A simetria na dor e a revolução do perdão. Artigo de Raffaella Romagnolo

Foto: Richard Wang/Unsplash

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23 Mai 2026

"'Perdoar', afinal, significa literalmente 'doar completamente', sem limites. Em conclusão, não sei se o abraço que virou notícia é realmente uma manifestação daquela coisa tão difícil de dizer e praticar que é o perdão, mas não ficaria surpresa se estivéssemos bem perto, e me curvo diante disso", escreve Raffaella Romagnolo, escritora italiana, em artigo publicado por La Stampa, 21-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Penso no abraço que causou sensação e me pergunto se pode ser legitimamente incluído na gigantesca e misteriosa categoria do “perdão”. Gigantesca porque geralmente é percebida como próxima da santidade. Misteriosa porque, de todo caso, é muito difícil de definir em palavras. Em que consiste exatamente o perdão? É um estado de espírito? Uma postura ética? Um mandamento? Uma virtude? É uma relação entre indivíduos? Uma negociação delicada? É tudo isso junto?

A julgar pelos recortes de notícias e pelas declarações dos presentes, duas coisas me chamam a atenção. A primeira são os corpos, aquele ofendido e aquele de quem ofendeu, entrelaçados num gesto igual, mas contrário àquele violento e repetidamente perpetrado na noite de 12 de outubro passado. Os corpos, quero dizer, me impressionam antes mesmo das palavras. Aliás, para além das palavras, no sentido de que os humanos falam em primeiro lugar, e de forma menos ambígua e evasiva, com o corpo.

Os presentes declararam que, quando um dos réus entregou uma carta, a vítima pediu para se aproximar. Não pretendo aqui de fazer um tratado retórico sobre o abraço. Apenas ressalto que, naquele movimento duplo (entregar uma carta, responder aproximando-se com o corpo), naquele movimento de ir em direção ao outro com simplicidade já se pode adivinhar a simetria que o abraço clamorosamente estabelece, com os corpos recuperando espontaneamente o equilíbrio quebrado durante a terrível noite milanesa. E nem mesmo o quando e o onde não me parecem detalhes insignificantes: cada evento terrível que aconteceu acabara de ser apresentado ao juiz com o registro oficial do caso. De certa forma, acabara de ser evocado no tribunal, ou seja, revivido em palavras, e também a pena já havia sido solicitada. Naquele instante, não antes, não depois, eles se abraçaram, e os corpos, então, falam mais alto que mil discursos sobre a simetria da dor.

Não me interpretem mal: o mecanismo complicado e um tanto obscuro do perdão, para funcionar, exige que alguém, em plena consciência, peça desculpas e que outra pessoa, com igual sinceridade, aceite o pedido de desculpas. "Simetria da dor" não significa que não existem papéis e responsabilidades. Simplesmente destaco que aquele abraço resulta tão marcante também porque foi praticado no lugar onde, segundo a lei, os fatos são julgados e o veredicto é proferido. Ou seja, em conformidade com os papéis e as responsabilidades.

A segunda coisa que me impressionou foi a extrema juventude de todos os protagonistas. Pergunto-me se a entrada na vida adulta traz consigo uma força que talvez, ao longo do caminho, acaba meio que se perdendo. Um desejo de absoluto que, com o passar dos anos, tendemos a perceber como ilusório.

"Perdoar", afinal, significa literalmente "doar completamente", sem limites. Em conclusão, não sei se o abraço que virou notícia é realmente uma manifestação daquela coisa tão difícil de dizer e praticar que é o perdão, mas não ficaria surpresa se estivéssemos bem perto, e me curvo diante disso.

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