“Eles nos abandonam aqui para morrer”: um relatório da HRW relata o sofrimento de mais de 12 mil estrangeiros deportados dos EUA para o México

Foto: Marcelo Camargo | Agência Brasil

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28 Mai 2026

A organização de direitos humanos documenta as condições desumanas nos centros de detenção dos EUA e o impasse jurídico para cubanos e cidadãos de outros países enviados para o sul da fronteira pelos Estados Unidos.

A reportagem é de Nicholas Dale Leal, publicada por El País, 27-05-2026.

O ônibus chegou a Villahermosa às duas da manhã. Agentes da imigração mexicana removeram suas algemas e disseram que estavam livres. Ninguém explicou onde iriam dormir, como conseguir comida ou o que fazer em seguida. Alguns vestiam uniformes de presidiários. Muitos tinham mais de 60 anos. Vários estavam doentes.

Essa cena, repetida durante meses em diversas cidades do sudeste do México, principalmente Tapachula e Villahermosa, é o tema central de um extenso relatório publicado na quarta-feira pela Human Rights Watch (HRW). Intitulado “Eles estão nos deixando aqui para morrer”: Deportações dos Estados Unidos para o México de cubanos e outros cidadãos de terceiros países, o relatório documenta os abusos cometidos por Washington contra migrantes deportados para o México, bem como a quase completa ausência de resposta do governo mexicano a uma crise humanitária que se desenrola em seu próprio território.

Entre o primeiro dia do segundo mandato de Donald Trump e 9 de março de 2026, os Estados Unidos deportaram quase 13 mil cidadãos de terceiros países — indivíduos que não são cidadãos americanos nem mexicanos — para o México. Isso representa 70% de todas as deportações desse tipo, que também ocorreram para diversos países da América Central e da África.

Apesar do elevado número de deportações, a base legal para essas expulsões é obscura. Em março de 2026, o Departamento de Justiça dos EUA reconheceu perante um tribunal federal a existência de um “acordo (não escrito) vigente” com o México para essas deportações, sem, contudo, identificar qualquer fundamento jurídico. O governo da presidente Claudia Sheinbaum, por sua vez, tem evitado reconhecer formalmente a existência de tal acordo, descrevendo as recepções como um gesto “humanitário” quando se pronuncia sobre o assunto. O El País solicitou informações sobre o tema às autoridades mexicanas, mas não obteve resposta.

Dos estrangeiros deportados para o México, os cubanos constituem o maior grupo — 4.353 pessoas no período analisado — em grande parte porque o governo cubano se recusa a aceitar o retorno de muitos de seus cidadãos, particularmente aqueles que emigraram décadas atrás ou que possuem antecedentes criminais. Durante anos, a recusa de Havana protegeu milhares de cubanos com ordens de deportação pendentes nos Estados Unidos, que viviam sob um sistema de supervisão migratória que lhes permitia trabalhar e residir no país apesar das ordens contra eles. Trump pôs fim a essa tolerância de fato.

O perfil dos cubanos deportados descrito pela HRW desafia a narrativa da deportação como instrumento contra os crimes mais graves. Quase todos os entrevistados eram residentes permanentes legais — possuíam o green card — e, embora a maioria tivesse perdido esse status após condenações criminais, em muitos casos a perda se deu por delitos menores cometidos anos antes: dirigir sob efeito de álcool, acusações leves relacionadas a drogas, falsificação de documentos, entre outros.

O relatório, baseado em entrevistas com 53 deportados e 27 funcionários, advogados e ativistas, estabelece um padrão claro: prisões realizadas em comparecimentos de rotina ao Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em casa, no trabalho ou após a libertação da prisão; em seguida, transferências de ônibus para a fronteira norte do México — algemados nos pulsos, cintura e tornozelos; finalmente, transferência para a custódia das autoridades mexicanas, que os detêm e os transportam por dois ou três dias para o sul do país.

Condições desumanas em ambos os lados da fronteira

As condições nos centros de detenção de imigrantes do ICE estão bem documentadas. Este relatório reforça essa documentação: superlotação, temperaturas extremas, acesso limitado a cuidados médicos, alimentação insuficiente e iluminação constante. Além disso, pelo menos 15 entrevistados descreveram episódios de violência física ou verbal, incluindo períodos de isolamento. Ademais, um dos depoimentos coletados coincide com relatos públicos sobre a morte de um detento cubano em El Paso, Texas, cuja autópsia classificou a causa da morte como homicídio por “asfixia causada pela compressão do pescoço e do tronco” durante a contenção.

Ao chegarem ao México, a situação não melhora: os deportados são libertados sem documentos, dinheiro ou orientação. Vinte e dois dos cubanos entrevistados sofriam de doenças crônicas — diabetes, hipertensão, problemas cardíacos, câncer — e não tinham seus medicamentos nem acesso a eles.

A situação é exemplificada pelo caso de Ricardo del Pino Olivera, um cubano de 67 anos que morreu em Villahermosa em 21 de fevereiro de 2026, após semanas de internação por desnutrição grave. Sua certidão de óbito indicava sua nacionalidade como “desconhecida”.

Além disso, a precária situação de segurança nas cidades de destino, principalmente nos estados do sul de Chiapas e Tabasco, expõe os deportados à criminalidade. Em 2024, Tabasco registrou sua maior taxa de homicídios da história, um aumento de 204% em relação ao ano anterior, em grande parte ligado a disputas entre o Cartel Jalisco Nova Geração e facções rivais. Em Chiapas, a violência aumentou de forma semelhante. “Os migrantes são a mercadoria do crime organizado”, disse Josué Leal, coordenador do abrigo Amparito em Villahermosa, que fechou as portas em abril por motivos de segurança, à equipe da HRW.

O relatório enfatiza que o problema subjacente é estrutural. O México não oferece a esses indivíduos um caminho genuíno para a residência permanente. Sua única opção é solicitar asilo junto à COMAR (Comissão Mexicana de Assistência aos Refugiados), um processo repleto de entraves burocráticos que se agravaram desde que o governo Trump reduziu drasticamente o financiamento ao ACNUR: de US$ 50 milhões em 2024 para meros US$ 8 milhões em 2025.

O resultado é um beco sem saída. Enquanto seus pedidos estão sendo processados, os requerentes devem permanecer no estado onde os apresentaram — precisamente os estados com os maiores índices de violência — e não podem acessar empregos formais. Além disso, o cenário caso seu pedido de asilo seja rejeitado é absurdamente incerto: eles não podem retornar aos seus países de origem, não têm status legal no México e não podem retornar aos Estados Unidos.

Embora esse fenômeno tenha sido noticiado pela mídia, ele não é abordado de forma consistente e séria nas agendas políticas mexicana e estadunidense. O relatório da HRW busca influenciar os governos envolvidos, fornecendo uma descrição detalhada de uma prática sistemática que deixa milhares de pessoas em um limbo aparentemente insolúvel.

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