Pós-teísmo: uma resposta a Marco Vannini. Artigo de Paolo Gamberini

Foto: Pawel Czerwinski/Unsplash

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21 Julho 2026

"Nesse sentido, o pós-teísmo não representa o abandono do cristianismo, mas sim a tentativa de desenvolver a fé segundo a forma mais autêntica de sua catolicidade, tanto sincrônica quanto diacrônica: passando de um teísmo infantil para um cristianismo adulto, sem trair a tradição, mas redescobrindo sua profundidade simbólica, relacional, cósmica e espiritual", escreve Paolo Gamberini, jesuíta italiano, capelão da Universidade La Sapienza de Roma, em artigo publicado por Settimana News, 20-06-2026.

Eis o artigo.

Recentemente, o SettimanaNews publicou um artigo do filósofo e historiador do misticismo Marco Vannini (veja aqui no SettimanaNews), autor conhecido por seus estudos sobre Mestre Eckhart, a tradição mística ocidental e a relação entre espiritualidade e instituições religiosas. Em sua contribuição, Vannini apresenta uma crítica contundente ao pós-teísmo, interpretando-o como uma forma de espiritualidade indistinta, influenciada por sensibilidades da Nova Era e incapaz de preservar a essência autêntica da experiência cristã.

As páginas seguintes visam responder a essas objeções, mostrando como essa leitura do pós-teísmo é, na minha opinião, parcial e inadequada para a complexidade do debate contemporâneo.

A crítica aqui proposta desenvolve-se em torno de alguns pontos fundamentais.

Em primeiro lugar, argumenta-se que o pós-teísmo não representa uma dissolução do cristianismo em um espiritualismo genérico, mas uma tentativa de reinterpretar a tradição cristã à luz das profundas transformações culturais, científicas e antropológicas que caracterizaram a modernidade e a contemporaneidade.

Em segundo lugar, destaca-se que a questão central não diz respeito ao conteúdo essencial da fé cristã, mas sim à estrutura cosmológica, metafísica e simbólica dentro da qual essa fé foi historicamente formulada.

Em terceiro lugar, argumenta-se que a consciência religiosa não é uma realidade estática, mas participa de um processo histórico de amadurecimento que inevitavelmente envolve também a forma de compreender Deus, o mundo e os seres humanos.

Finalmente, demonstra-se como a categoria de relacionamento, adotada pelo pós-teísmo e desenvolvida na proposta do monismo relativo, pode oferecer um caminho frutífero para reinterpretar a herança cristã sem renunciar à sua profundidade teológica e espiritual.

O objetivo não é apenas responder às observações de Vannini, mas também oferecer ao leitor algumas ferramentas para melhor compreender o debate sobre o pós-teísmo e suas diversas articulações. Por essa razão, convido tanto aqueles que leem esta resposta quanto aqueles que desejam aprofundar-se no tema a consultar diretamente as obras nas quais desenvolvi sistematicamente a proposta pós-teísta: O pós-teísmo ainda é cristão? (Morcelliana, 2026), Deus 2.0: repensando a fé no pós-teísmo (Gabrielli, 2022) e o volume vindouro Pensando Deus de outra forma: a proposta para o monismo relativo (Queriniana, 2026, Giornale di Teologia 482).

Pós-teísmo segundo Vannini

O debate sobre o pós-teísmo não se resume a algumas opiniões teológicas marginais, mas toca numa questão crucial para o futuro do cristianismo: se e como é possível continuar a pensar e a viver a fé cristã para além das formas clássicas de teísmo, sem abandonar a tradição evangélica, mas procurando compreendê-la de uma nova maneira dentro do horizonte cultural do nosso tempo.

A crítica do professor Marco Vannini ao pós-teísmo é que ele nada mais é do que um "melaço da Nova Era", uma religiosidade vaga e sentimental destinada a se dissolver em um espiritualismo genérico.

Essa objeção, contudo, não procede. O pós-teísmo não pretende construir uma nova teologia romântica, nem reapresentar o deísmo do século XVIII, impregnado de um vago sentimentalismo religioso, em uma chave contemporânea. Pelo contrário, busca trazer à tona a alma católica do cristianismo, interceptando caminhos já presentes na tradição. Não se trata de Nova Era disfarçada de catolicismo, mas sim de um aprofundamento da compreensão enraizada na própria tradição.

