Pentecostes: o que nos separa não é a língua nem a nação, mas o espírito que carregamos dentro de nós. Artigo de Tomás Muro Ugalde

Foto: Freepik | Carol Right

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22 Mai 2026

"Maria recebeu o Espírito de Deus, e esta é a fonte da vida: Jesus nasceu. Quando temos espírito, temos vida, fôlego vital, e criamos vida; compreendemos uns aos outros. E isso é Pentecostes", escreve Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, em artigo publicado por Religión Digital, 20-05-2026.

Eis o artigo.

1. Pentecostes

Pentecostes significa literalmente o quinquagésimo dia. Cinquenta dias depois da Páscoa. Mas não se trata de uma separação temporal (cinquenta dias), mas sim de um espaçamento litúrgico e festivo, porque tudo aconteceu no primeiro dia da semana, na manhã da Páscoa, ao recebermos o Espírito Santo… (São João).

2. O Espírito de Jesus

É bom e razoável que abordemos esses eventos não com uma mentalidade física, biológica e temporal, mas sim que abracemos essas realidades de forma convicta, a partir do mundo simbólico, poético e teológico.

Toda a vida, morte e ressurreição de Jesus são presididas e governadas pelo Espírito:

  • Desde o seu nascimento: Jesus nasceu pela obra do Espírito.

Quando Jesus foi batizado por João Batista, os céus se abriram e o Espírito Santo desceu sobre Jesus (Lc 3,23).

  • É o espírito que leva Jesus ao deserto (da vida), onde ele sofrerá tentações (Lc 4,1).

  • Quando Jesus inicia sua atividade pública na sinagoga, ele diz: O Espírito de Deus está sobre mim (Lc 4,18).

Na cruz, Jesus entrega o seu espírito à comunidade cristã (Maria e o Discípulo Amado). Jesus, inclinando a cabeça, entregou o seu espírito (João 19,30).

  • Foi o Espírito de Deus quem ressuscitou Jesus dentre os mortos (Romanos 8,11).

3. Todos nós temos algum espírito

Em Gênesis, no início [1] Deus infunde no barro humano o fôlego vital (Gn 2,7), Deus comunica seu espírito - bom espírito santo - aos seres humanos, o que nos torna seres viventes.

Viver com espírito é viver com alegria, entusiasmo e desejo de viver.

Em breve, a história tomará um rumo diferente, e “outros espíritos” — não bons, mas sim “espíritos imundos” — como Jesus os chamará no Evangelho, governarão a vida humana: a inveja que leva à morte fratricida de Abel pelas mãos de seu irmão Caim (Gênesis 4). As coisas pioraram quando o homem buscou alcançar o “céu do poder” construindo a Torre de Babel (Gênesis 11).

Os seres humanos, as ideologias políticas e os conflitos e cismas eclesiásticos têm origem num "espírito maligno" de ódio, poder, grandeza, nações, dinheiro…

Caim e Abel e a Torre de Babel nunca existiram, mas existem todos os dias:

  • Em que família, ideologia política ou congregação religiosa não existem conflitos, rupturas e questões antigas não resolvidas?
  • A Torre de Babel é um mito usado para explicar "perfeitamente" o que aconteceu e continua acontecendo ao longo da história. Uma "campanha eleitoral" é o que mais se assemelha à Torre de Babel: todos querem alcançar o "paraíso do poder", e é por isso que não se entendem. Babel representa a condição humana, a luta para "alcançar os céus", para "tocar" o ápice do poder político, patriótico, econômico e eclesiástico. Nós ansiamos por poder. E por termos essa ambição profundamente enraizada em nós, não nos entendemos.

Babel é confusão e incompreensão. O Espírito do Senhor (Pentecostes) é bom e santo, e por meio Dele nos entendemos uns aos outros.

4. Pentecostes

Quando o bom (santo) Espírito de Jesus, o estilo e o tom vital de Jesus e de Deus estão em nós, temos o desejo de viver e nos entendemos uns aos outros, mesmo que falemos línguas diferentes, tenhamos teologias diferentes, etnias diferentes, liturgias diferentes, opções ideológicas diferentes, etc.

O que nos divide não são as línguas, mas o espírito que carregamos dentro de nós.

Pentecostes é compreensão, é sabedoria.

No primeiro dia da semana (da nova criação), Jesus deu aos seus discípulos o seu fôlego, o seu espírito. "Recebam o Espírito Santo." Esses discípulos foram revigorados, cheios de vida e transformados, recriados; começaram a ser novas pessoas, vencendo medos e tristezas.

É verdade que somos barro, insignificantes, mas o " sopro vital" do Senhor nos torna seres vivos com o desejo de viver com esperança.

Viver no Espírito é viver aberto, buscando, com uma inquietação saudável. Ser espiritual significa estar aberto a tudo o que acontece ou pode acontecer na história.

4. A Anunciação e Pentecostes

Podemos traçar um paralelo entre a Anunciação e o Pentecostes. Vivemos entre a Anunciação e o Pentecostes.

Maria recebeu o Espírito de Deus, e esta é a fonte da vida: Jesus nasceu. Quando temos espírito, temos vida, fôlego vital, e criamos vida; compreendemos uns aos outros. E isso é Pentecostes.

Não apaguem o Espírito. (1 Tessalonicenses 5,19)

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