Filhos e filhas de mulheres assassinadas por parceiros são vítimas indiretas do feminicídio e precisam de reconhecimento e acompanhamento institucional, afirma a socióloga
Na última segunda-feira, 08-06-2026, o Rio Grande do Sul registrou o 38º feminicídio no estado. Uma mulher de 39 anos foi assassinada na região noroeste, no município de Alecrim. A vítima já tinha registrado ocorrência de violência doméstica. Esse e outros casos têm em comum “um padrão de violência que permeia relações afetivas, familiares, comunitárias e institucionais”, diz Silvana Aparecida Mariano ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Coordenadora do Relatório anual de feminicídios no Brasil em 2025, a socióloga analisa o feminicídio como um “problema social persistente” e “insuficientemente enfrentado” no país. Uma das lacunas evidenciadas é a situação dos órfãos. “Essas crianças não são apenas testemunhas. Elas também são atingidas pela violência. Mesmo quando não sofrem agressão física direta, elas vivem uma ruptura brutal da vida cotidiana. Muitas perdem a mãe, mudam de cuidadoras, enfrentam luto, insegurança econômica e, em alguns casos, culpa, silêncio ou estigma”, relata. Segundo Silvana Mariano, os órfãos necessitam de proteção, apoio psicológico e estabilidade material.
No fim do mês passado, 29-05-2026, entrou em vigor a norma que regulamenta o direito à pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para órfãos vítimas de feminicídio. A iniciativa visa auxiliar financeiramente jovens de até 18 anos. Eles têm direito a um benefício no valor de um salário mínimo.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao IHU, Silvana Mariano também reflete sobre a naturalização da violência nas diversas instâncias da sociedade brasileira e alerta para a influência do “macho alfa” na formação dos jovens em ambientes digitais. “O problema é que esse discurso aparece como brincadeira, autoajuda, sedução ou conselho de relacionamento. Mas, no fundo, ele reforça uma pedagogia da posse. Ensina jovens a confundirem afeto com controle, masculinidade com agressividade, e relacionamento com disputa de poder”, adverte.
Silvana Aparecida Mariano (Foto: Reprodução UEL)
Silvana Aparecida Mariano é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), mestra em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente leciona na UEL.
IHU – Segundo relatório de 2025 do Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), ocorreram 6.904 casos de feminicídios consumados e tentados no país. O que esse número revela sobre a maneira como a violência contra as mulheres tem sido tratada no país?
Silvana Aparecida Mariano – Esse número revela que nós estamos diante de um problema social persistente, grave e ainda insuficientemente enfrentado. Quando o Monitor de Feminicídios no Brasil registra 6.904 casos consumados e tentados em um único ano, não estamos falando apenas de crimes individuais. Estamos falando de um padrão de violência que permeia relações afetivas, familiares, comunitárias e institucionais.
O dado também mostra que a sociedade brasileira ainda trata a violência contra as mulheres de forma muito reativa. Em geral, o Estado chega depois: depois da ameaça, depois da agressão, depois da tentativa, depois do assassinato. Temos avançado na legislação penal, na nomeação do feminicídio, na punição, mas ainda estamos muito longe de uma política pública de prevenção com escala, continuidade, financiamento e capilaridade territorial.
Então, esse número revela uma contradição importante: o Brasil reconhece mais o feminicídio como crime, mas ainda não conseguiu impedir que milhares de mulheres sejam mortas ou quase mortas todos os anos.
IHU – A cada mês, a imprensa noticia a superação dos índices de feminicídio em relação ao mesmo período do ano anterior. Mulheres são agredidas, espancadas e assassinadas. Em alguns casos, tudo isso é presenciado pelos filhos. Em outros, o agressor comete suicídio ou mata as crianças. O que explica essa dinâmica de violência que tem a intenção de fazer o outro sofrer, sentir dor e ser humilhado?
Silvana Aparecida Mariano – Essa dinâmica precisa ser compreendida como uma violência de poder, controle e dominação. O feminicídio raramente é um ato isolado ou inesperado. Em muitos casos, ele é o ponto extremo de uma trajetória anterior de ameaças, perseguições, controle, agressões e humilhações.
Quando o agressor quer produzir sofrimento, quando ele quer humilhar, quando ele quer atingir também os filhos ou familiares, ele está comunicando uma mensagem de posse. É como se dissesse: “Se essa mulher não ficar comigo, ela não terá o direito de viver a própria vida”. Essa é uma lógica profundamente patriarcal, baseada na ideia de que a mulher pertence ao homem, de que sua autonomia é uma afronta, de que sua decisão de romper uma relação deve ser punida.
