropical úmida, com o objetivo de obter a maior amostra possível”, explica Melissa Guzmán, professora adjunta de entomologia da Universidade Cornell e uma das autoras do artigo, em entrevista por telefone. Milhares de moscas, pequenas vespas e outros insetos foram capturados nas armadilhas e colocados em frascos com álcool. Em seguida, começou o trabalho de laboratório. Os pesquisadores separaram os insetos e sequenciaram um fragmento de seu DNA para atribuir a eles um código de barras que identifica a espécie — seu documento de identidade único.
Robert K. Colwell, professor da Universidade de Connecticut, entomologista do Museu de História Natural da Universidade do Colorado e coautor do estudo, explica que descrever e nomear todas essas espécies para determinar quantas existem é uma tarefa praticamente impossível. Mesmo que os taxonomistas fossem legião, “os minúsculos insetos são tão hiperdiversos que teriam que descrever centenas de novas espécies todos os dias”, destaca. É por isso que o DNA é usado. Uma vez obtido, o fragmento é comparado com aqueles armazenados em um gigantesco banco de dados no Canadá, que contém milhões de códigos de barras genéticos. Isso determina se o espécime já é conhecido ou se é uma nova descoberta.
O estudo demonstra que um grande número de espécies permanece oculto quando se utiliza apenas um método de amostragem, segundo comunicado do Fundo de Conservação da Floresta Seca de Guacanaste, uma das organizações participantes da pesquisa. Contudo, ao combinar todos os métodos e comparar o que ocorre nessa região do mundo com diferentes grupos biológicos (incluindo árvores, anfíbios e mariposas), constatou-se que entre 93% e 97% dos insetos ainda não foram descritos, acrescenta o comunicado.
Este trabalho surge num momento em que inúmeros estudos alertam para o desaparecimento de insetos em todo o mundo, um fenômeno conhecido como o “apocalipse dos insetos”. Entre os culpados estão a perda de habitat, a intensificação da agricultura, a utilização de pesticidas e as alterações climáticas, entre outros fatores. Pode parecer que, com a descoberta de milhões de novas espécies de insetos, o problema diminuiria. Mas a realidade é bastante diferente, porque muitas das espécies ainda desconhecidas também podem estar em declínio. Melissa Guzman é categórica neste ponto e alerta que é “impossível proteger espécies se não sabemos que elas existem”, daí a importância de as trazer à luz. Robert Colwell, um dos 15 autores do estudo, acrescenta que o trabalho também lhe deixa um sentimento de “humildade” ao perceber “o quão pouco sabemos sobre o nosso planeta”.
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