O mito cristão e seus elementos

O pós-teísmo dialoga com a reinterpretação do mito cristão desenvolvida por autores como Spong e Lenaers. Esse confronto articula uma série de elementos-chave: a reinterpretação simbólica e metafórica das Escrituras, o pluralismo religioso, a consciência evolucionária da consciência humana e o diálogo com as ciências.

Isso não significa abandonar a fé, mas sim amadurecê-la. Os pós-teístas não estão se distanciando da Bíblia, mas do literalismo com que ela ainda é lida com muita frequência — e, nesse ponto, como é sabido, Bonhoeffer provavelmente concordaria.

A crítica de Marco Vannini, por outro lado, parece pressupor que a experiência religiosa, com suas representações, símbolos, ritos e até dogmas, constitui um espaço substancialmente imune aos efeitos que as transformações na imagem do mundo e do homem produzem na consciência contemporânea.

Mas essa separação entre experiência religiosa e mudança histórico-cultural parece difícil de sustentar. Se a consciência humana muda, se nossa compreensão do cosmos, da vida e da subjetividade muda, então inevitavelmente nossa compreensão do Mistério de Deus e sua expressão simbólica também mudam.

O contexto cosmológico e o diálogo com a ciência

Uma crítica recorrente diz respeito ao crédito excessivo atribuído à física e às ciências naturais. É apropriado, no entanto, fazer uma distinção. Como o Papa Francisco enfatizou no motu proprio Ad theologiam promovendam, a teologia é chamada a recorrer a categorias extraídas de outros campos do conhecimento. O conhecimento científico avança por meio de tentativas e erros; está sempre sujeito a revisão e não é definitivo, mas oferece um horizonte, um "pano de fundo" cosmológico, dentro do qual as verdades da fé podem ser expressas de uma maneira compreensível para o homem contemporâneo.

Quando falamos da "estrutura teológico-dogmática" da religião tradicional, o que pretendemos questionar não é o conteúdo da fé - que consiste na divinização da criação (Deus se fez homem para que o homem pudesse se tornar Deus) - mas sim o pano de fundo cosmológico e simbólico no qual as verdades da fé foram historicamente formuladas.

O contexto cosmológico e a linguagem pré-moderna do cristianismo já não são imediatamente relevantes para o homem contemporâneo. Assim como no passado a teologia se expressava dentro de uma metafísica que dialogava com a física de seu tempo, hoje a teologia não pode se limitar a reproduzir literalmente uma metafísica que parece estranha à visão de mundo atual. Contudo, assim como no passado, a "nova" metafísica também deve dialogar com a física de seu tempo.

A física, a metafísica e a religião não são esferas autônomas e independentes, mas fractais da mesma estrutura da realidade. É disso que fala a Veritatis Gaudium em seu prefácio (4c), referindo-se à transdisciplinaridade: "como a inserção e a fermentação de todo o conhecimento no espaço da Luz e da Vida oferecido pela Sabedoria que emana da Revelação de Deus". Não se trata de reduzir a física à religião ou vice-versa, mas de ter consciência de que o novo horizonte científico inevitavelmente modifica o contexto em que a linguagem religiosa é compreendida e recebida.

É nessa perspectiva que a Grande História ou o que Thomas Berry chamou de Nova História, adquire importância. Reduzir essa perspectiva a uma forma de misticismo intramundano ou a uma sensibilidade genérica da Nova Era significa deixar de refletir seriamente sobre as razões que levaram muitos pensadores contemporâneos a situar a experiência religiosa dentro da história cósmica do universo. A Grande História não substitui o cristianismo, mas fornece a estrutura narrativa dentro da qual o Mistério Cristão pode ser repensado e comunicado.

Dessa perspectiva, a interpretação de Vannini, pelo menos em parte, parece problemática. A linguagem religiosa certamente possui sua própria autonomia em relação à linguagem científica, mas isso não significa que a religião possa ignorar as profundas transformações que a ciência e a tecnologia provocam em nossa visão de mundo. O risco é o de se refugiar em uma forma de espiritualismo que preserva a religião ao custo de sua irrelevância cultural.

Neste novo horizonte, a categoria de "relacionamento" é decisiva como a forma dentro da qual se pode reafirmar a essência do cristianismo, como afirmam repetidamente os pós-teístas e, com diferentes ênfases, também o Papa Francisco (cf. Veritatis gaudium e Ad theologiam promovendam).