E isso se agrava em uma sociedade como a brasileira, em que a violência permeia muitas relações sociais. Nós convivemos com formas naturalizadas de violência no espaço doméstico, na política, nas instituições, nas relações raciais, nas relações de classe e nas relações de gênero. O machismo não é um desvio individual. Ele organiza expectativas sobre masculinidade, autoridade, sexualidade, família e obediência feminina.
IHU – Que complexidades passam despercebidas no debate público sobre o aumento do feminicídio no Brasil?
Silvana Aparecida Mariano – A primeira complexidade é que o aumento dos registros não significa, necessariamente, apenas aumento da violência. Pode significar também maior visibilidade, maior capacidade de nomeação e melhor identificação dos casos. Mas isso não diminui a gravidade do problema. Pelo contrário, mostra que havia e ainda há muita violência subnotificada ou mal classificada.
Outra complexidade é que o feminicídio não pode ser reduzido ao momento da morte. Ele envolve trajetórias anteriores de violência, falhas na proteção, ausência de resposta articulada da rede, dificuldades econômicas das mulheres, dependência financeira, presença de filhos, isolamento social e medo.
Também passa despercebido que o feminicídio tentado é um indicador muito importante. Ele mostra mulheres que sobreviveram, mas que estiveram muito próximas da morte. Quando olhamos apenas para os casos consumados, perdemos parte essencial do fenômeno.
E há ainda uma complexidade institucional: muitas políticas existem formalmente, mas não chegam com força suficiente aos territórios. Temos leis, campanhas, protocolos e serviços, mas nem sempre temos equipe, orçamento, formação continuada, funcionamento em horário adequado e articulação real entre os setores.
IHU – O relatório aponta que a maioria dos casos de feminicídio ocorre nos fins de semana, especialmente no domingo, quando muitas famílias estão em casa. O que isso indica sobre as relações familiares constituídas em muitos lares brasileiros? Por que a família, que deveria ser a primeira instância de proteção e convívio interpessoal, transforma-se em produtora de violência?
Silvana Aparecida Mariano – Esse dado é muito importante porque nos obriga a olhar para dentro da casa. Existe uma idealização da família como espaço natural de proteção, afeto e cuidado. Mas, para muitas mulheres, a casa é o lugar de maior risco. E isso não acontece por acaso.
A família brasileira, em muitos contextos, ainda está organizada por relações profundamente desiguais. Há expectativas de obediência feminina, de controle masculino, de sobrecarga das mulheres com o cuidado, de tolerância à agressividade masculina e de preservação da família a qualquer custo, mesmo quando essa família se tornou violenta.
O domingo e os fins de semana concentram mais convivência doméstica, mais tempo compartilhado, mais conflitos familiares, muitas vezes também maior consumo de álcool, discussões sobre separação, dinheiro, ciúmes, cuidado com filhos e reorganização da vida cotidiana. Mas o ponto central não é o fim de semana em si. O ponto central é que a violência aparece onde já havia uma relação marcada por controle, desigualdade e ameaça.
A família se transforma em produtora de violência quando deixa de ser um espaço de reconhecimento da autonomia de seus integrantes e passa a funcionar como espaço de posse, hierarquia e silenciamento. Isso é especialmente grave para mulheres e crianças.
IHU – Um ponto interessante do relatório é a atenção dada aos órfãos. O estudo destaca a instabilidade financeira e a falta de apoio psicossocial que eles enfrentam após a morte das mães. A situação deles ainda é invisibilizada no país? Pode nos dar um panorama da condição deles a partir dos dados coletados?
Silvana Aparecida Mariano – Sim, a situação dos órfãos do feminicídio ainda é muito invisibilizada. Durante muito tempo, o debate público olhou para a vítima fatal e para o agressor, mas prestou pouca atenção às pessoas que permanecem vivas depois do crime, especialmente filhos e filhas.
O feminicídio não destrói apenas uma vida. Ele desorganiza famílias inteiras. Crianças e adolescentes podem perder a mãe, podem perder também a referência paterna quando o agressor é preso ou morre, podem precisar mudar de casa, de escola, de cidade, de cuidadoras. Muitas vezes passam a viver com avós, tias ou outros familiares que já enfrentam dificuldades financeiras.
Do ponto de vista dos dados, ainda temos um problema grande: a imprensa nem sempre informa se a vítima tinha filhos, quantos eram menores de idade, quem ficou responsável por eles, se houve acompanhamento psicossocial ou acesso a benefícios. Então, o que conseguimos registrar é uma parte do fenômeno. E mesmo essa parte já mostra que os órfãos são uma das dimensões mais graves e menos estruturadas da resposta pública ao feminicídio.
