30 Mai 2026
O risco dos benfeitores sociais nas periferias: ser instrumento de desmobilização popular e de transmissão da ideologia dos setores dominantes.
O artigo é de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, publicado por La Jornada, 29-05-2026.
Eis o artigo.
Em 1971, três acadêmicos pesquisaram e analisaram o papel das “instituições benfeitoras” nas barriadas (formadas por ocupações de terrenos) de Lima, publicando um trabalho profundo e rigoroso com o título De invasores a invadidos, divulgado nos Cuadernos de DESCO [1].
O estudo se concentra nos efeitos que a intervenção dos “benfeitores” (hoje chamados de ONGs) provoca entre os moradores. Após registrar a enorme expansão das barriadas decorrentes das ocupações (“invasões”, como dizem os meios de comunicação), nas quais milhões de pessoas se concentram nas periferias da capital, os pesquisadores destacam que as instituições benfeitoras buscam “a desmobilização política dos moradores”.
Elas representam o imperialismo, as “burguesias nacionais” e empresários que, ao “ajudarem” os moradores, conseguem “neutralizar politicamente amplos setores urbanos que não podem se organizar em outro espaço que não seja a barriada”. Acrescentam que os “benfeitores” também buscam organizar o consumo dos moradores, sendo seu sucesso, em grande medida, resultado da deserção da esquerda, incapaz de articular esse amplo setor urbano. Uma segunda questão abordada é a atitude dos “cientistas sociais”, em particular os estadunidenses, que realizaram estudos nas ‘barriadas’.
Citam o sociólogo alemão Martin Nicolaus: “Os olhos profissionais do sociólogo estão voltados para as pessoas de classe baixa, e a palma de sua mão se estende às classes dominantes”.
Apontam que os trabalhos de campo desses profissionais têm sido de “grande utilidade para o Corpo da Paz, a USAID, para outros benfeitores, para seu prestígio acadêmico, para as fundações que financiam seus estudos, para suas teses de doutorado, para deleite dos americanistas, etc., mas, com raras exceções, beneficiam os moradores das barriadas”.
A terceira questão trata da análise dos modos de atuação dos “benfeitores”, que, ao se aproximarem dos setores mais ativos das barriadas, “clientelizam os líderes das associações de moradores, que, para manterem a liderança, precisam responder às demandas dos moradores”.
Além disso, difundem a ideia de que não existe uma classe dominante e de que a pobreza é culpa dos próprios pobres, e não uma questão estrutural. Por fim, embora haja muitos outros pontos, os três autores afirmam que não têm o interesse de apresentar um estudo acadêmico, mas expor instituições que “são apenas instrumentos de desmobilização popular e de transmissão da ideologia dos setores dominantes nacionais e estrangeiros”.
Almejam que seu trabalho sirva aos moradores para que conheçam melhor seus “benfeitores”. Partindo deste breve apontamento de um excelente trabalho, gostaria de lembrar que os programas sociais existem há mais de meio século em nosso continente, o mesmo tempo daqueles que os denunciam sem conseguir atenção para as suas pesquisas.
Certamente, há mudanças nas formas e nos estilos da cooperação internacional para o desenvolvimento e a promoção, mas o substancial já estava em curso há mais de meio século. Por isso, surgem algumas perguntas: Por que as organizações de esquerda e os movimentos de baixo ainda aceitam esses programas que, há meio século, sabemos que vão contra os interesses dos povos e dos setores populares? Por que milhares de acadêmicos e cientistas sociais se prestam a ser usados pelas elites, quando, em função de sua formação, têm outras opções e podem trabalhar em outros espaços?
Penso que não é possível compreender essas atitudes sem considerar que a vitória do capitalismo, ainda que seja apenas temporária, convenceu muitas pessoas e partidos políticos de que enfrentar o sistema é perigoso. Não estou dizendo que suas vidas estejam em perigo, não vivem em Gaza, nem em bairros populares ou comunidades originárias.
O perigo que sentem se refere a suas carreiras profissionais, ao sucesso individual e, sobretudo, à estabilidade econômica e no trabalho. Se observarmos em detalhe, tanto os partidos de esquerda quanto boa parte das lideranças dos movimentos são hoje compostos por pessoas que tiveram formação acadêmica, com diplomas que são passaportes para a ascensão social, e fazem parte do que Emmanuel Todd, não sem certa malícia, mas com muita perspicácia, chama de “oligarquia de massas”.
Isso reflete a profunda mutação do sistema, que integrou as camadas superiores dos setores populares, mostrando aos demais o caminho do sucesso individual. Em particular, soube cooptar as lideranças (“clientelizar”, diz o trabalho que menciono). Essas lideranças são peças-chave para estabilizar a dominação. Por isso, o empenho dos zapatistas em não ceder, não se render e não se vender continua sendo uma referência ética indelével. Mais ainda nesses tempos de tormenta sistêmica.
Nota
[1] Alfredo Rodríguez, Gustavo Riofrío e Eileen Welsh, foram sus autores. O trabalho está disponível na internet.
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