10 Junho 2026
Apenas um testemunho do "Deus presente", que encontra seu ápice na caridade: gratuidade total. Uma visão coerente com a perspectiva delineada no primeiro discurso do Papa às autoridades e ao corpo diplomático acreditado em Madri".
O artigo é de Lucio Brunelli, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 09-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Há sete séculos não se tinha notícia de uma procissão de Corpus Christi liderada por um Papa pelas ruas de uma capital europeia, e não, como de costume, em Roma ou arredores. Para encontrar um precedente não romano para a procissão liderada por Leão XIV em Madri no domingo, é preciso voltar à época dos Papas de Avignon, a João XXII, que introduziu essa prática piedosa popular em 1306 e a levou às ruas da cidade francesa que, por um desafortunado período, havia se tornado a sede do papado.
Um contexto completamente diferente serviu de entorno para a procissão espanhola do Papa Prevost. Mas não foi apenas a singularidade histórica do gesto de Leão que impressionou tanto os participantes quanto aqueles que acompanhavam a procissão pela TV e pelas redes sociais. Foram certamente os números desse evento religioso, com 1,2 milhão de fiéis aglomerados nas ruas centrais da capital, onde o Santíssimo Sacramento foi carregado, de braços erguidos, por 40 minutos pelo Papa, sob o calor abafado, em meio a orações e ao lançamento de pétalas de rosa. A multidão parecia desmentir visualmente a imagem de uma Espanha já totalmente secularizada.
Mas além dos números, o que impressionou foi o estilo religioso do Papa e a conscientização à qual convocou toda a Igreja. Um estilo de sobriedade, que não significa distanciamento (em alguns momentos o Papa pareceu comovido), mas sim o desejo de evitar qualquer protagonismo e, idealmente, esforçar-se para "desaparecer para que permaneça Cristo".
O que foi particularmente marcante foi o olhar, não preso ao passado, às glórias de tempos idos, que "não se deixa aprisionar pela memória nostálgica". Em vez disso, voltado para o presente: "Eis, portanto, uma mensagem para a Espanha de hoje e de amanhã: a religiosidade que anima este país há séculos não deve ser um museu do passado a ser visitado, mas uma escola de fé à qual se possa recorrer ainda hoje. Uma escola que nos ensina a nos ajoelharmos diante de Deus e diante do próximo, porque ninguém pode ajoelhar-se diante do Senhor e desprezar o irmão".
Resumindo, nenhuma tentação de transformar um gesto humilde e alegre de fé numa exibição de força.
Apenas um testemunho do "Deus presente", que encontra seu ápice na caridade: gratuidade total. Uma visão coerente com a perspectiva delineada no primeiro discurso do Papa às autoridades e ao corpo diplomático acreditado em Madri: "evitar aquelas abordagens identitárias que parecem tornar tudo claro, mas povoam o mundo de fantasmas e inimigos: essa é a tarefa daqueles que têm uma grande história por trás de si". Um apelo às forças políticas espanholas, certamente, para superar um clima de polarização extrema. Mas não dirigido apenas a elas.
Mesmo entre os cristãos, pode prevalecer uma certa "abordagem identitária" que parece tornar tudo claro, na lógica do "nós-e-eles", mas que acaba povoando a realidade apenas com fantasmas e inimigos. Falando em identitarismo ideológico, um intelectual católico francês, Rémi Brague, agraciado com o Prêmio Ratzinger em 2012, cunhou o termo "cristianista", claramente distinto do termo "cristão", para indicar precisamente aqueles que veem e apreciam o cristianismo principalmente por sua dimensão histórico-cultural: um "baluarte" de valores, tradições e doutrinas a serem opostas aos inimigos da Igreja. Brague não expressava um juízo negativo sobre os "cristianistas" — eles representam uma dimensão importante da história da Igreja —, mas, em tom ameno, lembrava-lhes que o único propósito da Igreja é conduzir as pessoas ao encontro vivo com a realidade de Cristo e que a fé nele não pode ser reduzida a uma ideologia: o "cristianismo" ao lado e contra as outras ideologias, "comunismo", "fascismo", "laicismo", "islamismo", etc. Uma oportuna lembrança da verdade do sermos cristãos, evocada pelos gestos e pelas palavras de Leão XIV durante esta viagem à Espanha, que certamente trará outras surpresas nos próximos dias.
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