Nós precisamos tratar esses filhos e filhas como vítimas indiretas do feminicídio. Eles precisam de proteção social, apoio psicológico, acompanhamento escolar, estabilidade material e reconhecimento institucional.
IHU – De acordo com o relatório, crianças e adolescentes presenciaram 30% dos feminicídios registrados em 2025. Quais os impactos disso na vida afetiva, psicológica e social deles?
Silvana Aparecida Mariano – É importante dizer com cuidado: quando trabalhamos com dados da imprensa, esse percentual se refere aos casos em que houve o registro de presença ou exposição de crianças e adolescentes na notícia. Pode haver subnotificação. Mas, mesmo com essa cautela, o dado é muito grave.
Crianças e adolescentes que presenciam ou convivem com uma situação extrema de violência doméstica podem sofrer impactos profundos. Há efeitos no medo, na segurança, na confiança nos adultos, na relação com a casa, na escola, no sono, na sociabilidade e na forma como entendem o amor, o conflito e a autoridade.
Essas crianças não são apenas testemunhas. Elas também são atingidas pela violência. Mesmo quando não sofrem agressão física direta, elas vivem uma ruptura brutal da vida cotidiana. Muitas perdem a mãe, mudam de cuidadoras, enfrentam luto, insegurança econômica e, em alguns casos, culpa, silêncio ou estigma.
Por isso, a resposta ao feminicídio não pode terminar no sistema de justiça criminal. Ela precisa incluir assistência social, saúde mental, escola, rede familiar e políticas de reparação.
IHU – Em 2025, a Lei do Feminicídio completou dez anos. À época, a instituição dessa legislação gerou uma série de debates. Hoje, para além da punição dos agressores, quais são os efeitos dessa legislação sobre a sociedade?
Silvana Aparecida Mariano – A Lei do Feminicídio teve um efeito simbólico e político muito importante: ela deu nome a uma forma específica de violência letal contra as mulheres. Antes, muitas dessas mortes eram tratadas como crimes passionais, brigas de casal, tragédias familiares ou conflitos privados. A categoria feminicídio rompe com essa linguagem e mostra que essas mortes têm relação com desigualdades de gênero.
Então, para além da punição, a lei ajudou a mudar o vocabulário público. Hoje, a imprensa, os movimentos sociais, as instituições de justiça e as políticas públicas falam em feminicídio. Isso importa porque aquilo que não tem nome tende a permanecer invisível.
Mas também é preciso reconhecer os limites. A lei penal é necessária, mas ela não é suficiente. O Brasil tem produzido muitas respostas penais, enquanto as políticas de prevenção ainda são frágeis, desiguais e muitas vezes simbólicas. E as políticas de reparação, especialmente para familiares e órfãos, ainda são muito escassas e sem escala de atendimento.
IHU – Por que, mesmo com avanços políticos e sociais, a mentalidade sobre a violência contra as mulheres muda tão lentamente?
Silvana Aparecida Mariano – Porque a violência contra as mulheres está ligada a estruturas sociais muito profundas. Não se trata apenas de falta de informação. Trata-se de formas aprendidas de organizar a vida, a masculinidade, a feminilidade, a família, a sexualidade e o poder.
Muitos homens foram socializados para entender o cuidado como controle, o ciúme como prova de amor, a autoridade como direito masculino e a autonomia feminina como ameaça. E muitas mulheres também foram socializadas para tolerar, justificar ou minimizar comportamentos abusivos, porque a sociedade ensina que manter a relação, preservar a família ou suportar sofrimento faz parte do papel feminino.
Mudanças legais podem ocorrer rapidamente. Mudanças culturais, institucionais e subjetivas são mais lentas. Por isso, os efeitos das políticas públicas precisam de tempo, continuidade e presença cotidiana. Não basta uma campanha anual. É preciso atuar na escola, na saúde, na assistência social, na imprensa, nas igrejas, nos ambientes de trabalho, nas redes sociais e nas instituições de justiça.
IHU – Que outras dimensões da vida social precisam ser trabalhadas para que haja uma mudança de mentalidade em relação à violência contra as mulheres e à violência doméstica?
Silvana Aparecida Mariano – Nós precisamos trabalhar várias dimensões ao mesmo tempo. A primeira é a educação, desde a infância, com formação para igualdade, respeito, resolução não violenta de conflitos e reconhecimento da autonomia das meninas e mulheres.
A segunda é a comunicação. A imprensa e as redes sociais têm um papel enorme na forma como a sociedade interpreta a violência. Não podemos tratar feminicídio como caso isolado, crime passional ou espetáculo da dor. Precisamos falar de contexto, responsabilidade, prevenção e direitos.
