17 Junho 2026
Uma série de ataques russos contra várias cidades da Ucrânia provocou pelo menos 11 mortos e dezenas de feridos na madrugada desta segunda-feira, 15 de junho. Entre os locais atingidos, encontra-se o histórico Mosteiro das Grutas de Kyiv (Kyiv Pechersk Lavra), um dos mais importantes santuários do cristianismo ortodoxo, onde um incêndio danificou a Catedral da Dormição, integrada no conjunto classificado como Património Mundial da UNESCO.
A reportagem é publicada por 7 Margens, 15-06-2026.
A vaga de bombardeamentos, que segundo as autoridades ucranianas envolveu cerca de 70 mísseis e mais de 600 drones, atingiu edifícios residenciais, infraestruturas e locais de valor histórico e religioso em várias regiões do país. Cinco dos mortos eram membros dos serviços de emergência em Kharkiv, chamados a responder a um primeiro ataque, enquanto dezenas de pessoas ficaram feridas em Kyiv e noutras cidades.
As autoridades eclesiásticas, citadas pela Associated Press, confirmaram que o incêndio atingiu o telhado da Catedral da Dormição, o principal templo do complexo monástico fundado em 1051. Fotografias divulgadas pela mesma agência mostram padres e monges a retirarem objetos litúrgicos e outros bens patrimoniais do interior da igreja enquanto os bombeiros combatiam as chamas.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, classificou o ataque ao mosteiro como "um dos mais graves crimes contra a cultura cristã" cometidos pela Rússia desde o início da guerra e acusou Moscou de visar deliberadamente um local de enorme significado religioso e cultural.
O Ministério da Defesa russo afirmou, contudo, que os danos no mosteiro teriam sido causados por um míssil do sistema antiaéreo Patriot utilizado pela Ucrânia, e não por um ataque direto das suas forças. As autoridades ucranianas contestam esta versão, sustentando que o incêndio foi provocado por drones russos que atingiram o complexo monástico.
Um dos lugares mais sagrados da ortodoxia
O Mosteiro das Grutas de Kyiv é um dos locais mais importantes do cristianismo ortodoxo oriental. Fundado no século XI nas margens do rio Dnipro, o complexo reúne igrejas, edifícios históricos e as célebres grutas onde repousam os restos mortais de numerosos monges venerados pela tradição ortodoxa.
Desde 1990 integra a lista do Património Mundial da UNESCO, juntamente com a Catedral de Santa Sofia de Kyiv. A Catedral da Dormição, agora atingida pelo incêndio, já tinha sido destruída durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sido reconstruída após a independência da Ucrânia.
Ofensiva russa atinge mosteiro histórico de Kiev. Local santo do cristianismo ortodoxo, o espaço foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1990. (Foto: @Dz_Kuchynski/X)
Reações multiplicam-se
Entre as reações mais significativas encontra-se a do metropolita Epifânio, primaz da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que classificou o ataque como “mais um crime russo contra a humanidade, contra a história e contra o cristianismo” e apelou à oração pela preservação do mosteiro.
Também o Patriarcado da Romênia manifestou esta segunda-feira “profunda preocupação e tristeza” pelos danos causados na Lavra de Kyiv. Num comunicado oficial, a instituição sublinhou que um ataque contra um local de culto com tal significado religioso, histórico e cultural representa uma perda não apenas para a Ortodoxia, mas para todo o património espiritual e cultural da humanidade. O texto conclui com um apelo à oração pela paz, pela proteção da vida humana e pela preservação dos lugares sagrados ameaçados pela guerra.
O bispo Avraamiy, responsável pelo mosteiro sob a jurisdição da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, agradeceu por seu lado o trabalho dos bombeiros e dos monges que ajudaram a salvar ícones, relíquias e outros objetos litúrgicos do interior da catedral atingida pelas chamas. O responsável apelou ainda à comunidade internacional, às organizações religiosas e às instituições culturais para que reforcem os esforços de proteção do património espiritual e cultural ucraniano.
Em reação a estes ataques, o Conselho Mundial de Igrejas emitiu também já uma declaração em que denuncia o “ciclo mortal de violência” provocado pela invasão russa e apela ao fim imediato das hostilidades. “A cada dia que passa, mais vidas são destruídas, mais famílias são deslocadas e mais comunidades ficam marcadas pelo trauma”, pode ler-se no texto, onde o secretário-geral da organização, Jerry Pillay, defende uma paz justa e duradoura e convida as igrejas-membro e todas as pessoas de boa vontade a unirem-se na oração e em ações concretas pela paz.
A reação estendeu-se também ao plano diplomático. O ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) da Ucrânia, Andrii Sybiha, anunciou que o país irá recorrer à UNESCO e a outros mecanismos internacionais para denunciar os danos causados na Lavra de Kyiv, classificando o mosteiro como um dos mais importantes santuários do cristianismo e um património de valor universal.
A agência especializada das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura rejeitou o ataque contra a Catedral da Dormição e arredores, salientando que se trata de património mundial protegido.
“A UNESCO condena os ataques contra o património cultural, as instituições de ensino, os estudantes, o pessoal docente e os profissionais dos meios de comunicação social protegidos pelo Direito Internacional”, assinalou a organização, explicando que estes espaços partilhados “são essenciais para a recuperação e a coesão social”. Mas o comunicado não se referiu à Rússia, o que mereceu condenação do porta-voz do MNE ucraniano, Heorhi Tiji.
Já o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, comparou o ataque a um eventual bombardeamento da Catedral de Notre-Dame, em Paris, considerando que se tratou de uma agressão contra um dos símbolos mais importantes do património religioso europeu.
Até ao final da tarde desta segunda-feira não eram conhecidas tomadas de posição do Patriarcado de Moscovo nem do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla sobre os danos causados no mosteiro.
Centenas de edifícios religiosos afetados pela guerra
O ataque a este importante mosteiro ocorre num contexto de destruição continuada do património religioso ucraniano desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.
Segundo os dados mais recentes da UNESCO, até 10 de junho de 2026 tinham sido verificados danos em 154 locais religiosos na Ucrânia, entre igrejas, mosteiros e outros edifícios de valor patrimonial.
Outras organizações apresentam números ainda mais elevados. De acordo com o Instituto para a Liberdade Religiosa da Ucrânia, mais de 600 edifícios religiosos foram danificados ou destruídos desde o início da guerra, incluindo igrejas ortodoxas, católicas e protestantes, sinagogas e mesquitas.
A destruição de locais de culto tem sido repetidamente denunciada por organizações internacionais como parte do impacto da guerra sobre o património cultural e espiritual do país. Para muitos ucranianos, e não só, o incêndio na Catedral da Dormição representa mais do que a danificação de um edifício histórico: simboliza um novo golpe num património religioso que atravessou quase mil anos de história e que continua a sofrer as consequências do conflito.
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