29 Mai 2026
"Em tempos de intransigência fanática de todos os tipos, em meio às nossas noites escuras de fé, nos faz bem crer no Deus de Jesus que nos ama e nos salva. É saudável crer que o propósito último da vida reside no amor de Deus. Para crer verdadeiramente, só se pode crer em Deus", escreve Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, em artigo publicado por Religión Digital, 25-05-2026.
Eis o artigo.
1. Ninguém jamais viu Deus
Às vezes falamos de Deus como se tivéssemos o celular dele ou jantássemos com ele todos os dias.
O próprio Jesus disse: ninguém jamais viu a Deus (1 João 1,18 – 1 João 4,12).
Todas as imagens e conceitos sobre Deus são muito limitados; são aproximações, anseios por Deus, mas Deus não cabe em nossas mentes, nem em nossos conceitos e linguagem.
Vivemos à beira da infinitude de Deus, que é um oceano imenso e não cabe em nossas mentes limitadas e pobres.
Deus é sempre maior (Deus semper maior) do que podemos pensar, disse Santo Anselmo no século XII.
2. Deus em Si mesmo e Deus para conosco
Vamos dar um passo além.
K. Rahner (1904-1984) fez uma distinção muito lúcida sobre nossa compreensão de Deus, que pode nos ajudar quando se trata de "nos aproximarmos" de Deus.
A distinção é: por um lado, “Deus como Trindade imanente”, como vida em si mesmo e, por outro lado, “Deus como Trindade econômica”: Deus “para fora”, o que Deus fez por nós.
Não sabemos absolutamente nada sobre o que “Deus é em Si mesmo” (a Trindade imanente). O silêncio, a contemplação e talvez o simbolismo seriam a melhor linguagem para “aproximar-se” de Deus em Si mesmo.
Ora, o que sabemos é o que Deus fez por nós (Trindade Econômica): e o que Deus fez por nós, que foi nos dar a vida e nos salvar por meio de Jesus Cristo.
3. O Deus de Jesus. Deus é amor, Ele é Pai.
Nosso Deus é o Deus de Jesus Cristo.
Conhecemos a Deus através do que Jesus Cristo nos disse e fez. E o que Jesus nos disse é que Deus é nosso Pai e que Deus é amor (1 João 4,8). O Deus de Jesus é o próprio amor. Deus é amor.
Deus enviou seu filho para salvar a humanidade, para que pudéssemos ter vida.
A pessoa religiosa sente medo e vive movido por um medo profundo.
A religião é o grande esforço do homem para domar sua angústia, sua inquietação e seu desespero, para preencher o vazio dentro de si e alcançar a imortalidade, a espiritualidade e a perfeição (P. Tillich).
Os cristãos experimentam Deus como amor. Aqueles que amam, que têm a experiência de amar e ser amados, não terão medo, não serão fanáticos nem fundamentalistas. Os cristãos encontram Deus no amor; no amor, encontramos o Deus de Jesus, porque Deus é amor.
O amor não precisa de explicação, nem na vida comum, nem em Deus. Deus nos conhece, nos ama, e nós O "conhecemos", não intelectualmente ou juridicamente, mas através do amor. A incompreensibilidade de Deus é compreendida através do amor. Onde há amor, Deus está presente e se faz presente para nós.
Não sei se Deus está onde há dogmas e leis, ritos e tradições, mas certamente Ele está naqueles que se amam. Ubi charitas et amor, Deus ibi est. Onde há caridade e amor, aí está Deus.
O Deus de muitas pessoas religiosas não é um Deus saudável, mas isso ocorre porque a mente dessas pessoas está doente.
A teologia, o estudo de Deus, não é, e não deveria ser, uma rede de conceitos complexos, mas sim uma terapia espiritual.
Deus se aproxima de nós em Jesus Cristo não tanto para "conversar" conosco, mas para nos amar e nos salvar. A Palavra de Deus, aquilo que o Deus de Jesus nos diz, é amor e salvação.
4. Tempos de ateísmo?
Costumamos dizer que os tempos e a mentalidade em que vivemos no Ocidente são caracterizados por ateísmo, agnosticismo, descrença, etc. Mas, na verdade, acredito que quando os seres humanos deixam de acreditar em Deus, passam a acreditar em qualquer coisa, em "ídolos substitutos", sejam eles a pátria, o dinheiro ou qualquer outra coisa, e tudo isso dentro de uma estrutura de superficialidade e frivolidade.
Os seres humanos sempre se reconectam — por meio da religião — com alguma realidade, algum fetiche, totem, ídolo… Hoje, acreditamos firmemente em pátrias, poder, dinheiro, prazer… Em nossa sociedade, não existem ateus, mas sim pagãos que se prostram diante de ídolos. Essa é a grande concepção errônea de nossa cultura ocidental…
Pensamos, e frequentemente dizemos, que nossos países são desenvolvidos. E em termos econômicos, políticos e tecnológicos, isso é verdade, mas quando se trata das questões fundamentais da vida, o retrocesso é brutal. Quando nos prostramos e adoramos ídolos e fetiches, que Deus tenha misericórdia de nós… Basta olhar para Trump, Netanyahu, o suicídio e o que essa mentalidade acarreta.
Em tempos de intransigência fanática de todos os tipos, em meio às nossas noites escuras de fé, nos faz bem crer no Deus de Jesus que nos ama e nos salva. É saudável crer que o propósito último da vida reside no amor de Deus. Para crer verdadeiramente, só se pode crer em Deus.
Deus é um anseio infinito por amor e salvação.
Só Deus pode nos salvar.
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