A terceira é a formação dos profissionais da rede de proteção: saúde, assistência social, segurança pública, educação, justiça. Muitas mulheres passam por vários serviços antes do feminicídio. Cada atendimento pode ser uma oportunidade de proteção ou uma oportunidade perdida.
E a quarta dimensão é a reparação. A sociedade precisa entender que o feminicídio produz danos coletivos, familiares e intergeracionais. Não basta punir o agressor. É preciso cuidar de quem ficou.
IHU – Nas redes sociais e nos fóruns de discussão, comunidades e grupos acentuam um perfil de masculinidade caracterizado pela ideia do macho alfa, em que as mulheres também legitimam esse tipo de postura. Que modelo de relações interpessoais está sendo gestado nesses ambientes?
Silvana Aparecida Mariano – Esses ambientes produzem um modelo de relação baseado em hierarquia, dominação e ressentimento. A figura do “macho alfa” promete segurança, força e autoridade, mas muitas vezes está associada à recusa da igualdade, à hostilidade contra mulheres autônomas e à ideia de que o homem deve controlar a parceira.
O problema é que esse discurso aparece como brincadeira, autoajuda, sedução ou conselho de relacionamento. Mas, no fundo, ele reforça uma pedagogia da posse. Ensina jovens a confundirem afeto com controle, masculinidade com agressividade, e relacionamento com disputa de poder.
Quando mulheres também legitimam esse tipo de postura, isso mostra como o machismo não é reproduzido apenas por homens. Ele é uma estrutura cultural. Todas as pessoas podem aprender e reproduzir suas normas. Por isso, a crítica precisa ser social, e não apenas individual.
IHU – Como proteger os jovens que estão em formação de uma mentalidade violenta e possessiva em relação às mulheres?
Silvana Aparecida Mariano – Nós protegemos os jovens oferecendo outras referências de masculinidade, de afeto e de convivência. Não adianta apenas dizer “não seja violento”. É preciso ensinar o que significa construir uma relação baseada em respeito, reciprocidade, autonomia e cuidado sem controle.
A escola tem um papel fundamental, mas não pode estar sozinha. Famílias, projetos sociais, universidades, coletivos, serviços de saúde, cultura, esporte, comunicação, ciência e tecnologia também precisam participar. Os jovens precisam de espaços seguros para falar sobre ciúme, rejeição, frustração, sexualidade, término de relacionamento, emoções e conflitos.
Também é importante enfrentar diretamente os conteúdos digitais que romantizam controle, humilhação e dominação. Muitos jovens estão aprendendo sobre relacionamento nas redes sociais, com influenciadores que transformam misoginia em performance de sucesso. A prevenção precisa disputar esse imaginário.
IHU – O que mais lhe chamou atenção no processo de elaboração do relatório anual de feminicídios no Brasil em 2025?
Silvana Aparecida Mariano – O que mais chama atenção é a repetição dos padrões. Quando olhamos os dados mês a mês, estado por estado, percebemos que muitos casos têm elementos semelhantes: vínculo íntimo, ambiente doméstico, histórico de conflito, separação ou tentativa de separação, presença de filhos, uso de violência extrema e falhas anteriores de proteção.
Também chama atenção a quantidade de feminicídios tentados. Isso mostra que há muitas mulheres sobreviventes, muitas mulheres que quase morreram, e que precisam ser tratadas como prioridade pelas políticas públicas.
Outro ponto muito forte é perceber como cada dado carrega uma história. Por trás da planilha, há mulheres com nome, idade, família, trabalho, sonhos, filhos, comunidade. O relatório é estatístico, mas ele também é um esforço de memória. Ele mostra que o feminicídio não pode ser naturalizado como parte da rotina nacional.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Silvana Aparecida Mariano – Eu acrescentaria que o feminicídio é evitável. Essa talvez seja a mensagem mais importante. Quando uma mulher é ameaçada, perseguida, agredida, isolada ou controlada, já existem sinais de risco. A pergunta é se a sociedade e o Estado estão preparados para reconhecer esses sinais e agir a tempo.
Nós precisamos parar de tratar o feminicídio como o fim inevitável de uma história privada. Ele é um problema público. Ele exige dados qualificados, políticas de prevenção, serviços especializados, responsabilização dos agressores, proteção das mulheres, reparação para familiares e compromisso coletivo com a vida das mulheres.
E precisamos lembrar que falar de feminicídio não é falar apenas da morte. É falar do direito das mulheres a viverem com liberdade, segurança, dignidade e autonomia.