A missão nasce da compaixão que reconhece a cura. Comentário de Ana Casarotti

12 Junho 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo Mateus 9,36-10,8 que corresponde ao 11° domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Eis o comentário. 

Naquele tempo, Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: "A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!" Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: "Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: 'O Reino dos Céus está próximo'. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!"

No domingo passado, refletimos sobre os diferentes olhares narrados pelo Evangelho e nos detivemos no olhar de Jesus para Mateus e no chamado que Ele lhe faz para segui-Lo. O texto evangélico deste domingo nos relata outro olhar de Jesus:

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”.

Jesus contempla a multidão e seus olhos se deixam impregnar pela compaixão. Seu olhar não se detém na superfície, não se limita a ver rostos anônimos reunidos. Ele penetra no íntimo da vida de cada pessoa, reconhece suas histórias escondidas, suas dores e esperanças. É um olhar carregado de empatia: não analisa de fora, mas se deixa tocar por dentro, revelando uma proximidade que transforma. O texto nos diz que “ele tem compaixão delas porque estavam cansadas e abatidas”. Ele percebe o cansaço acumulado, a fragilidade escondida, o abatimento que não se mostra facilmente.

A multidão, vista de fora, parece apenas um grupo que caminha, que escuta, que repete palavras. É um grupo em que a diversidade se dilui, desaparece da cena, porque prevalece o interesse comum: participar de um cenário compartilhado — seja musical, esportivo, religioso ou social. Nesse espaço, a individualidade se funde com o sentimento coletivo, tornando-se parte de uma experiência maior.

Muitas vezes, porém, a multidão é vista de forma pejorativa. Surgem comentários como: “todos amontoados”, “apertados por todos os lados”, “arrastados pela maioria”, “nem sabem por que estão ali”. São percepções que, não raro, vêm de quem observa de fora, sentado confortavelmente em lugares reservados, protegidos por uma condição econômica que lhes permite escapar daquilo que chamam de caos. Para esses, a individualidade parece “a salvo”, preservada contra o contato massivo!

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”.

Ao contemplar a multidão, Jesus não vê apenas grupos reunidos, mas homens e mulheres entristecidos, carregando o peso da vida que parece esmagá-los. Embora estejam juntos, Ele percebe cada rosto, cada história, cada solidão. Vê pessoas sem rumo, desanimadas, como “ovelhas que não têm pastor”. É essa realidade que toca seu coração e o move a compadecer-se: não por piedade distante, mas por uma proximidade que reconhece a dor e deseja conduzir à esperança.

É uma descrição intensa que nos leva a perguntar: que cansaço e que abatimento Jesus vê? Pode ser um cansaço físico, mas há também um cansaço mais profundo, existencial, que desperta nele compaixão verdadeira. Uma pessoa abatida é alguém desanimada, aflita, sem forças para seguir adiante. A compaixão de Jesus nasce dessa percepção e se torna convite para que a comunidade reconheça e cuide das fragilidades humanas.

O texto bíblico nos desafia a identificar as multidões contemporâneas que vivem cansadas e abatidas. Podem ser comunidades afetadas pela pobreza, pela violência, pela solidão ou pela falta de oportunidades. Jesus nos ensina a olhar além das aparências, a perceber o desânimo interior e a responder com compaixão. Assim como Ele, somos chamados a ser presença que guia, que anima, que oferece direção.

A partir desse olhar compassivo e profundo, Jesus chama de uma nova maneira aqueles que estão ao seu lado. Ele os torna participantes de seu sentimento e de sua visão, “e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade”.

Em primeiro lugar, Jesus nos convida a ver com o seu olhar: a ampliar nossos olhos e abrir nosso coração para perceber, como Ele, as multidões cansadas e abatidas. Somente a partir desse sentimento tão íntimo e verdadeiro fará sentido a missão que Ele nos confia. É dessa compaixão que nasce a força para responder à dor profunda e à tristeza que habitam na vida dessas multidões.

Muitas vezes temos dado ênfase excessiva a um “chamado” entendido apenas como atividades: responder com ações, organizar tarefas, ocupar espaços específicos — igrejas, capelas, grupos, comunidades. No entanto, esse modo de compreender o chamado corre o risco de deixar de lado o essencial: a partilha da compaixão de Jesus pela multidão.

É mais fácil, e até reconfortante, agir e multiplicar iniciativas do que dar espaço à dor que nos desafia. É mais simples preencher o tempo com atividades do que permanecer diante do mistério que não se resolve, deixando-nos sensibilizar pelo coração de Jesus. Mas é justamente esse coração, profundamente tocado pela compaixão diante das multidões cansadas e abatidas, que nos revela o sentido verdadeiro da missão.

 

Neste domingo, Jesus nos convida a ter um coração compassivo como o dele. Não existe um modelo único nem uma resposta melhor do que outra. O que sabemos é que tudo nasce dessa compaixão ao ver multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor.

A questão que se coloca é: deixamo-nos realmente comover por essa realidade? Ou preferimos oferecer respostas imediatas a cada necessidade que surge, multiplicando atividades, mas negligenciando o sentido profundo da vida de cada pessoa? Muitas vezes é mais fácil agir do que permanecer diante do mistério da dor humana, que exige silêncio, escuta e compaixão.

Peçamos ao Senhor que nos conceda ser mais semelhantes a Ele, para termos o seu olhar e o seu coração, capazes de reconhecer o abatimento das multidões e responder com ternura e esperança.

Leia mais: