"Sagrada Família, uma obra concluída. Pura modernidade, nada de nostalgia". Entrevista com Chiara Curti

Papa Leão XIV | Foto: Vatican Media

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13 Junho 2026

Templo vivo. "Leão não veio simplesmente para abençoar o fim de uma obra ou para colocar seu selo em um edifício concluído. Ele está aqui para participar da história da Sagrada Família", afirma Chiara Curti, arquiteta residente em Barcelona e autora de uma biografia que inverte a perspectiva usual: ela não começa pelas obras para explicar a vida de Antoni Gaudí, mas sim por sua vida para mergulhar profundamente nas obras. Cem anos depois, Prevost inaugura hoje a conclusão da Catedral de Barcelona.

Quem era o "arquiteto de Deus"? "Ele praticamente não concluiu nenhuma de suas obras. Não apenas a Sagrada Família, mas também grande parte de sua arquitetura civil permaneceu inacabada ou foi entregue a outros. Evoca o inacabado de Michelangelo e transcende a imagem finalizada. Aceita a incompletude não como fracasso, mas como condição da criação. A obra nunca está completamente terminada: pertence à vida, ao tempo, aos homens que trabalham nela e, em última instância, a Deus. A obra é de Deus, e o homem é chamado a colaborar. Ele não é o dono absoluto da forma. Ele se via como um ‘colaborador do Criador’, um construtor chamado a levar adiante algo que o precede e o supera. Missão de fé."

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 10-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O que Gaudí diria hoje?

Ele veria a chave de sua grandeza: não concebia a arte como uma afirmação do eu, mas como obediência a uma realidade maior: expressão de uma metafísica que se torna criação artística. A realidade lhe ensinou, obra após obra, que o que construía não lhe pertencia inteiramente. Ele não começou e nem terminou a Sagrada Família. Essa humildade era incompreensível para muitos. Alguns o viam como excêntrico, outros como pobre, outros ainda como isolado da sociedade. Na realidade, ele era extremamente moderno.

Um gênio pode ser humilde?

A humildade foi uma das características mais marcantes de sua figura. Ele concebeu a Sagrada Família como uma síntese das catedrais: não apenas uma nova igreja, mas um lugar para reaprender a construir. Construir pedras, mas também laços, trabalho em comum, cidades, sociedade. Como disse São João Paulo II, trata-se de ‘pedras vivas’. Gaudí tinha visto a revolução industrial, a ideologia de massas e a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Que sentido tem terminá-la agora?

Hoje, a Sagrada Família ergue-se em outro tempo inquieto: a revolução digital, a polarização do mundo, as guerras. Precisamente por isso, ainda fala. Um sinal de que a fé não é fuga da história, mas o que a define. Um edifício que é um enigma inesgotável. Não se deixa consumir em uma única visita. É uma obra estratificada, cada detalhe remete a outro, cada símbolo abre uma nova porta. Gaudí dizia: ‘Cada um verá suas próprias coisas no Templo’. A Sagrada Família não é reservada aos especialistas. Não é preciso ser historiador da arte, arquiteto ou teólogo para se conectar com ela; qualquer um pode encontrar uma conexão. Não é um sucesso de marca. É um lugar de raro fascínio onde ainda podemos nos maravilhar e dizer: que lindo!

Uma teologia feita de pedras?

Aqui podemos parar, erguer os olhos e lembrar que o céu não é uma ideia abstrata. Gaudí tinha a luz como ponto de partida. A luz como origem. Das pedras de Stonehenge aos templos antigos, das basílicas às catedrais medievais, o homem buscou conectar o local de culto com a luz. Gaudí reúne essa longa história e a leva a uma nova síntese. A Sagrada Família é catedral de luz. Cada elemento se relaciona com o cosmos, ordena-se com a criação, entra em diálogo com o sol, o tempo, as estações, o movimento da vida. Não se trata apenas de decoração ou de técnica. É uma forma de tornar visível a ordem da criação. A Sagrada Família não quer apenas ser contemplada. Quer educar o olhar para a admiração. Gaudí quis preservar dentro de si a infância. Não como nostalgia, mas como forma de conhecimento: uma simplicidade de vida, um olhar capaz de ver tudo com curiosidade, um modo de viver de filho. Antoni Gaudí vinha de uma família de caldeireiros.

Esse é o fundamento de Gaudí?

O trabalho na oficina do pai e o contato precoce com o ofício moldaram a sua maneira de conceber o espaço, dando-lhe uma visão tridimensional da matéria. Essa proximidade quase doméstica garante que qualquer um que se aproxime de Gaudí não o perceba como um gênio distante, isolado do mundo, mas como uma pessoa próxima. Uma intimidade que nasce de um desejo compartilhado com aqueles que estavam ao seu lado: memórias de infância como tesouros e segredos. Aquela infância deixou sua marca na arquitetura desde as primeiras obras, e encontramos nela a admiração pela natureza, típica das crianças, e a capacidade de transformar a admiração genuína em pedra, gesto, símbolo. Uma efígie eterna.

Vestígios de fé vivida?

Sim. Não é por acaso que, na Sagrada Família, Gaudí dedicou tamanha atenção à fachada da Natividade: a infância de Cristo, a vida que nasce, a criação que se oferece ao olhar. Para ele, a infância não foi simplesmente um primeiro capítulo da vida. Foi uma origem permanente. Esse olhar sempre o acompanhou. A visita de Leão XIV à Sagrada Família nos diz que não somos construtores nostálgicos. E se dirige a todos.

Como se pode intervir?

Não estamos reconstruindo um passado perdido. Somos protagonistas do presente que continuam a construir um lugar destinado ao futuro. A Sagrada Família não é um refúgio da modernidade. É uma resposta à modernidade. Não nega o nosso tempo, mas o atravessa. Numa época marcada por pressa, fragmentação, domínio tecnológico e solidão, é proposta outra medida: a beleza, a paz, o trabalho em conjunto, a relação. É um lugar onde a vida não é controlada, mas exaltada. Aqui, o homem não se concebe como senhor, mas como guardião. O trabalho não é apenas produção, mas participação. Para a fé, a visita de Leão significa reconhecer que o cristianismo continua a gerar cultura. Para a cultura, significa lembrar que a beleza não é um ornamento, mas uma necessidade do ser humano. Não reduz o ser humano a um número, função ou estatística. Coloca-o em relação: com Deus, com os outros, com a cidade, com a criação, com o tempo. Tem algo simples e realmente radical a dizer: que vale a pena viver para vê-la crescer.

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