A crise contemporânea não diz respeito apenas a certas doutrinas, mas, mais radicalmente, à crise da metafísica substancialista de origem aristotélico-escolástica. O surgimento da ciência moderna, da física contemporânea e a crescente capacidade dos seres humanos de transformar o mundo e a si mesmos exigem uma compreensão da realidade que não esteja mais centrada primordialmente na substância, mas sim na relação.

Daí o interesse do pós-teísmo numa ontologia relacional de natureza monista.

A linguagem religiosa e seu significado

Outro ponto crítico diz respeito à linguagem. Os pós-teístas reafirmam unanimemente que as declarações religiosas não são declarações de fato: estritamente falando, se tratadas como proposições científicas, não fazem sentido. A confusão surge quando os teístas interpretam o conteúdo da fé cristã literalmente, transformando metáforas, símbolos e narrativas religiosas em descrições objetivas da realidade.

Os pós-teístas, por outro lado, relembram o verdadeiro significado do discurso religioso: metafórico e não literal, relacional e simbólico. Justamente por isso, não rejeitam a linguagem da tradição, mas buscam compreender seu significado mais profundo, libertando-a das incrustações cosmológicas que acompanharam sua formulação histórica.

Mesmo a referência de Vannini a Simone Weil por vezes parece sugerir que as representações religiosas pertencem a uma ordem superior, a-histórica. Contudo, embora reconheça a dimensão transcendente da experiência espiritual, o pós-teísmo sustenta que nenhuma representação religiosa é independente das condições históricas e culturais em que se forma. A transcendência manifesta-se sempre através de mediações históricas e simbólicas.

Evolução da consciência religiosa

Mais do que um postulado do pós-teísmo, trata-se de uma observação: a leitura tradicional do cristianismo é inaceitável para um mundo que atingiu a maturidade. A crítica de Vannini visa afirmar que essa ideia ainda é produto do mito do progresso.

Contudo, na consciência religiosa, assim como no desenvolvimento individual, existe uma dinâmica evolutiva real. Do psíquico ao espiritual, diria o próprio Vannini; uma metabasis eis to genos que lembra, em certa medida, a grande intuição da Fenomenologia do Espírito de Hegel.

Não se trata de um progressismo ingênuo, mas de reconhecer que a própria tradição testemunha um movimento de crescimento e transformação. Nesse sentido, Teilhard de Chardin e Bonhoeffer expressam a inquietação em relação ao cristianismo compartilhada pelos pós-teístas.

Ao invocar Teilhard, porém, Vannini parece negligenciar um dos aspectos mais inovadores do pensamento deste: a categoria do Ultra-humano. Os seres humanos não são meramente produto da evolução, mas estão progressivamente se tornando o sujeito consciente da própria evolução. Através da ciência, da tecnologia e das novas capacidades de transformação da natureza e da vida, a evolução tende a se tornar autoevolução. A questão religiosa não pode permanecer alheia a esse processo.

Da mesma forma, o "homem adulto" de Bonhoeffer não é simplesmente um indivíduo mais virtuoso ou espiritualmente maduro. Ele representa uma humanidade que, por meio da tecnociência, da política e da cultura moderna, emancipou-se dos preceitos religiosos que caracterizavam as eras anteriores.

É por isso que Bonhoeffer fala da necessidade de uma interpretação não religiosa dos conceitos bíblicos, e não de um retorno às formas de biblicismo. Seu projeto não é restaurar o passado, mas tornar o cristianismo possível dentro da nova condição histórica da humanidade.

Conclusão

O pós-teísmo não é uma versão católica da Nova Era, nem uma forma de deísmo sentimental. Ele surge da consciência de que o teísmo clássico está passando por uma profunda crise e que essa crise não pode ser resolvida simplesmente pela reintrodução de categorias metafísicas e cosmológicas de outra era histórica.

O monismo relativo encaixa-se precisamente nessa reformulação. Não constitui uma fuga da tradição cristã, mas um esforço sério para reinterpretar seu núcleo essencial à luz da consciência contemporânea. Longe de dissolver a diferença entre Deus e o mundo, busca compreendê-la dentro de uma ontologia de relação mais original, recuperando uma corrente subjacente, porém persistente, da tradição cristã antiga, moderna e contemporânea.

Nesse sentido, o pós-teísmo não representa o abandono do cristianismo, mas sim a tentativa de desenvolver a fé segundo a forma mais autêntica de sua catolicidade, tanto sincrônica quanto diacrônica: passando de um teísmo infantil para um cristianismo adulto, sem trair a tradição, mas redescobrindo sua profundidade simbólica, relacional, cósmica e espiritual.

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