06 Junho 2026
"A encíclica é fruto de um caminho em curso na Santa Sé há cerca de vinte anos, que culminou na nota, muito técnica, Antiqua et Nova, publicada em 2025. Magnifica Humanitas, radicada na tradição cristã, cativa o leitor principalmente com sua visão abrangente da história humana: entre luz e sombra, abismos de mal e exemplos proféticos", escreve Giovanni Maria Vian, historiador e ex-diretor do L'Osservatore Romano, em artigo publicado por Domani, 31-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A encíclica é fruto de um caminho em curso na Santa Sé há cerca de vinte anos, que culminou na nota, muito técnica, Antiqua et Nova, de 2025. A encíclica de Leão, radicada na tradição cristã, cativa o leitor sobretudo por sua visão abrangente da história humana
A encíclica do Papa Leão sobre o tema da humanidade na era da inteligência artificial é, sem dúvida, de interesse amplo e transversal. Texto programático do pontificado, o documento, já figura no topo das listas dos livros mais vendidos na Itália. Em breve será publicado em doze idiomas, e em oito— incluindo o árabe — pode ser lido na íntegra no site da Santa Sé; a versão em latim, contudo, pode esperar, limitada por ora ao título, que gerou certa ironia.
Entre as reações internacionais mais expressivas, a Magnifica Humanitas recebeu surpreendentemente a aprovação do vice-presidente dos Estados Unidos. O católico convertido J.D. Vance, buscou, dessa forma, compensar a sugestão constrangedora que fizera ao pontífice agostiniano de aprofundar mais a teologia, expondo-se imprudentemente a um papelão planetário ao tentar defender a política agressiva e belicista da Casa Branca.
Lançamento e origem
O lançamento do documento foi um sucesso absoluto: graças à intervenção do Papa, que optou por apresentá-lo pessoalmente — uma estreia mundial —, falando em inglês, ao lado de um atento empreendedor de inteligência artificial como Chris Olah, em um salão do sínodo lotado de membros da Cúria. E mais uma vez, o papa de Chicago demonstrou sua eficácia em gerir a comunicação ao explicar a gênese e o significado da longa encíclica.
Leão XIV revelou que na origem do documento está a escuta de especialistas e de muitas vozes, e que dessa consulta ele amadureceu uma convicção "alarmante", sintetizada em uma frase lapidar: devemos desarmar a inteligência artificial. "Trata-se de uma palavra forte, eu sei, mas foi escolhida deliberadamente porque este momento precisa de palavras capazes de atrair a atenção, despertar consciências e indicar o caminho que a humanidade deve seguir", explicou, bem ciente de ter condições mais do que ninguém de proferi-las.
Entre as palavras de que temos necessidade hoje, está "construir"; como aconteceu no Peru em 2017, após enchentes catastróficas, recordou Prevost em um trecho autobiográfico. Naquela situação, o objetivo não era apenas reconstruir — especificou ele —, mas sobretudo "reparar laços, restaurar a confiança e reacender a esperança no futuro". Até porque "ninguém reconstrói sozinho". Como demonstra o exemplo, pouco conhecido, de Neemias e da reconstrução das muralhas de Jerusalém.
Definido pelo pontífice como "profeta bíblico", Neemias era o governador enviado pela corte persa a Jerusalém no final do século V a.C.: após o exílio babilônico, foram lançados os fundamentos do judaísmo e teve início, historicamente, a época conhecida como o Segundo Templo. Esse esforço coletivo de reconstrução, narrado nos livros de Esdras e Neemias, torna-se o novo símbolo que — "no canteiro de obras de nosso tempo" — o Papa Leão contrapõe à imensa massa da qual nasce a confusão de línguas no alvorecer da história humana: a Torre de Babel, expressão do orgulho humano fadada ao fracasso.
Ao eco internacional do documento contribuiu, obviamente, o tema da inteligência artificial, evocado pelo Papa no início de seu pontificado. Nas últimas semanas, a expectativa havia aumentado devido à presença bizarra em Roma — recebida com frieza pelo Vaticano e que caiu no vazio — de Peter Thiel, visionário defensor da rede e do governo estadunidense, e especialmente pelos ataques descontrolados de Trump ao Papa.
Foi nesse contexto que a encíclica chegou, no dia do aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII, publicada em 1891 e que se tornou o documento fundador da doutrina social da Igreja. Assim como a encíclica do Papa Pecci, o documento de Prevost não decepcionou as expectativas, graças à sua crítica circunstanciada e prudente das "coisas novas" da atualidade: digitalização, inteligência artificial, robótica. Imediata e unanimemente, foram reconhecidas a qualidade e a novidade de um texto que, no entanto, vai muito além.
Sintomática no documento é a referência à amarga constatação de Romano Guardini: "o homem moderno não está educado para usar corretamente o seu poder ". Eram os anos do segundo pós-guerra e o juízo formulado pelo teólogo ítalo-alemão antecipava a pré-história da inteligência artificial, um conceito que estrearia em 1956 em uma conferência na Universidade estadunidense de Dartmouth.
A encíclica é fruto de um caminho em curso na Santa Sé há cerca de vinte anos, que culminou na nota, muito técnica, Antiqua et Nova, publicada em 2025. Magnifica Humanitas, radicada na tradição cristã, cativa o leitor principalmente com sua visão abrangente da história humana: entre luz e sombra, abismos de mal e exemplos proféticos.
Tendo como pano de fundo a grandiosa visão agostiniana dos vinte e dois livros de De Civitate Dei, compostos entre 413 e 426 após a queda de Roma, a encíclica leonina propõe uma "teologia da comunhão na história", porque a mensagem do Evangelho toca "até mesmo as estruturas da convivência humana". Reafirmando que a humanidade, devastada pelo pecado, permanece "magnífica" porque é aquela de Cristo, que se encarnou e se fez homem.
Ao longo do texto, a prosa, cuidadosamente supervisionada pelo Papa, busca evitar jargões clericais enfadonhos e desnecessários: ser legível e abordar questões gerais com realismo evangélico. Tais questões incluem a importância da família, os direitos desrespeitados de muitos, especialmente das mulheres, o destino universal das novas tecnologias, privatizadas e sem controle, a desordem das migrações, o aumento de escravidões e colonialismos, a fragilidade das organizações internacionais e do multilateralismo, e o crescimento cada vez mais sofisticado e mortal das guerras.
Os apoios
Prevost se baseia em dezenas de textos: da pederneira da discussão paciente, que em Platão acende "a faísca da compreensão", à necessidade de "fazer tudo o que for possível pela a salvação dos tempos em que vivemos", defendida por um personagem de Tolkien. Até o ensinamento de muitos pontífices, e sem recuar diante do pedido de perdão — na esteira de João Paulo II — por ter efetivamente tolerado a escravidão, que foi condenada em termos absolutos por um pontífice, Leão XIII, somente em 1888.
À cultura do poder, o Papa Leão contrapõe "a civilização do amor". A expressão aparece nas palavras de Paulo VI em 17 de maio de 1970: é Pentecostes e — "embora possa parecer estranho", admite Montini — o evento "interessa também ao mundo profano", pois dele deriva, segundo o Papa Paulo VI, “uma nova sociologia, penetrada pelos valores do espírito, que determina a hierarquia dos valores e se polariza nos verdadeiros e mais elevados destinos do homem; aquela sociologia que tem o sentido da dignidade da pessoa humana e da moral social, e que tende, decididamente, a superar as divisões e os conflitos entre os homens, e a fazer da humanidade uma única família de filhos de Deus, livres e irmãos".
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